"POR TRÁS DA SUPERFÍCIE: ALIENAÇÃO E CONSERVADORISMO EM "DE OLHOS BEM FECHADOS"


 

Antes de tratarmos do que é visto na tela, De Olhos Bem Fechados tem duas particularidades fundamentais. Em primeiro lugar, é o último filme de um dos grandes mestres do cinema americano. Embora tenha dirigido apenas 12 filmes, a abrangência de Kubrick deve ser considerada sempre tendo em vista seu ecletismo. Kubrick fez filmes importantes em praticamente todos os gêneros que consagraram o cinema americano, começando pelo filme noir (O Grande Golpe) e passando pelo filme de guerra (Glória Feita de Sangue), épico (Spartacus), comédia (Dr. Fantástico), ficção científica (2001), filmes de época (Barry Lyndon), suspense (O Iluminado), entre outros. Cada um desses filmes promoveu uma pequena revolução em seu gênero particular. Devido ao ecletismo de sua obra, é difícil definir o espírito da filmografia de Stanley Kubrick. Mas, em comum, todos os filmes, ao seu modo, criticam o aparente equilíbrio do American way of life, mostrando personagens desequilibrados e um sistema que esconde sua desestruturação através das aparências. Por isso, o cinema de Kubrick é em geral relacionado com a nova geração de cineastas dos anos 70, como Scorsese, Altman e Coppola, mas na verdade seu cinema antecede esses diretores. O Grande Golpe é de 1956. Nos anos 70, o filme de Kubrick que mais se alinha com essa geração é Laranja Mecânica, lançado em 1971. Mas seu filme seguinte, Barry Lyndon, já aponta em outra direção, afastando-se do ambiente urbano para retratar a decadência da nobreza, de certa forma como Visconti, que se afastou do modelo dos filmes neorealistas com Senso (1954).

A segunda particularidade do filme está em sua atribulada produção, o que acarretou um marketing fabuloso e uma expectativa para o seu lançamento. O diretor voltava a filmar depois de dez anos do lançamento de seu último filme, Nascido para Matar. Artesão meticuloso e perfeccionista, Kubrick é conhecido por exigir a alma dos atores durante as filmagens. Já a escolha dos protagonistas (Tom Cruise e Nicole Kidman) causou polêmica, ainda mais com as supostas cenas de sexo do filme. As filmagens, como sempre, foram em segredo completo. Mas o processo de montagem foi ainda mais confuso. Kubrick cortou cenas inteiras, eliminou personagens, e resolveu filmar cenas adicionais. A morte do diretor foi o elemento final do misterioso e complicado Eyes Wide Shut.

O filme é um mergulho na psicologia masculina, explorando a ambigüidade de relacionamento com o sexo oposto. Quando sua esposa confessa que por um instante teve vontade de trair o marido, ele entra em parafuso, descobre que na verdade conhece muito pouco a sua esposa e foge de casa, perambulando pelas ruas sombrias de Nova Iorque para curar sua tristeza. Notem que a esposa não disse ao marido que o traiu, mas que se sentiu tentada a fazê-lo, e isso já é o suficiente para perturbá-lo. De fato, todo o filme é um jogo entre o real e a fantasia. Todo o conflito do filme é exclusivamente psicológico, um conflito interno que aparentemente nem seria justificável. Se a esposa realmente não consumou sua traição, os dilemas do marido se baseiam no terreno das possibilidades, no que poderia ter acontecido. E é exatamente por isso que o filme é uma exata apresentação dos problemas da sociedade americana. Na superfície, o casal permanece como estava antes. Kidman na verdade não traiu o marido, assim como Cruise não traiu a esposa quando foge de casa, embora tivesse a possibilidade de fazê-lo. Cruise sai de casa com a justificativa de atender um paciente, e volta como se nada tivesse acontecido. Mas por trás do aparente equilíbrio do American way of life, Cruise é perseguido por fantasmas que surgem exclusivamente de sua mente, do "terreno das possibilidades" ou mesmo do velho traçoeiro "se...". Em sua peregrinação noturna, Cruise vagueia por uma cidade sombria, que, à noite, revela sua faceta de um lugar marginal e de pessoas desequilibradas. A noite é povoada por pessoas que enfrentam problemas, assim como Cruise. A bela fotografia de Larry Smith confere um brilho especial à caminhada de Cruise, no contraste entre sua elegância bem-comportada e o deboche cínico e traiçoeiro da noite.

Mas já no começo do filme, antes da suposta confissão da esposa, o filme exibe um retrato exato da sociedade americana na apresentação da festa. Na festa, desfilam os supostos bem-sucedidos do American way of life com a opulência e o garbo do seu estilo. Cruise e Kidman, o casal vinte, comparecem à festa, mesmo conhecendo poucos dos convidados. Cruise deixa-se dominar pelas segundas intenções de duas meninas. No meio das hipocrisias do salão, Kidman percebe a ausência de seu esposo, mas finge não ter ciúmes, e responde a seu modo, bebendo um pouco além da conta, o suficiente para se fingir de bêbada e dançar com um velho crápula que quer seduzi-la com truques baratos. Esse clima ambíguo atinge seu clímax quando o anfitrião (Sidney Pollack) chama o médico Cruise para ajudá-lo, prestando socorro à sua amante que acabara saindo do circuito por causa de uma overdose. Pollack trai sua esposa numa festa em sua própria casa, com uma menina vulgar. A festa é o retrato da sociedade americana, porque mostra o desequilíbrio que reina por trás da superfície do perfeito equilíbrio do American way of life. A princípio, é uma festa perfeita, com pessoas perfeitas e sorridentes, mas, aos poucos, revela-se, por trás desse véu, um mundo cínico, a podridão da traição, da vingança e da vulgaridade.

A confissão de Kidman talvez tenha um componente de premeditação, assim como na dança com o velho crápula, por quem ela obviamente não se interessava. Durante a confissão, Kidman finge estar mais "ligada" do que realmente está. A diferença da reação dela para a reação do marido comprova isso. Sua mudança de atitude talvez seja muito radical para um simples baseado. Com a justificativa da bebida e das drogas, Kidman consegue dizer algo a mais a seu marido. A confissão da esposa, portanto, pode ser entendida como uma vingança, assim como a dança com o velho na festa.

Outro acerto na caracterização dessa elite americana é a alienação de Cruise. Isso fica comprovado pelo contraste no contato durante a festa com seu antigo colega da faculdade de medicina. Enquanto Cruise é um bem-sucedido médico, seu amigo é um reles tocador de piano, que ganha seu dinheiro em festinhas. Mas quando Cruise sai de casa após a confissão de Kidman, ele vai procurar seu amigo "mal sucedido". Nessa fuga, Cruise conhece a podridão do submundo da noite novaiorquina, que ele ignora completamente. Daí sua alienação. Cruise é quase um pateta adolescente à procura de diversão, completamente deslocado do espírito daquele mundo. Isso é comprovado numa cena em que jovens baderneiros quase agridem Cruise. No mundo sedutor da noite, Cruise se envolve em atividades que estão ligadas sempre pelo seu desejo por sexo. Na verdade, é menos um desejo por sexo que por vingança, pela suposta traição de sua esposa. De fato, nas oportunidades que teve para efetivamente trair sua esposa, Cruise recua, como um "pateta adolescente". Assim, Cruise se espanta quando uma paciente quer se entregar a ele logo após a morte do pai, procura uma prostituta, vai ao show de seu amigo pianista, pega informações sobre um secreto ritual orgiástico extravagante, e aluga roupas para a festa. Mesmo quando aluga as roupas e uma máscara para a orgia, suas obsessões por sexo o acompanham. O dono da loja descobre que sua filha adolescente está se envolvendo com outros clientes bem mais velhos dentro de sua própria loja.

Em todas essas cenas, o espectador fica em uma situação de desconforto. Em primeiro lugar, porque sentimos o quão deslocado Cruise está de seu meio natural. Mas Cruise se fascina com o mundo sombrio e ambíguo da noite. Mas nosso desconforto está relacionado principalmente com a ambiguidade entre o real e a fantasia que dominam o filme daí em diante. Em todas as cenas, acontece algo não convencional, que contraria as regras lógicas e lineares de nossa rotina. Tudo começa com a estranha reação da paciente quando seu pai morre, em que ela aproveita o instante para quase literalmente atacar Cruise, mesmo sabendo que seu futuro marido estaria chegando a qualquer momento. Em seguida, há o desastrado encontro com a prostituta. A cena na loja de roupas é absolutamente surreal. Embora vendesse roupas de uma elegância notável, o vendedor vivia em um gueto vulgar, e em seguida descobrimos sua filha entre as roupas com outros homens, e Cruise reage estranhamente, presenciando toda aquela lavagem de roupa suja.

Essa sensação culmina obviamente na estranhíssima orgia. Cruise recebe pouquíssimas informações, mas consegue "advinhar" a roupa e o tom opulento da festa, que no fundo tem uma vulgaridade plena. No fundo, a orgia tem as mesmas características da primeira festa do filme. Um ritual quase barroco, um clima de "Calígula", domina o amplo ambiente em que as pessoas se escondem atrás de máscaras. Na festa, Cruise é desmascarado, e a partir de então, o filme começa a se perder, refletindo um conservadorismo de Kubrick tanto na estética quanto no conteúdo.

O ponto de inflexão a partir do qual o filme cai de ritmo é o instante em que Cruise é desmascarado, ao não saber da existência de uma única senha na festa. A partir de sua expulsão na festa, o filme passa a ter uma estrutura circular. Cruise retorna aos locais que esteve antes da festa: volta a procurar a prostituta, procura o amigo no bar onde ele tocava, entrega a roupa, retorna ao local da festa, encontra o anfitrião da primeira festa, e por fim, retorna para casa, completando seu círculo. Em nenhum desses lugares, Cruise obtém a resposta que deseja, e por isso, volta para casa.

O conservadorismo de Kubrick está no modo como ele tenta fechar o círculo numa estética convencional, não levando até às últimas conseqüências as ambiguidades entre o real e a fantasia. Quando Cruise volta aos mesmos lugares de antes, ele confirma que os fatos realmente existiram. E todas as cenas desses "reencontros" são frustrantes. Já o primeiro encontro com a prostituta teve uma cena ridícula, quando o celular de Cruise toca exatamente no instante em que ele se convencera em ir para a cama com a prostituta. A volta ao lar da prostituta é dominada por um tom melodramático completamente dispensável. Quando Cruise procura seu amigo pianista no hotel, a cena também é constrangedora, pelo roteiro e diálogo extremamente rasteiros e pelo porteiro representar o estereótipo de um gay completamente fora de contexto. Na loja de roupas, percebemos que, desde o início, o pai aprovara a depravação da filha em troca de dinheiro. O filme ainda tem duas cenas que destoam completamente da qualidade das obras de Kubrick. Na primeira, Cruise volta ao local da orgia, onde um cartão já o esperava, aconselhando-o a nunca mais voltar. Em outra, Cruise tem a impressão que um carro o está perseguindo pelas ruas. Na estética, Kubrick, a partir do desmascaramento na orgia, fecha o círculo da peregrinação de Cruise de uma forma convencional e inclusive clichezada, abandonando a tensão latente entre o real e a fantasia. Naturalmente, quando Cruise volta para casa, vê a máscara sobre a cama, o que completa o círculo de uma forma pouco inspirada.

No conteúdo, Kubrick também é conservador, porque Cruise, durante sua peregrinação, em nenhum momento trai sua esposa, e, além disso, consegue sobreviver, de uma forma ou de outra, no mundo depravado da noite. Ao final, na cena do supermercado, após Cruise ter contado todas as suas inseguranças para a esposa (assim como teoricamente ela também o fizera, contando para ele de suas aventuras com o militar, embora há a suposição de que tudo seja uma mentira, pura vingança da esposa), temos a impressão de que tudo foi uma grande aventura, que inclusive fez bem a Cruise, que, após toda essa lavagem de roupa suja, pode voltar a conviver com sua esposa de forma melhor que antes. A fuga noturna, portanto, lhe fez bem, reforçando as bases do sistema, e confirmando a possibilidade de equilíbrio do American way of life. É claro que o happy end pode ser interpretado como uma ironia, anida mais quando pensamos nas ousadias passadas de Kubrick. Mas o fato é que o terço final do filme se torna cada vez mais e mais conservador.

Isso nos faz retornar a uma outra questão fundamental: até que ponto o filme que vimos foi feito por Kubrick? O que de fato sabemos é que Kubrick criou uma série de obstáculos para liberar a obra, o que aparentemente ele relutava em fazer. Mas logo em seguida à sua morte, os executivos do estúdio disseram que Kubrick havia poucos dias antes finalmente liberado o filme para exibição. Essa história é obviamente muito estranha. Os problemas do terço final do filme podem nos levar a crer que o filme foi montado à revelia do autor, para que sua morte não impedisse o lançamento do filme, que estava a cada dia que se passava, mais difícil. Talvez até os executivos da Warner tenham matado Kubrick para que o filme pudesse ser veiculado. O que sabemos é que de fato Kubrick parecia não estar ainda satisfeito com sua obra, e continuava a trabalhar na montagem do filme.

Com certeza, se Kubrick tivesse mais tempo para trabalhar no filme, a queda de ritmo do terço final seria atenuada, mas será que Kubrick não trabalhara no filme o suficiente? Há quantos anos Kubrick se envolveu com o projeto? Dificilmente um outro diretor conseguiria tanto tempo para trabalhar em um filme. Isso nos traz outra questão: talvez Kubrick tenha relutado tanto em finalizar o filme porque sabia que dificilmente este seria um filme à altura de seus filmes anteriores. O perfeccionista Kubrick sabia que ainda existiam muitos problemas a serem resolvidos. Nesse ponto de vista, sua morte o salvou. Não ficamos com a impressão de um fracasso de Kubrick, mas com as possibilidades de o filme ter escapado do controle do autor. De Olhos Bem Fechados, portanto, fica para a história do cinema como uma obra inacabada de Kubrick. Menos mal.

Mas vale observar que o filme está longe de ser ruim. É um filme inclusive bem acima da média da produção contemporânea. Mas quando pensamos na coerente e perfeccionista filmografia de Kubrick, o filme nos desaponta, especialmente pelo seu conservadorismo. Mas de qualquer forma, é um mergulho na psicologia dos adultos americanos, no desequilíbrio que reside por trás da superfície do bem-sucedido equilíbrio do American way of life, um filme que trata os limites entre o real e o imaginário de natureza metalinguística, que é própria da linguagem do cinema, de uma forma autoral e inegavelmente bem filmada.

Marcelo Ikeda.

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