FOLLOWING

 

Following � um t�pico exemplar do cinema independente norte-americano neste final de s�culo. Or�amento barato, um filme de estr�ia realizado por uma equipe reduzida, em 16mm e em preto-e-branco. No conte�do, explora um tema t�pico da chamada Gera��o X: a solid�o e a falta de perspectivas de um cara em torno dos trinta anos.

No in�cio, o filme at� promete: Bill procura uma identidade e um sentido para sua vidinha perseguindo pessoas ao acaso pelas ruas. O come�o do filme tem momentos interessantes quando descreve rapidamente uma multid�o sem nome, rosto ou identidade. Ao mesmo tempo em que Bill procura casualmente algu�m para perseguir, temos um painel de como o problema atinge os americanos em geral. Mas um dia um de seus perseguidos percebe o fato, e interroga Bill. Ele se identifica com Cobb, que tamb�m compartilha do desejo de entrar na vida das pessoas mas de um modo ainda mais extremo: ele invade aleatoriamente apartamentos para furtar objetos que sejam estritamente pessoais, como cartas, roupas �ntimas e CDs. A princ�pio, Bill quer vender os objetos, s� pensando na possibilidade de ganhar dinheiro, mas em seguida, recua. Guardando os objetos �ntimos das pessoas, ele se sente como pela primeira vez tendo uma identidade pr�pria, como uma mescla de um pouco da vida de cada pessoa cujo apartamento ele invadira. Nesse aspecto, o filme � claramente p�s-moderno: Bill constr�i artificialmente sua identidade, moldando-a segundo um padr�o que ele decide ap�s adquirir os objetos, de modo que sua verdadeira identidade passa a ser uma coisa sem sentido, mas uma colagem esquiz�ide de diversas tend�ncias. A melhor cena do filme � exatamente quando Bill desembrulha as bugigangas e as coloca carinhosamente na escrivaninha de seu quarto sujo e decadente.

A partir de ent�o, o filme se perde completamente. Ao inv�s de permanecer investindo no problema de identidade de Bill e na sua obsess�o em ser como Cobb como parte desse processo de "colagem p�s-moderna", o filme se revela um thrillerzinho de suspense com uma narrativa n�o-linear. Da� surgem os cacoetes t�picos do cinema independente. Por isso, Following � um exemplar t�pico desse tipo de cinema, j� que emprega os mesmos recursos e as mesmas armadilhas para iludir o espectador. Como em Pulp Fiction, o filme insiste em flashbacks e flashforwards amb�guos, que dificultam a percep��o imediata do espectador dos acontecimentos. O autor lida bem com os flashforwards: numa cena vemos uma pessoa de cabelos cortados, e depois reconhecemos ser Bill, quando este, mais tarde, decide cortar os cabelos e mudar seu visual. O problema � que o diretor utiliza esses recursos como simples maneirismos, que n�o contribuem em nada para o todo do filme.

Al�m disso, o filme se perde completamente quando o diretor resolve montar seu quebra-cabe�as, explicando cada cena para o espectador. Seus personagens perdem ent�o sua ess�ncia, tornando-se simples estere�tipos. A invas�o de Bill � loja do g�ngster e a morte da mulher se tornam completamente inveross�meis. A mulher se revela uma pseudo femme fatale, j� que ela pr�pria � enganada no final. De fato, o filme se transforma em um pseudo-neo-noir, com uma trama que envolve dinheiro, um cara idiota, apaixonado por uma femme fatale. O quebra-cabe�as � montado segundo a "l�gica do absurdo", e apresentado disscado para o espectador. Following � portanto, um retrato perfeito da crise criativa do cinema independente, que n�o consegue fugir das f�rmulas de seus filmes de maior proje��o. O resultado � uma grande caricatura, numa colcha de retalhos entre Gera��o X, Tarantino e Irm�os Coen. Talvez o diretor Nolan se identificasse com seu personagem Bill: para construir sua pr�pria identidade como diretor, ele fez uma "colagem" de pessoas e filmes que ele admirava, para p�r em sua mesinha de cabeceira. Mas como o pr�prio filme acertadamente diz, Bill continua um idiota sem identidade.

Marcelo Ikeda.

NOTA: 5

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