DEFESA SECRETA : TEMPO E CIRCULARIDADE


 

As hist�rias de assassinato com motivos psicol�gicos n�o s�o novidade para o cinema franc�s. Godard, Truffaut, Chabrol j� lidaram com elas. O filme de Rivette tem seu interesse pela complexa rela��o que une os oito personagens ligados pela trama. As rela��es se estabelecem atrav�s de algumas estruturas, com uma certa circularidade. De fato, o tom fatalista de trag�dia tem sua rela��o com a mitologia grega, numa Elektra, por exemplo. Por outro lado, o filme comete errros b�sicos em itens b�sicos.

Um dos pontos principais de Defesa Secreta � a auto-descoberta de Sandrine. Ela nos � apresentada em um mundo quase hermeticamente fechado, indiferente. No laborat�rio, Sandrine est� trancada por dentro, longe da vida, despreocupada com qualquer aspecto pessoal da sua vida, como podemos ver pela indiferen�a com que ela trata a aproxima��o de um apaixonado (que, por sinal, � um grandess�ssimo chato!). Curiosamente, no laborat�rio em que Sandrine se afasta da vida, ela tenta encontrar a cura contra uma doen�a, ela busca um m�todo cient�fico para manter a vida.

Esse estado de "aliena��o" � rompido com uma revela��o: seu irm�o Paul lhe diz que seu pai foi morto n�o em um acidente, mas num assassinato tramado pelo seu pr�prio s�cio, Walser. A partir disso, Sandrine muda os rumos de sua vida passiva, indiferente, bem-comportada, controlada, ap�tica, e passa a ser dominada pelos seus instintos, pela inconsci�ncia, pelo momento, pelo irracional desejo de vingan�a. Mas nesse caso a palavra vingan�a est� vinculada com a no��o de justi�a! Esse � um dos pilares do filme de Rivette.

Sandrine decide matar Walser. Assim, de repente. Ela, ent�o, embarca em uma viagem, partindo de seu mundo ins�pido, ass�ptico, indiferente, o mundo civilizado da cidade urbana de Paris, para a "propriedade", para o interior, para o seu mundo interior, um mundo de incertezas, de momentos, de instintos. Essa viagem representa uma transi��o, uma ruptura sem volta. E essa viagem � feita num trem, exatamente onde seu pai fora morto. Mas se o trem separa, ele � em primeiro lugar um meio de comunica��o, de jun��o, ele liga dois lugares distantes, ele permite a realiza��o de um contato. E o ponto central dessa complexa rela��o � Sandrine. A narrativa sempre, sempre tem o seu ponto de vista.

O trem � a primeira das estruturas circulares que regem o filme. Ela � composta de tr�s partes. 1) Sandrine sai da cidade e vai � propriedade (com a inten��o de matar Walser); 2) Sandrine sai da propriedade e regressa � cidade (atormentada com a chegada de Jo); 3) Sandrine regressa � propriedade (no trem com sua m�e).

Em 1), Rivette d� um grande destaque. Essa � a grande tentativa de transforma��o de Sandrine. O instante da revela��o (i.e quando ela tem a certeza que quer matar Walser) � destacado pela filmagem em tempo real no interior do trem, acentuando a transi��o. O tom de transforma��o fica claro quando ela compra �culos escuros. Sua inseguran�a se reflete em alguns momentos: na compra da passagem, na necessidade de vodka, na preocupa��o em experimentar os �culos, na irrita��o quando encarada por um homem, no desconforto na poltrona. Em 2), Sandrine regressa � cidade. Ele quer voltar para seu mundinho fechado, seu laborat�rio ass�ptico, mas obviamente isso j� n�o lhe � mais poss�vel. O regresso � uma tentativa de fuga. Em 3), h� o processo final, a descoberta da identidade, a forma��o de um sentido, o amadurecimento e a conci�ncia do absurdo de sua condi��o (ou talvez da pr�pria condi��o humana!). Ou melhor, a consci�ncia da impossibilidade de reverter as coisas, a inevitabilidade do conformismo. E nada melhor que a revela��o final, quando sua m�e lhe conta toda a hist�ria, aconte�a no interior de um trem. O trem � o leitmotif do filme.

A grande quest�o do filme �: no final das contas, foi bom ou ruim Sandrine saber que seu pai fora assassinado por seu s�cio? A aliena��o, nos termos usados anteriormente, � uma forma de inoc�ncia. E a perda da inoc�ncia � um caminho sem volta. Sandrine tinha um equil�brio perfeito, com sua aliena��o, seu laborat�rio, que foi rompido com uma verdade. A busca por essa verdade causou em �ltima inst�ncia a morte de Sandrine. At� que ponto ent�o vale a pena se descobrir, ou melhor, descobrir "verdades"? Sandrine viu um mar de podrid�o se abrir diante dos seus olhos, uma mar encoberto por sua aliena��o, por seu laborat�rio.

Defesa Secreta mostra uma complexa rela��o que se forma entre 8 personagens. 4 morrem, e 4 sobrevivem. As rela��es entre eles podem ser vistas no diagrama abaixo. M significa matar; i, a inten��o de matar, n�o concretizada; V, o desejo de vingan�a; A, uma tentativa de ajudar. P ex, Sandrine tem a inten��o de matar Walser (S-i-W) para vingar o pai (S-v-Pai), e faz isso para ajudar Paul (S-a-P), mas acaba matando Veronique (S-m-V). E da� em diante. O diagrama serve apenas para ilustrar como s�o complexas as rela��es que se formam entre esses personagens.

ds.jpg (4513 bytes)

Uma segunda estrutura circular ocorre nas mortes de Veronique e Sandrine. Verbalmente, a circularidade pode ser vista nas frases

Sandrine quis matar Walser para vingar (erradamente) seu pai, mas acabou matando Veronique.

Josephine quis matar Walser para vingar (erradamente) sua irm�, mas acabou matando Sandrine.

ou no gr�fico abaixo:

ds1.jpg (5923 bytes)

A terceira estrutura se relaciona com mundos fechados, seja a casa de Sandrine, ou o escrit�rio de Walser, como mostra o gr�fico abaixo. No apartamento de Sandrine, h� dois movimentos. Primeiro, Veronique a visita de uma forma bem estranha. Depois, Walser a visita, e lhe entrega a arma. Quando Sandrine a joga fora, ela bebe um copo d’�gua, como um sinal de "meia" purifica��o. Esses dois movimentos s�o contrastados com mais duas visitas. A primeira, de seu apaixonado boc�; a segunda, de sua amiga de laborat�rio. Nessas duas visitas, a incomunicabilidade � vis�vel. Com seus colegas da cidade, Sandrine n�o consegue se comunicar sobre algo que fa�a sentido, sobre sua vida pessoal. Sandrine afasta o homem que se interessa por ela, e n�o tem coragem de contar a hist�ria � sua amiga. Por outro lado, as visitas de Walser e Veronique devem ser contrastadas com as visitas ao escrit�rio de Walser. Sandrine vai ao escrit�rio, e mais tarde, Jo tamb�m vai. S�o as duas �nicas cenas que se passam no interior da sala de Walser.

ds2.jpg (23179 bytes)

No fundo, o filme de Rivette acaba sendo um fatalismo conservador. Por outro lado, devemos observar que Rivette relativiza, individualiza, a no��o de justi�a, que, para ele, faz pouco sentido. Se a vingan�a nesse caso busca justi�a, ela portanto perde ainda mais a sua raz�o de ser. Digo que esse fatalismo � conservador, porque quem mata quem n�o merece (Sandrine e seu pai), morre; quem mata quem merece (Walser), vive. Existe fatalismo porque tem personagem que inevitavelmente vai morrer. Isso � que nos lembra mais das trag�dias gregas, e � o caso claro de Sandrine (meio ed�pico, tamb�m).

Apesar das circularidades das estruturas, das complexas rela��es entre as personagens, um certo tratamento interessante em rela��o ao tempo, ainda assim, n�o se pode dizer que Rivette "experimenta com a vitalidade de um iniciante", como disse um cr�tico de um respeitado jornal carioca. O filme � plenamente convencional. Os 20 minutos finais refor�am as rela��es e a circularidade do filme; os outros 150 e tantos t�m in�meros momentos irregulares. De fato, o filme possui erros prim�rios, em itens b�sicos, de preocupa��o de qualquer iniciante, e por isso, no caso de um cineasta experiente e talentoso como Rivette, s�o um motivo de espanto. H� alguns erros de continuidade (objetos na propriedade), a fotografia � irregular, v�rios di�logos s�o ris�veis, e in�meras situa��es de roteiro s�o completamente absurdas. Entre elas, listo 1) a presen�a de uma arma no laborat�rio, a falta de controle ao acesso a ela e n�o se sentir sua aus�ncia; 2) Paul fica completamente descaracterizado do meio pro final do filme; 3) sua namorada n�o tem fun��o alguma; 4) o primeiro encontro de Silvine com Paul (no laborat�rio) � prim�rio, tanto no acesso dele ao lugar, quanto � facilidade de ele pegar a arma, quanto � rea��o de Silvine ao "estranho" (antes de ela saber que era Paul), pelo fato de Silvine estar fazendo ser�o porque precisava acabar um trabalho que n�o podia ser interrompido, e com a chegada de Paul, ela p�ra tudo e vai embora; 5) os sons ambientes (re�idos) s�o terr�veis: sons insignificantes s�o gravados como em primeir�ssimo plano (p ex, o gelo da vodka e a arma no lixo); 6) Walser � mal caracterizado; ele passa a viajar pouco, sua visita a Sandrine deixa a desejar; 7) o pr�prio fato de Sandrine querer matar Walser para salvar o irm�o � problem�tico; 8) a cena da discuss�o de Sandrine com seu irm�o e a namorada no hospital � a pior do filme. A rea��o da enfermeira � quase amadora. O doente se levanta da cama, Sandrine grita aos berros sobre uma arma, muito mal escondida, e a enfermeira reage naturalmente, sequer p�e eles pra fora; 9) a hist�ria do pai de Sandrine vender a filha por dinheiro � mal contada, confusa, e se contradiz com o fato de Walser ser um ambicioso, que ap�s a morte do s�cio expandiu em muito a empresa; 10) a cantada de Walser em Jo � constrangedora, como o fato de ele dormir com ela naquela mesma noite; 11) Veronique sumiu, mas parece que ningu�m a conhecia, sua irm� n�o se importa muito; 12) por que Sandrine permanece tanto tempo na propriedade ap�s ter matado Veronique?

 

Marcelo Ikeda.

Hosted by www.Geocities.ws

1