CECIL B. DEMENTE

O novo filme do sempre pol�mico John Waters decepciona porque de certa forma no filme a cr�tica �s hipocrisias da sociedade americana se dilui quando registra de forma caricata e paran�ica uma alternativa que por defini��o n�o consegue se afirmar como v�lida, mas apenas como ris�vel.

O filme mostra um grupo terrorista que resolve raptar uma famosa atriz de filmes mainstream (Melanie Griffith) para registrar seu protesto contra o cinema de m� qualidade. Eles obrigam a atriz, contra a sua vontade, a atuar em suas opera��es terroristas, mas, com o tempo, ela vai aderindo ao movimento, at� ser marcada com o selo "demented forever".

Dessa forma, Waters trabalha com uma s�rie de refer�ncias ao cinema americano. Cada personagem marcadamente possui um estilo que caracteriza um diretor americano, entre eles, Fuller e Preminger. Em outro momento, o grupo destr�i um cinema que exibe Patch Adams. Mas as refer�ncias n�o se limitam apenas ao cinema, mas � pr�pria sociedade americana. O pr�prio argumento da mulher raptada que adere ao movimento terrorista de seus raptores aconteceu de fato nos Estados Unidos do in�cio dos anos 70. N�o era com uma atriz, mas com a filha do lend�rio Charles Kane (que inspirou o filme de Orson Welles), Patricia Hearst. O mais incr�vel � que apesar das evid�ncias em contr�rio, ap�s ser presa pela pol�cia, Patricia foi julgada inocente pela justi�a e libertada.

Se o clima de amea�a terrorista pode parecer radical, o filme � perfeitamente linear, e segue a est�tica pseudo-trash de filmes anteriores de Waters. Mas sua for�a provocadora est� notadamente dilu�da. Um dos pontos do filme � mostrar o quanto s�o caricatos e rid�culos os objetivos desse grupo. O pr�prio diretor se chama "Demented". Com isso, Waters de fato n�o oferece nenhuma alternativa ao mainstream. Redicularizando uma forma de alternativa, Waters se revela conservador, porque ridiculariza o retrato paran�ico de uma gera��o a qual ele pertenceu.

De certa forma, o filme � um retrato c�nico de um mundo em que as polaridades n�o fazem mais sentido. � pelo menos o que querem nos fazer acreditar. No mundo da globaliza��o, Cecil B. DeMented comprova que � imposs�vel para o cinema falar de quaisquer tipos de ideais, mas apenas ser um pastiche ou uma caricatura, entre cita��es e auto-refer�ncias. Lament�vel para um realizador que sempre se destacou pela transgress�o.

Marcelo Ikeda

05/10/2000.

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