O ARMÁRIO

O primeiro longa-metragem de Gustavo Corrado desperdiça uma bela oportunidade, contrariando as espectativas de seu singelo argumento. Um homem é despejado de seu apartamento e passa a viver no interior de um armário numa área abandonada da cidade, nos arredores de uma fábrica fechada. Corrado poderia examinar com poesia a vida dos excluídos sociais, sua tentativa de aproximação, utilizando o armário como um refúgio do cruel mundo exterior.

De um certo ponto de vista, O Armário é um filme comovente, porque percebe-se o esforço de Corrado em realizar o filme sem nenhuma condição econômica. Como o diretor coordena uma escola de cinema na Argentina, é de se supor que seja um filme com uma base universitária, aproveitando para treinar e utilizar alunos na filmagens. No entanto, o fracasso do filme, e suas inúmeras falhas estruturais (e não técnicas, percebam bem) apenas evidenciam a situação do cinema independente mundial. Corrado poderia incorporar a precariedade na estética de seu filme, realizar um filme menos descompromissado com as regras do bom cinema, fazer um filme mais solto, mais livre, poderia tentar arriscar um pouco mais. Mas não. O Armário é um filme bastante conservador dado seu estilo de produção. E isso é bem ruim, porque, com o fracasso do filme, isso só comprova que o diretor nem mesmo sabe realizar aquilo que rotulam de bom cinema assim como não procura uma nova alternativa mais criativa.

Um filme que fala sobre marginais e sobre a exclusão social deve necessariamente ser entremeado de silêncios. O contato do velho homem com a prostituta se perde em sua estrutura dramática. Na cena-limite, os homens a quem ela chama para ajudá-la querem matá-lo, mas depois, a pedido dela, desistem, e vão embora. Além disso, o roteiro do filme é bastante desarticulado. Vemos claramente que o diretor partiu de um argumento original mas que não sabe como desenvolver o filme para completar a duração de um longa-metragem. Embora dure parcos 77 minutos, O Armário não incorpora os tempos mortos de forma criativa, o que apenas comprova um esforço do diretor para poder passar o tempo.

O melhor ponto do filme é a escolha de locações, e o filme parece se basear num fato real, já que no terço final, o filme se transforma quase em um pseudo-documentário.

O uso de elementos como a péssima trilha sonora mostram que no fundo O Armário quer nos sensibilizar, e é nesses momentos que o filme desmorona. A música melosa nos tempos certos, as reações caricatas dos personagens e dos atores são um exemplo que o grande sonho de grande parte do cinema independente é provocar o mesmo efeito do filme mainstream. A diferença é que esses realizadores não sabem trabalhar de forma eficientes com as ditas regras do bom cinema.

Marcelo Ikeda

08/10/2000.

 

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