O CINEMA HUMANISTA DE EU, TU, ELES


 

S�bado de sol, fui cheio de todos os preconceitos para assistir a Eu, Tu, Eles. A excessiva repercuss�o na imprensa; o reacion�rio artigo do Jabor, dizendo que os jovens da Conspira��o s�o o novo cinema novo, a nouvelle vague carioca; o sucesso em Cannes, pela "recupera��o da tem�tica nordestina"; a tem�tica da liberaliza��o da mulher que se interessa por tr�s homens; o cinema lotado ... Tudo levava a crer que Eu, Tu, Eles seria um novo Central do Brasil: estrutura americana, formato publicit�rio, piegas e extremamente convencional...

Mas de vez em quando felizmente o cinema (e a vida) nos pregam boas pe�as. E que bom que todos os meus preconceitos n�o me impediram de admirar as ineg�veis qualidades do filme. Desde o primeiro fotograma, Eu, Tu, Eles � o oposto dessa expectativa listada acima. � um filme que revela uma maturidade impressionante em termos de vis�o de cinema, e um fascinante respeito � realidade que o filme pretende retratar.

De publicit�rio, o filme tem quase nada. Pelo contr�rio, o filme � o oposto da banaliza��o da imagem, dos artif�cios engenhosos de montagem, da c�mera fren�tica. Da est�tica publicit�ria, Waddington utiliza o que h� de melhor. Em Eu, Tu, Eles fica clara a preocupa��o com a arquitetura de cada plano como se fosse uma verdadeira pintura. J� o primeiro plano � uma prova disso. Sil�ncio, ambiente quase totalmente escuro, uma pequena luz de velas. Ademais, o widescreen � brilhantemente incorporado � est�tica fotogr�fica do filme.

Aparentemente, lendo a sinopse de Eu, Tu, Eles temos a impress�o de ser quase uma neo-pornochanchada: mulher vive ao mesmo tempo com tr�s homens. Da� situo a semelhan�a do filme com pelo menos dois filmes da d�cada de oitenta que tamb�m se utilizaram de um certo recurso da pornochanchada para promover um cinema mais autoral e avesso � ambienta��o urbana pr�pria do g�nero. O primeiro � A Intrusa, de Carlos Hugo Chistensen. O segundo � Amor e Trai��o, de Pedro Camargo. O primeiro se passa no Sul; o segundo no Nordeste. No primeiro, dois irm�os (?) vaqueiros se interessam pela mesma mulher; no segundo, mulher se divide entre seu marido - um capataz -, seu patr�o e o filho deste. De Amor e Trai��o, h� inclusive alguns aspectos de fotografia an�logos. O primeiro encontro do casal no interior de sua nova casa � filmado numa cena extremamente escura como a abertura de Eu, Tu, Eles. Da mesma forma, a festa de casamento nos remete � dan�a no forr�. Mas enquanto A Intrusa � coroada com um tratamento seco e Amor e Trai��o � uma ir�nica farsa social, Eu, Tu, Eles reflete uma ternura a uma condi��o aparentemente opresora. Muito adequadamente, Ver�ssimo viu que o filme fala sobre a gentileza e a toler�ncia.

Mas nesse texto, gostaria de refletir especialmente sobre dois pontos do filme. Primeiro, sobre a sua suposta est�tica fotogr�fica publicit�ria; e em segundo, sobre o tratamento do tempo.

A principal cr�tica recebida pelo filme de Waddington � o fato de registrar uma realidade sofrida atrav�s de uma fotografia exuberante. Os puristas argumentam que � uma contradi��o escapista tratar o Nordeste com essa vis�o, e que isso reflete um vi�s de publicit�rio e anti-social do diretor. Nada mais inadequado. Um contra-argumento utilizado por muitos � que "n�o � porque fala de pobreza que o filme tem que ser pobre, mas todo filme pode ser bonito". Esse argumento � no entanto fraco, porque foge �s considera��es est�ticas do filme.

Ora, toda aplica��o est�tica deve refletir n�o somente uma vis�o de cinema mas essencialmente uma vis�o de mundo. E � exatamente nesse ponto que Waddington acerta e muito apostando numa fotografia digamos publicit�ria. A diferen�a, se pensarmos em rela��o a um Vidas Secas, � que Waddington n�o est� buscando um resgate ao cinema novo. � claro que no filme perpassa um problema social: a mulher trabalha na lavoura; o r�dio de Lima Duarte � uma forma de aliena��o. Mas toda for�a do filme est� em seu aberto humanismo: seu objetivo est� menos em falar da regi�o ou de um conflito social, mas falar do Homem, de suas limita��es e de suas possibilidades. Mas o grande problema do cinema novo � que no fundo era um grupo composto por intelectuais de classe m�dia completamente distantes da realidade que pretendiam retratar, promovendo um certo tipo de discurso que apresentava sua vis�o n�o apenas no n�vel daquela realidade, mas inclusive superior a ela.

Nesse sentido, a grande for�a de Eu, Tu, Eles � que ele intenciona uma humilde aproxima��o. Waddington sabe que vem de uma realidade diferente, e n�o quer fazer um document�rio sobre a situa��o no Nordeste. Ele apenas apresenta a sua vis�o, a do carioca classe alta, daquela realidade, aparentemente t�o diferente da sua. Apesar de possuir uma vis�o de fora para dentro, aquele mundo seduz o elemento externo (sen�o em �ltima inst�ncia, o filme n�o teria sido feito). O que se v� portanto � uma ternura do cineasta em rela��o �quela realidade, mas sempre sabendo que sua vis�o � externa, e sem a pretens�o de apresentar nenhum tipo de solu��o ou de julgamento moral.

Eu, Tu, Eles � um filme monossil�bico. No entanto, uma simples frase resume o filme em suas escolhas est�ticas. Regina Cas� diz a St�nio Garcia, quando sua parente morre, "�s vezes a beleza serve para diminuir a tristeza". Frase que revela uma ternura incomensur�vel, � um sutil coment�rio a essa escolha fotogr�fica. Ora, a inten��o de Waddington � justamente mostrar a dignidade, a ternura, a "gentileza" que residem num mundo que aparentemente pareceria opressor. A "est�tica publicit�ria" de Waddington � nesse sentido um voto de f�, uma manifesta��o de esperan�a e de dignidade particularmente comoventes.

Recentemente, vendo com mais aten��o os filmes de Ozualdo Candeias, � que senti as diferen�as dessa vis�o de dentro para fora e de fora para dentro. Consciente das limita��es de sua vis�o, Eu, Tu, Eles opta por ser menos um registro daquela realidade do que uma sensibilidade de como pode existir pacificamente a toler�ncia e a dignidade nesse mundo. A fotografia, portanto, � mais que coerente, e n�o uma fraqueza, nem um desvio publicit�rio, mas s� surge de uma observa��o arguta da beleza de um mundo, e de como o cineasta procura respeitar a beleza particular daquela realidade.

O segundo ponto � o tratamento do tempo. O maior indicador de como Andrucha respeita e ao mesmo admira essa realidade � o seu tratamento do tempo. Ele nunca imp�e um ritmo artificial � narrativa, mas permite que a partir de um trabalho com o tempo, aquela realidade possa ser melhor incorporada. De certa forma, o filme pode inclusive ser considerado neo-realista. A incorpora��o do ambiente f�sico � de fundamental import�ncia na dramatiza��o dos personagens e das circunst�ncias. Quanto ao tempo, Andrucha sintetiza as duas preocupa��es tanto de Rossellini quanto de De Sica. Daquele, vemos as elipses temporais; deste, a valoriza��o da dura��o e da situa��o rotineira. Logo no in�cio do filme, os planos-seq��ncia s�o contrapostos a abruptos cortes temporais. Regina Cas� se despede de sua m�e. Corte seco. Ela chega a outra cidade, na qual encontra Lima Duarte. O monossil�bico di�logo entre os dois, a indecis�o, s�o acentuados pelo diretor. Corte. Ele vai em dire��o dela e pergunta se aceita o casamento. Corte seco. Eles j� est�o na festa do cas�rio. Os "fragmentos de realidade" de Rossellini est�o claramente presentes. Por outro lado, a �nfase de Zavattini nos tempos mortos est� visivelmente incorporada. A cena-limite ocorre quando St�nio Garcia faz a barba de Lima Duarte. Num �nico plano, a conversa comum entre os dois homens � exposta sem pressa e sem grandes desenvolvimentos dram�ticos, refor�ando o ritmo particular da regi�o.

A id�ia de fragmento da realidade � levada at� o final, sem grandes concess�es. O final � inteligentemente em aberto, sem concluir de forma moralista ou promover conclus�es precipitadas. O filme acaba, mas a hist�ria dos personagens obviamente continua...

Marcelo Ikeda.

(em 08/09/2000)

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