CONTOS DA ILHA

Contos da Ilha, apesar da grande expectativa que cercava o filme, acabou se tornando um dos filmes mais alternativos do Festival. Exibido em sess�es espremidas entre outras grandes atra��es, ou em hor�rios duvidosos, como um domingo �s 23: 45, numa sess�o em que, al�m do autor dessas linhas, restaram alguns poucos sobreviventes.

Stanley Kwan � o t�pico representante de um cinena inquieto de Hong Kong cujo exemplo mais degenerativo � John Woo. Mas neste filme de Kwan a viol�ncia � uma vari�vel ao mesmo tempo intimamente presente mas tamb�m ausente. Mais importante que a viol�ncia propriamente dita � o efeito que a possibilidade da viol�ncia causa no comportamento dos personagens. O resultado � um pequeno estudo, em tom de com�dia, farsa e com v�rios toques de absurdo, sobre a impot�ncia da condi��o humana, e a fragilidade de personagens que aparentemente se julgam fortes.

Numa ilha distante, uma estranha epidemia afasta a popula��o do local. As pessoas que l� ficam, por um motivo ou outro, acabam tendo seus caminhos cruzados. Ao explorar o ponto-limite de indiv�duos que resistem � beira da cat�strofe numa epidemia, o filme nos lembra o recente O Buraco. Com a quarentena, os personagens s�o reduzidos a seus instintos b�sicos, e dessa tens�o � que nascem os conflitos. Em termos pol�ticos, a necessidade do isolamento continental foi entendida por alguns cr�ticos como uma met�fora para a situa��o de Hong Kong em rela��o � China.

Na est�tica, Kwan promove uma esp�cie de jogo com a narrativa cl�ssica, especialmente com a prepara��o, os conflitos e o cl�max, que nunca se resolve completamente. A explicita��o dessa esfera de um jogo fica clara quando o filme sutilmente passa a suspeita de que toda a hist�ria pode ser fruto da cabe�a de um escritor sem imagina��o. Dialogando com clich�s de uma forma sempre amb�gua, Contos da Ilha mascara-se de drama psicol�gico, de um thriller de suspense, ou mesmo de um pequeno painel (devido � diversidade de personagens envolvidos) para jogar com os limites da narrativa e da representa��o, oscilando entre a caricatura (como a atua��o canastrona da musa Michelle Reis) e conseguindo mesmo alguns momentos de poesia (como a bela cena em que uma das mulheres passeia pela ilha levando em suas m�os fogos de artif�cio brilhantes, em contraste com a escurid�o da noite e o medo da epidemia).

Todo essse soturno, misterioso e absurdo jogo � filmado com uma liberdade e um descompromisso com as regras do bom cinema que n�o s� diverte na sua doce superficialidade como ora ou outra nos faz pensar. Por isso, por vezes, nos lembra mesmo dos filmes do cinema marginal brasileiro. A prostituta acaba mijando na praia, porque o pseudo-gal� se recusa a abrir a porta com medo da epidemia. Em outra cena, pessoas se re�nem em torno do corpo de uma mulher que teve um ataque de uma hora para a outra.

Se Contos da Ilha n�o chega a impressionar como um grande filme, sem d�vida � um filme curioso por suas excentricidades, que serve como um aperitivo para o cin�filo que admira um cineasta que filma com vitalidade e com um descompromisso toalmente avesso �s regras do cinem�o.

Marcelo Ikeda

16/10/2000.

 

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