AMBIGUIDADES NA NARRATIVA CLÁSSICA HOLLYWOODIANA : O CASO DE "CLIENTE MORTO NÃO PAGA"


 

Cliente morto não paga (Dead men don’t wear plaid), dirigido por Carl Reiner, é um exemplo de como as especificidades da narrativa clássica norte-americana podem ser trabalhadas com a maior liberdade formal típica dos anos 80. O filme utiliza os alicerces do padrão hollywoodiano de forma bastante original para fazer um contraponto ambíguo à sua própria estrutura.

Por um lado, o filme é um retrato perfeito do estilo de narrativa consagrado nos filmes norte-americanos, especialmente entre os anos 20 e 60, conhecido como a "narrativa clássica hollywoodiana". Restringindo a análise apenas ao que se é visto na tela, extraindo qualquer elemento externo ao universo em que ocorrem os acontecimentos do filme, o filme respeita todas as convenções do padrão hollywoodiano de filmagem. A narrativa clássica apresenta sempre personagens psicologicamente bem definidas que enfrentam um ou alguns obstáculos que as impedem de atingir objetivos claramente determinados. O desenrolar de ações durante o filme é portanto uma tentativa de superar essas dificuldades, que têm um desfecho claro, alcançando ou não tais objetivos, quando a narrativa atinge seu "clímax". As tentativas e as ações das personagens são sempre expostas através de uma "relação causa-efeito", tornando-as imediatamente compreensíveis para o espectador, além de permitir o uso de diversos modos de "paralelismos".

Além dos elementos acima, já evidenciados no roteiro do filme, o modelo clássico narrativo pressupõe um modo de filmagem padronizado. A câmera se situa aos olhos de um "observador invisível". Os planos fílmicos são unidos através de um estilo "transparente", que torna a transição de um plano para outro um processo natural ou invisível para a percepção do espectador. Evitando mudanças abruptas que desorientem a percepção do espectador, a narrativa clássica se baseia em uma continuidade, tanto do espaço quanto do tempo. Por exemplo, a continuidade do espaço entre dois planos é perfeitamente entendida pelo observador no seguinte caso. No primeiro plano, o personagem X olha para a direita. A câmera corta para um segundo plano, onde se vê um objeto. Embora não necessariamente os dois planos tenham sido filmados ao mesmo tempo e num espaço contínuo, o espectador conclui naturalmente que o personagem X olhou para o objeto, num tempo e local determinados pelas condições da narrativa. Se ao invés de um objeto tivéssemos um outro personagem Y olhando para a esquerda, o espectador naturalmente concluiria que os dois personagens estariam olhando um em direção ao outro, num mesmo continuum tempo-espaço. Outros elementos também seguem um padrão bem definido. Um "dissolve", por exemplo, representa um intervalo de tempo maior que um corte seco. A iluminação geralmente usa o sistema "key-fill lighting". Os diálogos conservam sempre a "regra dos 180º".

Mas além de um modo de elaboração do roteiro e das personagens e de um modo de filmagem, o "padrão hollywoodiano" é caracterizado por um modo de produção específico. Cliente morto não paga foi produzido por uma "major" – a Universal –, com um lançamento e produção próprios de um filme de estúdio. O filme segue um gênero bem definido – a comédia – e segue as normas do "star system", já que seu protagonista, Steve Martin, é um dos atores mais prestigiados do gênero.

Entretanto, restringir-se ao que é exibido na tela, no caso de Cliente Morto não Paga, corresponde a se desviar do principal propósito do filme. Apesar de a história do filme ser literalmente a história de um detetive à procura de assassinos e de seus motivos para o crime (portanto um filme policial), o filme é claramente uma comédia, produzida segundo os padrões do gênero, conforme citado no parágrafo acima. Entretanto, a "graça" do filme só pode ser apreendida ao se incorporar elementos externos ao filme em si, já que o filme faz uma referência clara aos antigos filmes policiais, chamados filmes noir, exibidos na década de 40. Nesse sentido, o filme é claramente metalinguístico, só podendo ser "compreendido" mais amplamente através do conhecimento de uma "cultura cinematográfica", prévia à exibição do filme. Segundo este ângulo, o filme pode ser utilizado como um exemplo em uma crítica à representação realista da imagem como um análogo da realidade, ao estilo da semiologia metziana. O texto fílmico é baseado nas convenções de códigos e seus subcódigos, que inclusive podem ser culturais, externos ao universo propriamente fílmico. Assim, para Metz, uma imagem nunca é pura, já que está imbricada com diversos elementos sócio-culturais. A referência metalinguística de Cliente morto não paga torna o eixo paradigmático mais importante que o sintagmático. Isto é, mais importante que o desenvolvimento do enredo do filme em si, é o conjunto de citações e referências à história do cinema, que, mesmo sendo apresentados de uma ordem diferente da apresentada no filme, poderia ser apreendido da mesma forma.

Este modo de interpretação é ideal quando se pensa em Cliente Morto não paga como um exemplo de um cinema pós-moderno. O filme descaracteriza o real, já que "o meio é a mensagem", através da imbricação de diversos elementos, tornando o filme uma "colcha de retalhos". O próprio estilo de montagem, unindo fragmentos de clássicos antigos ao filme em si, dispõe de filmes diferentes a fim de produzir um "corpo esquizóide", onde as partes nitidamente não possuem um encaixe perfeito, tendo uma lógica própria, puramente auto-referencial. Segundo esse ponto de vista, o filme não tem uma função em si, mas é simplesmente um jogo estético, pelo puro prazer de se admirar a estranheza dessas combinações.

Entretanto, Cliente morto não paga não é um filme experimental, ou um filme de arte. Pelo contrário, é um filme de entretenimento, produzido por um grande estúdio americano. Por isso, devemos interpretá-lo como uma "comédia paródica". Entretanto, o filme de Carl Reiner não pretende ser um "deboche" ou um questionamento do modo americano de se fazer cinema, mas, pelo contrário, uma homenagem ao glamour dos antigos filmes americanos. O estilo decadentista dos filmes noir tinha o seu charme característico, ausente das produções contemporâneas, além de serem peça fundamental na percepção dos distúrbios psicológicos da nação americana, simbolizados no "american way of life". Por isso, Cliente morto não paga deve ser visto como uma nostalgia bem-humorada, e não como uma galhofa aos filmes clássicos. Esse tom de homenagem se revela ainda mais claro quando comparamos o modo de produção do filme de Reiner. Os fragmentos de antigos clássicos revelam as facetas de um "star system", mostrando cenas com atores claramente conhecidos do público presente, como Hunphrey Bogart, Cary Grant, Alan Ladd, Burt Lancaster, Ava Gardner, e James Cagney, assim como o próprio filme de Reiner ilustra o "star system" pela presença de Steve Martin.

Em outros trechos, o filme faz um jogo com as relações causa-efeito do cinema clássico narrativo. O vínculo causa-efeito se torna ainda mais importante num filme de detetive, de narrativa com um ponto de vista restrito, onde o espectador conhece o rumo dos acontecimentos pela visão do detetive (portanto, uma visão parcial, e não onisciente), revelando, pouco a pouco, os motivos e os autores de um assassinato. No filme de Reiner, muitas das conclusões são tomadas a partir de eventos com pouca relação entre si, o que gera o efeito cômico. Ao descobrir o código NYT-AG-216, Steve Martin imediatamente descobriu que se tratava de uma reportagem do jornal New York Times do dia 2 de agosto, na página 1 coluna 6. Em seguida, quando relaciona dois fatos sem nenhuma relação aparente sobre o transatlântico que fizera sua última viagem, o detetive confessa que não sabe como fez essa ligação.

Em outros casos, Cliente morto não paga faz uma referência às convenções do gênero no passado. Ao extrair um fragmento de uma atuação de Ray Milland, o filme de Reiner torna o personagem um bêbado, lembrando o filme Farrapo Humano (Wilder, 1945), o mais conhecido do ator, que inclusive lhe deu um Oscar. Quando cita Humphrey Bogart, seu personagem se chama Marlowe, o mesmo estrelado por Bogart em Á beira do abismo (Hawks, 1946). Da mesma forma, quando Steve Martin descobre que o assassinato faz parte de uma conspiração internacional, Reiner está se referindo à chamada "paranóia americana da guerra fria", aspecto comum dos filmes noir da época, como em A morte num beijo (Aldrich, 1965).

A fim de que passado e presente se unam em um filme com uma unidade, várias funções da linguagem cinematográficas passam a estar necessariamente relacionadas. O roteiro deve ser meticulosamente preparado em função das cenas dos filmes clássicos já prontas para serem inseridas ao longo do filme. Por isso, a preparação do roteiro deve estar intimamente relacionada com o próprio processo fílmico. O que se está apenas no papel no filme de Reiner pressupõe o que já existe filmado de fato nos filmes antigos a serem reinseridos no novo filme. A montagem tem um papel primordial, selecionando exatamente o início e o final da cena em que o filme antigo será aproveitado. No filme, a montagem foi ainda mais complexa, já que na maior parte das vezes, existiam diálogos entre personagens do "filme antigo" e do "filme novo". Com isso cenas entre os filmes eram intercaladas, usando a montagem clássica tradicional para sugerir uma continuidade espaço-temporal. Com isso, Cliente morto não paga é uma aplicação típica da teoria clássica da narrativa. Embora os dois fragmentos de filmes sejam claramente realizados em lugares e épocas diferentes entre si, a continuidade é sugerida através de uma técnica "transparente" que minimize as alterações na percepção do espectador, aparentando continuidade. Assim, pode-se dizer que o filme faz uma espécie de jogo com as próprias limitações da estrutura clássica narrativa. Na cena de maior dificuldade para a montagem, Alan Ladd persegue Steve Martin ao longo de um aposento. A troca de olhares entre os dois atores num "shot-reverse-shot" intercala trechos de filmes diferentes, picotados pela montagem. Em seguida, Ladd dá um tiro em Martin, que se esconde em um banheiro. O deslocamento das personagens, que envolve inclusive uma mudança de ambientes, torna o processo da montagem ainda mais complexo. Além da montagem, é preciso um trabalho atento da continuidade, para uniformizar os elementos de linguagem de ambos os filmes. A fotografia, a figurino, a posição da câmera, a cenografia, entre outros, devem estar em sintonia com o filme antigo que se intercala ao filme de fato. Por trás de Cliente Morto não paga, existe uma equipe que realizou todo um trabalho de pesquisa, assistindo aos filmes da década de 40, para obter mais detalhes sobre estética e elementos de cena, a fim de incorporar este visual ao filme de Reiner. A fotografia em preto-e-branco, além de ser um elemento fundamental que nos remete aos filmes da época, é, antes de uma opção estética, a única alternativa visualmente factível para unir o filme novo e os filmes antigos sem grandes alterações na continuidade da percepção do espectador.

Todas estas particularidades permitem que Cliente Morto não paga possa ser visto através de várias perspectivas, tornando o "entendimento" do filme mais diretamente relacionado com o processo de percepção do espectador.

Marcelo Ikeda.

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