Dirigindo no Escuro

 

 

OGLOBO: O protagonista do filme tem muitos pontos em comum com o senhor. O fato de ser mais reconhecido fora do seu pr�prio pa�s do que dentro dele, por exemplo. O senhor entende a raz�o disso?

 ALLEN: Tenho a impress�o de que nunca saberei a resposta. Nasci e cresci no Brooklyn, gosto de jazz, de beisebol, dos desenhos de Walt Disney, fa�o piadas com a cultura americana e as pessoas riem delas. Mas n�o consigo atrair os americanos para os cinemas. Quando lan�o um filme, se os cr�ticos n�o gostam dele, poucos americanos ir�o assistir a ele; se os cr�ticos gostarem, talvez algumas pessoas o vejam. Os universit�rios americanos que comparecem �s minhas palestras at� riem das minhas piadas. Mas basta cobrar um ingresso que ningu�m aparece.�

(Entrevista concedida ao jornal O Globo, publicada em 08/08/2003.)

 

*   *   *

1. Um dos menos consistentes filmes do ativo Woody Allen, Dirigindo no Escuro, terr�vel tradu��o para Hollywood Ending, reflete � perfei��o muitos dos atuais paradoxos da obra de Allen, e em particular n�o deixa de ser comovente.

2. Woody Allen poderia ser um dos poucos cineastas em atividade que se considera realizado com sua obra. Afinal, tem completa liberdade criativa, realiza praticamente um filme por ano, tem produtores e p�blico cativos que sempre lhe garantem um novo filme, recebe elogios da cr�tica e � convidado por v�rios festivais internacionais. Mas n�o. Ao contr�rio, Allen talvez passe pelo per�odo menos satisfeito de sua filmografia.

3. E qual seria o fruto de sua insatisfa��o, de sua infelicidade? � de se sentir, quase ao final do caminho, completamente incompreendido por seu p�blico-alvo. � o terr�vel sentimento de, ap�s passar uma vida fazendo filmes sobre Nova Iorque, se sentir como um estrangeiro em sua pr�pria terra. � perceber o desprezo do p�blico e dos pr�prios cineastas de sua terra em rela��o aos seus filmes.

4. Por isso, Allen parte quase desesperadamente para uma tentativa de retorno, em filmes mais abertos e escrachados, mas sem abrir m�o de um estilo mais requintado (nas piadas, nas refer�ncias ao cinema europeu e ao cinema em si). Acaba num meio-termo que n�o satisfaz a nenhuma das duas partes, e provavelmente muito menos a si mesmo. Acaba por revelar-se quase pat�tico. Mas n�o deixa de ser contundente sobre sua situa��o particular.

5. Para isso, Allen opta por um estilo que lembra at� as sitcoms televisivas, cheio de campos-contracampos, de gags verbais b�sicas, de um jogo de c�mera simples e b�sico (especialmente a seq��ncia no bar onde ele muda de temperamento com sua produtora, ora dizendo-se �profissional� ora falando sobre sua vida pessoal).

6. Hollywood Ending � um filme triste, um dos mais tristes que vi recentemente. Triste por sua condi��o de impot�ncia. No filme, todos s�o completos imbecis, desde o cineasta que, cego, tenta em v�o dirigir o filme, toda a equipe de filmagem (h� uma seq��ncia, em que v�rios membros da equipe tentam definir como ser� a cena: o cen�grafo quer construir uma pra�a em est�dio, a arte recusa uma certa cor, o diretor de fotografia outra, etc. etc), os produtores americanos que, afinal nem chegam a perceber que o diretor est� realmente cego, e at� os cr�ticos franceses. Alguns mercen�rios, outros oportunistas, outros ing�nuos e outros simplesmente burros. Acabam, apesar dos histrionismos e do tom caricatural pr�prio das com�dias, se revelando complexos. Ningu�m � propriamente bom ou mau.

7. Nem a utopia da �volta por cima� ou da �paix�o irresoluta pela S�tima Arte�, nem o artista temperamental que se auto-flagela pela obra, nem a leitura meramente comercial da �ind�stria� americana, Hollywood Ending � uma esp�cie de filme de Buster Keaton, onde o improv�vel quase surrealista que povoa a tela � acompanhado pelos olhos tranq�ilos do cineasta-que-n�o-ri. Nem a �poesia� de A Noite Americana nem o temperamento de �Precau��es de uma prostituta santa�.

8. Falar de si. Allen leva quase ao limite a id�ia de um cinema que funde a fic��o com uma aguda auto-cr�tica. Ao limite em termos, no sentido da necessidade de se expor, de fazer um filme em torno de todos esses traumas. Sem fechar com nenhum desses lados, negando-se �politiqueiro� ou meramente oportuno (o filme estreou no Festival de Cannes com um final daqueles), Hollywood Ending � ainda mais triste, se pensarmos que a farsa pode ser o �nico caminho para escapar da verdade.

 

Marcelo Ikeda

(11/08/2003)

 

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