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� um n�tido exagero que Frango ao Vinagrete seja exibido numa mostra de filmes noir (O Lado Escuro da Tela � o filme noir franc�s no CCBB/Rio em 13/11/2002). No m�ximo, o filme � um drama criminal, ou um policial. N�o h� aquele clima fatalista de destino, que creio ser a principal refer�ncia do noir, nem as curtas frases de efeitos, o cigarro, a noite chuvosa, os becos, a femme fatale. Em termos de cinematografia, n�o h� nem mesmo a ilumina��o contrastada, o jogo de sombras. Muito sugestiva foi a op��o da Mostra do CCBB de
exibi-lo logo ap�s Cartas An�nimas (O corvo), de Clouzot, por v�rios
motivos. Primeiro, porque as cartas t�m papel fundamental em ambos os
filmes, no sentido de revelar o que h� por tr�s da pacata vida de uma
cidadezinha. Em segundo, porque a op��o de Chabrol de lentamente se
afastar do paradigma da nouvelle vague e se concentrar em filmes de tom
policial mais pr�ximos ao gosto do p�blico n�o deixa de ser um modesto
resgate a um cineasta muito malhado pela nouvelle vague, mas que hoje pode
ter seus m�ritos indiscutivelmente reconhecidos: o pr�prio Clouzot. De fato, h� algum tempo, o veterano cineasta Claude
Chabrol j� vinha se dedicando a esse g�nero de filme, com destaque para
o belo O A�ougueiro, de 1970. Sem a sombra perversa da Nouvelle Vague,
Chabrol faz um filme menor que possui o seu charme. Como a maioria dos
filmes de Clouzot, � quase econ�mico em termos de filmagens, comprovando
a experi�ncia do diretor. Os carrinhos s�o raros, substitu�dos por
panor�micas. Os planos n�o s�o longamente trabalhados: quando o espa�o
f�sico, especialmente em interiores, � restrito, a op��o � pelo
corte. Frango ao Vinagrete se passa em uma pequena cidade no
interior da Fran�a. L� vive-se com suas vidas comuns e at� certo ponto
med�ocres. Pouco a pouco, no entanto, este clima de normalidade vai sendo
quebrado, e nos s�o reveladas as perversidades de cada um dos personagens
envolvidos. Cada um deles tem algo a esconder, tem alguma motiva��o rec�ndita,
algum desejo reprimido. Por isso, o come�o do filme nos mostra um
carteiro que, antes de entregar as correspond�ncias, abre-as no bico da
chaleira, com sua m�e, para descobrir seus segredos e pequenos pecados.
Incapaz de ter uma vida ele pr�prio, pela excessiva vigil�ncia da m�e
paral�tica, presa a uma cadeira de rodas, seu �nico ref�gio � espiar
as a��es de seus vizinhos, e acaba envolvido numa trama de assassinato. O filme percorre com certo cinismo a trajet�ria amb�gua
dos personagens, frustrados com seus esconderijos, especialmente com a
chegada do esquisit�ssimo inspetor Laverdin. Ele emprega a��es de
investiga��o absolutamente impositivas, for�ando a confiss�o,
chantageando e mesmo agredindo fisicamente os suspeitos. Eles no entanto n�o
reagem: cada um tem algo a esconder. Como todo filme policial, Frango ao Vinagrete � cheio de pistas falsas e caminhos que acabam levando a lugar nenhum. O ponto central do filme, a princ�pio, parece ser o de um grupo de empres�rios locais que querem convencer o carteiro a fazer sua m�e vender sua casa. A m�e resiste, ainda que a proposta para a compra seja irrecus�vel. Os empres�rios come�am a amea�ar o rapaz, dizendo que ir�o ter a casa de qualquer maneira. Mas no entanto essa trama � mero pretexto para o filme. Tanto que, ao final, a casa pega fogo, a m�e paral�tica acaba no hospital, mas a companhia que iria comprar a casa acaba se desconstituindo, e o empres�rio preso. Semi-destru�da, a casa n�o fica nem com um nem com outro, tampouco com o carteiro, que vai dormir na casa de sua nova namorada. Um sintoma completo da solid�o deste estranho filme franc�s. Marcelo Ikeda (14/11/2002) |