CELEBRIDADES

Muita gente tem afirmado que o cinema de Woody Allen anda se repetindo. Que bom! Pois no grande marasmo que reina na produ��o cinematogr�fica atual � raro podermos assistir a uma divers�o inteligente. Allen � um daqueles rar�ssimos cineastas da atualidade que n�o mais tem a necessidade de provar que pode se superar. No entanto, seus filmes n�o caem no egocentrismo extremado de um Greenaway, por exemplo. Allen continua no fundo fazendo o mesmo tipo de cinema que o consagrou desde Annie Hall, mas a diferen�a � que ele amadureceu.

A diferen�a das com�dias atuais de Woody Allen � a sua refer�ncia aos filmes e aos cineastas de sua forma��o. Se essa perspectiva nost�lgica j� se fazia presente desde o seu retorno dos dramas bergmanianos, como em A Era do R�dio e A Rosa P�rpura do Cairo, � em Desconstruindo Harry que sua vertente auto-referencial mais se fez presente. Em Harry, h� cita��es de Bergman a Fellini. Decerto que mesmo num de seus primeiros filmes como Love and Death j� surgia a refer�ncia ao cineasta sueco, mas agora parece ser diferente. Em Harry, mais que um jogo de refer�ncias, surge um profundo senso de saudosismo e nostalgia. Quando Allen (i.e Kenneth Brannagh) conhece uma gostosona num bar, ele tem um di�logo meio desengon�ado que � uma refer�ncia quase expl�cita ao encontro de Mastroianni e Ekberg em A Doce Vida. A sutil refer�ncia, totalmente justificada tendo em vista o pr�prio roteiro do filme, � completamente diferente do exerc�cio pseudo-referencial de Greenaway em 8 1/2 Women, ou da obscura ironia p�s-moderna dos Irm�os Coen em E A� Meu Irm�o. Porque no Allen de hoje as refer�ncias ao cinema sempre resgatam um sentimento de mundo, e nunca o inverso.

Da� a grande import�ncia do primeiro plano que abre o filme, quando se v� uma filmagem em que um avi�o desenha no c�u uma palavra a princ�pio ileg�vel, e que no final se revela HELP. Este � o mesmo plano que encerra o filme. Ao centrar seu filme nas obsess�es e na parte comum que cerca a rotina dos que s�o famosos ou que buscam a fama, Allen faz ao mesmo tempo uma homenagem e uma cr�tica a uma classe que ele pr�prio sabe que pertence. � uma cena paradigm�tica do atual cinema de Allen.

Em outros momentos, o filme � mais irregular, caindo em algumas descontinuidades narrativas. Algumas ousadias, como a obsess�o do diretor pelo sexo oral, d�o a impress�o de que Allen �s vezes for�a um certo tipo de humor para mostrar que ainda n�o envelheceu. Mas os melhores momentos de Celebrity s�o sem d�vida aqueles em que o velho diretor resgata a emo��o. E nos �ltimos filmes, a grande transforma��o do cinema de Allen � que essa emo��o quase sempre est� relacionada a uma nostalgia de um cinema que sempre dialogue com um sentimento de mundo.

Marcelo Ikeda

10/10/2000.

 

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