O DESERTO DOS T�RTAROS

 

 

1. Estranho filme. Abertura da mostra Cinema Italiano e Literatura. Antes da proje��o, uma festa estranha com gente esquisita. N�o existe isso de fazer coquetel antes da proje��o. O filme � lento, tem 2 horas e meia, come�ou s� �s 21hs, o centro do Rio � sinistro. Teve ainda aquela palestra sem qualquer raz�o de ser.

2. O filme � lento. Zurlini n�o tem pressa. Numa cena, o novo segundo-tenente � apresentado aos oficiais da casa. �Esse � o tenente X�. Corta para o tal. �Eu sou o tenente X. Sou o respons�vel pela cavalaria�. �Esse � o tenente Y�. Corta para o tal. �Eu sou o tenente Y. Seja bem-vindo. Sou o oficial respons�vel pela sei-l�-o-que�. E assim vai at� que todos os oficiais sejam apresentados um a um, sentados em torno de uma enorme mesa.

3. A transposi��o do livro para o filme n�o deve ter sido f�cil, porque n�o h� a��o propriamente dita no filme. Tudo � uma espera absurda por algo que n�o se sabe bem o que � e quando vem, mas tem-se uma intui��o louca que certamente vem. (Tudo bem, tem de Esperando Godot a todo o resto que j� conhecemos). E da� o filme passa a ter v�rios contextos, de uma refer�ncia pol�tica (o absurdo do cotidiano dos militares, que matam a si mesmos, � moda de um Gl�ria Feita de Sangue) a at� uma filos�fica (o vazio do trabalho, a certeza da morte, etc.).

4. Claro, apesar de n�o ser um t�pico filme de Zurlini, � um t�pico filme de Zurlini. Tem o ritmo particular, tem o rigor plasticamente impec�vel do enquadramento, tem a m�o pesada e o vi�s de um cinema abertamente cl�ssico, tem um certo cansa�o como toque de estilo como se dirigisse da mesma forma como um Humphrey Bogart atua. Ali�s, � essa mescla de cansa�o e rigor que torna o estilo de Zurlini t�o particular.

5. Mas diz�amos que � um t�pico filme de Zurlini. Tem aquele di�logo final, em que o agora Major Simeon diz ao moribundo capit�o �temos que saber aceitar aquilo que nos � dado pela vida�, ou alguma coisa do tipo, que � uma frase-s�ntese do filme. Ou melhor, Zurlini fica � vontade em certos momentos, especialmente para mostrar como o segundo-tenente Drogo pouco a pouco incorpora as regras impl�citas daquele mundo, como ele � convencido por si mesmo a permanecer. E claro, para impor ao filme um clima cerimonioso, altamente religioso, e sobre o sacrif�cio, a fidelidade e a servid�o. � a import�ncia do pr�logo como contraponto, s�o os militares ajoelhados cantando uma can��o religiosa (quer coisa mais esquisita?). De forma altamente respeitosa, mas �s vezes um pouco amb�gua em rela��o a essa certeza de devo��o.

6. Creio que o ponto fraco do filme seja exatamente esse: o de insistir em excesso nesse ritmo cerimonioso, que torna os trinta minutos finais do filme quase um verdadeiro supl�cio. O desafio de Zurlini � exatamente esse: converter um argumento com uma inerente dose de abstra��o num filme em que o narrativo desponte ao primeiro plano, como � o estilo de Zurlini.

7. Mas curiosamente os melhores momentos do filme s�o justamente aqueles em que coisas estranhas surgem em que as pontas n�o se casam. � o Fernando Rey tendo uma crise, e o m�dico aplicando-lhe um medicamento; � o cavalo branco que surge no deserto; � o duelo de esgrima. Ali, o descritivo sucumbe a um cinema do estranhamento, como um �fantasma t�rtaro� que rodeia o filme.

8. Gostei disso. O �ltimo filme de Zurlini � como os pr�prios militares dentro do forte: sua corre��o, seu rigor e suas certezas s�o abalados por alguns fantasmas que insistem em rodear o filme. Por um lado, eles s�o inimigos, porque abalam as certezas; por outro, s�o bem-vindos, s�o �amigos �ntimos�, porque o que seria daqueles militares sem a certeza da chegada dos t�rtaros? O que seria deles sem uma miss�o?

 9. O fato de Zurlini simpatizar bem mais com os t�rtaros n�o o impede de constatar de que se est� do lado de c�. E ademais, de que n�o se pode nem mesmo ter contato com o que vem de l�. Sim, os filmes de Zurlini tamb�m s�o um estudo sobre o aprisionamento e principalmente sobre o destino.

 

Crist�v�o Bresson

(14/07/2003)

 

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valbul2a.gif (530 bytes)  Capa2003

(Todo o resto foi destru�do)

 

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