O ESCORPIÃO DE JADE: destino, história e tolerância

 

 

Numa recente entrevista a um periódico americano, Woody Allen se queixava que não existe um único novo diretor americano de comédias que se mostrasse influenciado por seu modo particular de fazer comédias. Suas declarações, evitando qualquer tentativa de falar em seu cinema de um modo geral, revelava um cineasta que não conseguia compreender porque suas obras ainda permanecem distantes do grande público. Isolado, Allen parece consciente de sua solidão, e reagia apenas de modo defensivo, sobre sua condição obsessiva de realizador, numa etapa de sua carreira em que realiza um novo filme a cada ano.

É curioso, nesse sentido, à medida que o tempo passa, à medida que o caráter de isolamento envolve o cinema de Allen, como seus filmes sejam tão generosos ao investir em temas como a ternura e a tolerância. Allen atingiu um equilíbrio notável em sua carreira: ainda que ultimamente suas declarações venham na direção de uma tentativa de um diálogo com uma maior porção do público, seus filmes são cada vez mais livres, na condição de se assumir como filmes menores, na poesia em que o descompromisso com uma grande visão de cinema acaba refletindo um cineasta generoso, cônscio dos seus limites, e disposto a dividir com seu público (senão com o público) o prazer em fazer e viver do cinema.

Em O Escorpião de Jade (The Curse of the Jade Scorpion, EUA, 2001), o velho e nostálgico Allen faz uma singular homenagem ao cinema, discreta e repleta de sutis interstícios como só os diretores que conhecem cinema podem oferecer. Jade é um filme noir, uma história de detetives em que tudo o que é central no gênero permanece fora da tela. As ações em si dos roubos às grandes mansões, das pistas ao longo da investigação não estão presentes no filme. Elas são apresentadas apenas em seqüências de montagem. O caso mais típico é a fuga de Allen da prisão. Um plano mostra Allen saindo tranqüilamente do quarto onde está aprisionado, chegando até a cobertura do prédio. Por onde fugir? No plano seguinte, um policial informa que o detetive na verdade fugiu com grande habilidade física, pulando dois prédios.

Num filme de espionagem em que todas as pistas e detalhes da investigação pouco importam, o noir serve como um contraponto, em que o não-realismo é usado apenas para enfatizar seu lado lúdico. Ora, há algo mais cinematográfico que a possibilidade da elipse para a fuga de Allen da prisão? Por onde fugir? A fuga é através do cinema.

Sim, porque acima de tudo O Escorpião de Jade é um filme que discute a natureza do cinema. Recodificando um gênero moldado para o cinema (além de seus códigos visuais, sonoros, etc.), em Jade o grande tema que nos assola é a oportunidade da ilusão e a ânsia da (re)descoberta.

Allen utiliza para isso a idéia do cinema como uma hipnose, e através dela coloca o tema da inevitabilidade do destino como o típico final feliz hollywoodiano. No fundo, e isso é o que faz a releitura de Allen do noir se tornar absurdamente íntima, Jade é uma história de amor. Desde o começo, ou melhor, desde a cena da hipnose, o filme nos coloca como inevitável a aproximação entre Allen e Helen Hunt.

Em mais uma de suas piadas sobre psicanálise, a hipnose no fundo faz os personagens despertarem para seu subconsciente. "O grande detetive é no fundo um grande ladrão: para descobrir o que o ladrão fez, é preciso estar ao lado dele". Ladrão de emoções, manipulador dos sentimentos de todos os seus personagens, Allen não tem o receio de aludir ao lado sombrio e psicótico da própria tarefa de comandar um filme. A hipnose desperta suas ambições escondidas: o roubo como uma travessura de criança, a descoberta do amor.

Dessa forma, a tarefa do detetive Allen é promover uma ponte, um resgate de seu subconsciente. A hipnose funciona como um sonho: os personagens parecem sonâmbulos. É no interstício entre estar acordado e dormindo, entre o desejo e a repressão, ou ainda, entre a realidade e a ilusão, que Allen busca no resgate uma forma de auto-descoberta e de tolerância. Quase como o protagonista de O Sétimo Selo, a descoberta do mistério do Escorpião de Jade, em que todos os espíritos apontam para a culpa do personagem, é um caminho de auto-descoberta. Sua função é revelar-se inocente mesmo quando se descobre que de fato se roubou as jóias. Esse é o tom lúdico que recheia a cena em que Allen vê as jóias escondidas em seu armário. Ainda assim, ele não duvida de sua inocência. De que valem as ditas provas?

O Escorpião de Jade é, também, um filme sobre como envelhecer. Num contexto em que se fala de terceirização de serviços, em flexibilização e informatização de acervos, é comovente a habilidade de Allen em resgatar a poesia do detetive e seu acervo, em apresentar sua crítica à modernização, quando feita sem critérios. O filme também possui um toque pessoal com uma série de referências a um toque chinês, desde a fotografia do diretor chinês Zhao Fei até o biombo atrás do qual Allen se esconde na cada de Hunt, e, claro, os fogos de artifício.

A cena em que Allen e Hunt se beijam coroa toda a trajetória do filme, que fala da tolerância e do destino, com um tom absolutamente sublime. Allen diz que se deve aproveitar aquele momento ainda que breve, "antes que o peso da sombria realidade volte a cair sobre nós". Quando se beijam, os fogos de artifício antes citados finalmente estouram, dialogando com uma forma de determinismo finalista típico dos filmes de hollywood e com o tom de destino e tolerância que recheia o filme.

Se no noir, as mulheres sempre são a femme fatale que seduz o homem, neste, Allen rompe com o padrão do gênero, para revelar uma mulher insegura que acaba ficando junta ao herói. Pura poesia.

No final, a hipnose como referência ao próprio cinema se torna central. Após a solução de seu caso mais complicado, de ter afinal conseguido compatibilizar sua visão com a da nova executiva, nada mais resta a Allen a não ser abandonar seu serviço, aposentar-se. É o tom determinístico e quase místico da despedida, do cumprimento do dever, e da inevitabilidade do destino e da decadência. Mas o que poderia ser um melancólico filme como os de Ozu ou Mizoguchi se descostura a partir do determinismo mágico. Hunt ainda não foi curada da hipnose: deixemo-nos pensar portanto que a ilusão é possível, sobrevivamos com ela. Mas a ternura de Allen não consegue resistir a esse meio-caminho. A realidade e a ilusão precisam andar juntas, articuladas, são a mesma, porque cinema é vida, e vida é cinema. Ao contrário de A Rosa Púrpura do Cairo, não é a ilusão um refúgio de um mundo sombrio que não consegue se ajustar à magia do mundo da ilusão. Eis o milagre do cinema: em O Escorpião de Jade, Hunt nunca poderia ficar com Allen por causa de uma hipnose (uma alienação). A hipnose por milagre transformou-se em destino, e daí em realidade.

Nisso as luzes do cinema se acendem, as cortinas das portas de entrada se levantam, e estamos livres de nossa hipnose.

Marcelo Ikeda

(07/08/2002)

 

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