DR. AKAGI |
| Shohei Imamura � um dos grandes diretores do cinema japon�s, ganhador de duas Palmas de Ouro, por A Balada de Narayama e o recente A Enguia. Exatamente por isso, a expectativa era um filme sens�vel e humano, sobre pessoas que tentam superar os limites do destino. Mas Imamura provavelmente deve ter feito o pios filme de sua cinematografia. De fato, dr. Akagi (ou Professor F�gado na vers�o original) conta a hist�ria de um m�dico que vive numa ilhota em plena Segunda Guerra, obcecado por encontrar a cura para a hepatite, doen�a que atingia grande parte da popula��o local e era ignorada pelas autoridades. Sua preocupa��o com a hepatite era tamanha que recebeu o apelido de Professor F�gado. O m�dico � um vi�vo obcecado por seu trabalho, bastante austero e avesso a qualquer assunto que fuja de seu interesse principal. Mas cruzam pelo seu caminho cinco pessoas bastante diferentes. A primeira � uma prostituta que, com a morte do pai, se tornou empregada do Professor. O segundo � um l�der espiritual mais preocupado com o saqu� que com seus serm�es. O terceiro � um cirurgi�o desiludido viciado em morfina. O quarto � um rapaz bobalh�o que furtou dinheiro de um cofre para pagar suas contas com uma prostituta. O quinto � um soldado alem�o que fugira da pris�o. Dessa forma, as seis pessoas que por for�a do destino v�em suas vidas entrela�adas s�o no fundo pessoas menores, rejeitadas e com problemas que as afastam de seu caminho. Os cinco s�o desistentes: a prostituta n�o quer ser mais prostituta, assim como o m�dico viciado, o l�der espiritual, e o soldado. Eles querem deixar de ser o que eles representam para serem eles mesmos, seres humanos com seus defeitos e suas dificuldades. De fato, os homens n�o participaram do ex�rcito japon�s porque s�o conseiderados piores, ou menos aptos. O pr�prio dr. Akagi, quando deseja se alistar, � severamente repreendido, considerado como um fardo. Mas dr. Akagi � de fato diferente dos demais. Ele � determinado, e tenta de todas as formas a cura da hepatite, e jura dedicar a sua vida para tal fim. Ele briga com as autoridades locais, que querem limitar o uso de glicose, e tenta alertar a comunidade m�dica sobre os perigos da doen�a. Dr. Akagi quer defender o seu pa�s servindo em casa, mas continua com o mesmo patriotismo e orgulho. Mas Imamura decepciona completamente nos rumos de sua narrativa. Em primeiro lugar, a hist�ria � contada segundo uma narrativa tipicamente ocidental. A trilha sonora � horr�vel. E seus personagens n�o resistem ao conservadorismo covarde de Imamura. Na verdade, essa � a falta mais grave do filme. Sua apatia, seu convencionalismo enfraquece o cinema de autor, que o diretor defendeu t�o bem ao longo de sua carreira. Mas o pr�prio ter�o final de A Enguia j� denunciava que os filmes de Imamura perderiam seu vigor autoral para serem f�bulas superficiais. Dr. Akagi simplesmente desiste de sua promessa, ignora seu juramento ao filho e � comunidade cient�fica para viver a sua vidinha, fugindo dos grandes compromissos, e conformando-se com seu destino ap�tico e apenas esperando a morte. Ele quebra o microsc�pio e decide abandonar as pesquisas quando uma paciente acaba morrendo porque o m�dico adia o atendimento para mexer em seu microsc�pio. A li��o parece pr�xima de um "American way of life". O m�dico foge covardamente, e se contenta em continuar correndo de um lado a outro para atender seus pacientes que no futuro morrer�o, sendo apenas uma quest�o de tempo. O doutor aplica mais uma dose de glicose, preenche outra ficha, e apenas tenta mant�-los vivos por mais tempo, aumentando seu sofrimento. Ele se contenta com isso, uma solu��o escapista e imediatista. O emblema do professor correndo, que existe no in�cio e depois � recuperada no final do filme, � uma caricatura rude e imbecil. Ele n�o percebe que, caso a cura fosse achada, ele iria salvar milhares de pessoas, e seu sacrif�cio pessoal seria muito menor. A solu��o escapista de Imamura � retroativa, conservadora e ego�sta, al�m de quebrar v�rios conceitos fundamentais na filosofia de vida japonesa. Outro sinal que Imamura queria fazer um filme que dialogasse com a vis�o de mundo americana � como Imamura trata a Segunda Guerra. Por ser um filme japon�s, era de se supor um acerto de contas com dignidade e pesar. Recentemente, temos o caso de Raps�dia em Agosto, do mestre Kurosawa, que fala da aproxima��o entre americanos e japoneses. Mas Imamura utiliza uma vis�o hip�crita e preconceituosa. Todos os soldados japoneses s�o rertatados como seres est�pidos, brutamontes agressivos e ignorantes. O chefe do servi� m�dico militar na ilha � retratado como um homem ego�sta, que suspende as atividades do cabar� apenas para obter privil�gios pessoais. A invas�o dos japoneses � casa do dr. Akagi � um exemplo da abordagem preconceituosa de Imamura. Os soldados japoneses s�o os vil�es. Imamura se rende � vis�o tradicionalmente politicamente correta do professor que se interessa mais em gente do que em pol�tica, ajudando o soldado alem�o, que era um homem bom. Mas o final � ainda mais pat�tico. Sua ajudante quer dominar uma baleia, para mostrar ao professor sua coragem. No meio do mar, a bomba nuclear de Hiroshima explode. Imamura, atrav�s do Professor, compara a bomba nuclear a um f�gado hipertrofiado. O epis�dio mais sofrido e doloroso da hist�ria japonesa � tratado como uma caricatura rid�cula e despropositada. Marcelo Ikeda. NOTA: 3 |