"CLEO DE CINCO ÀS SETE" : FUTILIDADES PEQUENO-BURGUESAS


 

Embora não seja um nome tão conhecido do público, a cineasta Agnés Varda fez um cinema ao longo dos anos 60 alinhado com os princípios estéticos da nouvelle vague. De fato, seu filme La pointe courte, de 1956, é considerado por muitos um dos precursores do movimento. Cleo de cinco às sete, de 1961, é o filme mais conhecido da diretora, juntamente com Le bonheur (1965). Cleo é um filme típico da nouvelle vague: um filme que fala sobre a vida insignificante de uma pessoa tão insignificante como qualquer outra. Os noventa minutos de filme percorrem duas horas da vida de Cleo, enquanto ela adia sua ida ao hospital para saber o resultado de um exame. O mundo despreocupado de Cleo se destrói quando, logo no início do filme, Cleo percebe, pela reação da cartomante que sua doença é realmente grave. Cleo acha que vai morrer, e seu espírito supersticioso fica claro ao longo do filme: um simples espelho quebrado é o sinal definitivo de seu destino irreversível. Perdida, inconsolada, Cleo percorre seu mundinho sem sentido à procura de um consolo. Esbarra em sua assistente despreocupada, seu namorado carinhoso mas ausente, os músicos que a consideram uma burra e que ainda mais a deprimem, uma amiga meio avoada, um filminho tolo que a faz rir. Vê um chapéu que acha a princípio bonito. Num parque, encontra um homem falante, como lhe dissera a cartomante, um militar simpático, que a acompanha até a notícia tão esperada. Cleo faz uma peregrinação pelos símbolos que representam a futilidade e a superficialidade de seu mundo em busca de alguma coisa que nem mesmo ela sabe bem o que é. Talvez nada, ou no máximo uma companhia legal. No meio do caminho, Cleo retorna à sua casa suntuosamente oca, não se esquece de seu exercício de alongamento, deita-se com seu vestido de plumas numa cama enorme, cheia de adereços, canta sua música imbecil com sua voz frágil. Depois, irritada, sai. Em suas dúvidas existenciais, as personagens da nouvelle vague sempre caminham pela rua, sem rumo, como se fugissem de algo para encontrar alguma coisa. Mas na verdade as andanças de Cleo não são bem existenciais. È certo que sua angústia ante à proximidade da morte é um conceito bastante existencialista. Mas Cleo de forma alguma quer fazer uma reavaliação de seu mundo, buscar o sentido de sua condenação precoce. Todo o tempo Cleo confere legitimidade a seu mundo, e mantém sua essência superficial, seu mundo de aparências. O próprio nome Cléo é uma aparência: seu verdadeiro nome é Florence. Cleo o diz justamente quando parece ter a única relação realmente verdadeira durante o filme. Pela primeira vez, Cléo se mostra como pessoa. Na verdade, o cinema da nouvelle vague reflete exatamente a postura de seus realizadores: são pequeno-burgueses isolados em seus problemas existenciais.

Esteticamente, a liberdade dos movimentos de Cléo se reproduz através dos belos movimentos de câmera. Uma câmera portátil, que se destaca especilamente pelos travellings e pelo enquadramento frouxo, despreocupado. A idéia de Varda é que a ingenuidade de Cléo não representa alienação, mas liberdade. Por isso, na maior parte do tempo, Cléo está na rua, um ambiente em expansão. Cleo não se prende em nada, e talvez não perceba a importância daquelas duas horas tão fúteis, tão genuinamente humanas, tão melancólicas, tão ingênuas...

Mas Varda decepciona quanto ao seu tratamento do tempo. O filme, claramente pelo título, é uma referência à não-continuidade do processo fílmico, já que a idéia é mostrar duas simples horas (mesmo que sejam decisivas, se bem que isto é bastante questionável) na vida de uma pessoa. Mas Varda assim o faz em noventa minutos, e faz questão que seu filme se divida em vários "episódios", indicando a hora exata de cada acontecimento. Mas de fato, a quantidade de fatos ocorridos no filme é tão grande que certamente sabemos ser impossível que tudo tenha realmente acontecido dentro de parcas duas horas. Com isso, Varda frustra uma espectativa que, já pelo título, se torna central para a realização estética de seu filme.

Marcelo Ikeda.

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