O CAMINHO DAS NUVENS

 

 

1. De forma semelhante � viagem de Alvin Straight em A Hist�ria Real, de David Lynch, a fam�lia de nordestinos de O Caminho das Nuvens percorre de forma inusitada centenas de quil�metros em busca de um encontro. Se no filme de Lynch era num trator, no de Vicente Amorim � numa bicicleta. Mas as semelhan�as p�ram por a�.

2. Sim, e todas as diferen�as s�o t�o ricas, s�o t�o esclarecedoras em rela��o ao que significa um cineasta com um projeto de cinema e todas as repercuss�es est�ticas, ideol�gicas e pr�ticas de suas escolhas, que � praticamente imposs�vel resistir � tenta��o tola de promover um pequeno invent�rio.

3. Um cinema humano: enquanto no filme de Lynch a busca � pelo reencontro com o irm�o doente, com o acerto de contas interior e o resgate � origem, a busca de Amorim � assumidamente pragm�tica. O objetivo de Wagner Moura � ganhar de forma honesta R$ 1.000 por m�s. Ele acusa os filhos de serem imprest�veis, a mulher de n�o saber pedalar como deveria (n�o h� um �nico beijo entre os dois), elogia um cabra pela estrada por estar sozinho e n�o ter uma penca de pessoas para sustentar. N�o se busca nem mesmo �uma vida melhor�, tranq�ila, com harmonia, etc., nem mesmo o trabalho digno de Ladr�es de Bicicleta (ele chega a arrumar um servi�o de rendeira para a esposa numa cidade, mas desiste). Apenas isso: R$ 1.000 por m�s.

4. Uma est�tica: Para valorizar o espa�o f�sico e a id�ia da viagem como percurso interior, como agente de encontro e transforma��o, Lynch opta pelos planos longos, e seu filme se transforma num exemplar estudo sobre o papel do tempo. Assim, o filme rapidamente consegue uma cumplicidade entre o humilde viajante e o espectador.

5. No filme de Vicente Amorim, o que se quer � o efeito, seja da c�mera ou da fotografia, seja da montagem; o que se busca � o impacto ligeiro para o espectador. Nessa busca impositiva pelo impacto em detrimento da dramaturgia, movimento, ali�s, t�pico da publicidade, Amorim perde todo o encanto que O Caminho das Nuvens poderia ter; desperdi�a a id�ia do sonho e do percurso que inevitavelmente abra�am o filme.

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O que nos impressiona em O Caminho das Nuvens � sua inser��o em um projeto de um novo cinema brasileiro e suas liga��es com o antigo. O filme de estr�ia de Vicente Amorim � sim, de estr�ia, pois vendo-o, fica claro que 2000 Nordestes foi realizado quase como pretexto para uma busca de loca��es e pesquisa para o longa posterior � � um filme da Fam�lia Barreto, que, ap�s um longo tempo, produz um filme dirigido por algu�m fora da fam�lia. E O Caminho das Nuvens se insere exatamente numa tentativa de �moderniza��o� da Fam�lia Barreto. Diferente do tom absolutamente cl�ssico de Bossa Nova ou do arca�smo de um A Paix�o de Jacobina, O Caminho das Nuvens � repleto de c�meras na m�o e cortes fren�ticos, com uma fotografia trabalhada em p�s-produ��o digital para saturar as cores, etc. etc. Mas por tr�s de todo o virtuosismo t�cnico e do vigor dos elementos de linguagem do filme (claramente influenciados pelo impacto Cidade de Deus, inclusive com uma persegui��o a um porquinho que resgata a abertura de CDD), um olhar mais atento ir� perceber o mesm�ssimo cinema, ir� perceber um projeto intimamente ligado com o cinema de sempre dos Barreto: um cinema sem espa�o para o risco, para a inven��o e para a aventura; um cinema que utiliza o vigor para em �ltima inst�ncia destru�-lo ou banaliz�-lo.

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1. Mas dito isso, o primeiro longa de Vicente Amorim � o que se espera de um primeiro longa, e nisso tem os seus m�ritos: � um trabalho de grande energia visual, de colocar o cineasta � prova, de mostrar �que se sabe filmar�, de mostrar um esmero e um efeito em cada plano, etc. etc. � um trabalho de refer�ncias sutis: da m�sica de Roberto Carlos at� Chinatown. Apenas lamentamos que nesse caso isso se revela completamente desnecess�rio para o filme.

2. Falamos de Cidade de Deus. Mais dois filmes nos v�m � mem�ria. Primeiro, o recente Deus � Brasileiro e sua viagem pela estrada do Nordeste. O segundo � o pr�prio Bye Bye Brasil. Sim, porque Amorim (e o roteirista David Fran�a Mendes) mostram uma vis�o abertamente desencantada e utilitarista: a fal�ncia da viagem, o fracasso do percurso. Mas enquanto Bye Bye Brasil � um invent�rio com enorme poder de autocr�tica, sobre a pr�pria utopia do cinema brasileiro, e Deus � Brasileiro problematiza seu cinema de entretenimento com um inspirad�ssimo plano final, O Caminho das Nuvens se alinha com Meirelles, e nesse ponto se revela perverso: tiraniza os personagens, afasta seu tom de humanidade, e demonstra a pr�pria fal�ncia de seu projeto pela �nfase na piada tola e na costura fr�gil entre os epis�dios da viagem.

3. E da� tendemos a tentar falar sobre a estranh�ssima op��o do roteiro na rela��o amb�gua entre pai e filho, talvez o dado mais intrigante do filme. Misto de vol�pia e fragilidade, de revolta muda e ampla passividade, o menino, interpretado com grande for�a interna por Ravi Ramos Lacerda (o mesmo de Abril Despeda�ado) chega a lembrar o garoto de Os Incompreendidos, chega a despertar nossa simpatia. Mas n�o conseguimos compreender porque n�o consegue se afastar dos pais, meio numa constata��o da inevitabilidade da solid�o, e de uma necessidade profunda da proximidade de um afeto perdido. Ficamos atordoados, e o roteiro n�o resolve, e se insere de forma confusa at� mesmo tendo em vista o projeto do filme.

 4. Mas ao mesmo tempo ficamos tristes, porque tudo nesse filme de Vicente Amorim n�o se baseia numa ang�stia ou num descontentamento, mas num profundo rancor.

 

Marcelo Ikeda

(09/06/2003)

 

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