CIDADE DE DEUS

 

Cidade de Deus � o tipo de filme que j� foi t�o comentado que se torna quase enfadonho escrever algo a respeito. Trata-se de um filme que leva �s �ltimas conseq��ncias muitos dos temas de sempre que assolam o recente cinema brasileiro: uma necessidade de conquista de p�blico sem abandonar um certo tipo de cinema autoral, a supremacia t�cnica da fotografia e da produ��o como impositivo de um crit�rio de qualidade. Mas o que assusta nas produ��es de Fernando Meirelles � como ele simplifica a quest�o, tornando-a t�o simples a ponto de querer eliminar qualquer possibilidade de discuss�o. Neles, as quest�es do que � e do que n�o � nacional se tornam t�o conflitantes que os tornam exerc�cios quase assustadores. Sim, Cidade de Deus se passa na favela, e em termos de cinema brasileiro, qualquer visita a favela nunca ser� gratuita. Mas o que nos perturba em Cidade de Deus n�o � seu tom a�tico, mas sim anti-�tico: n�o se condena o filme porque ele possui uma est�tica publicit�ria que evita tornar os marginais pobres v�timas e m�rtires de um sistema desigual, mas porque, por tr�s de um cinema de inventividade formal, da sedu��o de movimentos, cortes e representa��o, o diretor utiliza uma pretensa no��o de realismo que descaracteriza o conflito e fornece ao espectador a possibilidade de um mergulho higi�nico.

 Cidade de Deus � o Independ�ncia ou Morte (o filme de Carlos Coimbra) do novo s�culo: � o melhor exemplar do que possa ser um filme neoliberal num pa�s subdesenvolvido com altas desigualdades sociais, um filme que se encaixa perfeitamente no perfil conservador de uma sociedade que esbarra dirariamente no tema da viol�ncia e tenta se eximir de uma certa parcela de culpa. Produto dessa vis�o, Cidade de Deus utiliza o cinema cl�ssico em seu vi�s mais sinistro: por tr�s de uma hist�ria que dialoga apenas implicitamente com os filmes de g�ngsters e conven��es at� mesmo das hist�rias em quadrinhos, busca-se uma certa neutralidade, um certo cinema da transpar�ncia que vai buscar exatamente o document�rio para falsear suas impress�es, que vai condensar alguns grandes paradoxos para integrar uma proposta extremamente sem conflitos. Por isso, � um erro crasso compar�-los aos filmes de Tarantino. Cidade de Deus � puro cinema cl�ssico, em que toda manobra de tempo � perfeitamente integrada a uma no��o de flashback e motiva��o dos personagens. A c�mera documental e a fotografia estilosamente suja t�m a fun��o de conferir ao filme uma no��o de realidade quando sua proposta � exatamente outra: contar uma historinha como qualquer outra. Cidade de Deus, com a c�mera na m�o, com os atores n�o profissionais, com as filmagens em loca��o � o ant�poda do neo-realismo italiano.

 Sua linguagem complexa, sua mistura confusa dos mais d�spares elementos, acaba tendo um objetivo claro e cristalino. A profus�o do corte e da est�tica do videoclipe a princ�pio destoaria de um tom documental, mas funciona exatamente como parte de uma integra��o em uma realidade que se apresenta ca�tica. Em Cidade de Deus, o document�rio � videoclipado, porque n�o � document�rio nem � videoclipe. No fundo no fundo Cidade de Deus � absolutamente linear, e se n�o o � perfeitamente, � apenas como parte da estrat�gia de sempre do cinema cl�ssico, para falsear seu conservadorismo numa suposta inova��o t�cnica.

  Quem conseguir assistir ao filme com um m�nimo de distanciamento, vai notar que Meirelles � h�bil manipulador dos elementos da narrativa cl�ssica, e nesse sentido, Cidade de Deus est� muito � frente de seu projeto anterior, Dom�sticas. Numa pr�-estr�ia completamente lotada no cinema Odeon, era comum o p�blico rir em momentos em que os bandidos explodem as cabe�as uns dos outros. O p�blico ria sem perceber que estava rindo, porque a cena n�o era de com�dia. Ao contr�rio de um Peckinpah por exemplo, n�o se trata aqui de uma transcend�ncia do real pela arte f�lmica (segundo observou Merten em sua cr�tica no Estad�o), mas de fundi-los, de mostrar que n�o existe nenhuma diferen�a ou conflito entre um e outro. Essa � a engenhosidade perversa de Cidade de Deus: a est�tica documental � utilizada exatamente para paradoxalmente refor�ar o tom estilizado da l�gica do clipe e das t�picas cenas dos filmes de a��o.

  Tanto que em Cidade de Deus n�o h� conflito. Como a t�pica estrat�gia videoclipesca, o que importa � uma sucess�o de sensa��es e pequenas historietas narrativas de in�meros personagens que mais ou menos se cruzam e se encontram, como um jogo de Pac-man. O �nico conflito do filme surge quando Z� Pequeno passa a sentir ci�mes de seu parceiro, quando percebe que apesar de todo seu poder n�o consegue arrumar uma namorada. Ou quando Ben� pede a um garoto da Zona Sul para lhe comprar roupas, e surge uma amizade amb�gua, porque se nutre a partir da impossibilidade de Ben� pertencer �quele outro mundo. A� existe um conflito, mas o filme n�o desenvolve nenhuma de suas possibilidades.

  Cidade de Deus � a evolu��o natural de um cinema que j� se apresentava em Dom�sticas e que agora se revela em suas �ltimas conseq��ncias, em termos de uma vis�o sobre os marginalizados e o papel do cinema ao entrar em contato com �o outro�. Potencial formador de opini�o, deslumbrante em seu dom�nio t�cnico e narrativo, Cidade de Deus � a prova de que j� est� mais do que na hora de percebermos de que n�o se deve defender o cinema brasileiro contra um cinema estrangeiro, mas um cinema brasileiro.

  Lado a lado, � absolutamente surpreendente e coerente como os projetos da Conspira��o, de Walter Salles e da O2 (leia-se Fernando Meirelles) s�o t�o pr�ximos e t�o distantes. Todos se encaixam numa vis�o de um cinema brasileiro �muderno�, globalizado, de grande virtuosismo t�cnico, de contato com o p�blico mas que evita um cinema puramente comercial. Mas se na Conspira��o, a mescla entre intimismo e mercantilismo ganha contornos algumas vezes admir�veis nos filmes recentes de Andrucha Waddington, e se nos filmes de Walter Salles, a vis�o � da compaix�o pelos pobres e miser�veis, e do estrangeiro como redentor, nos filmes da O2 � o pastiche, � a simplifica��o dos conflitos, � se surpreender com o tom ex�tico da mis�ria e da morte. O esp�rito de Cidade de Deus n�o � muito diferente do da aposta de Trocando as Bolas, quando por US$1, destr�i-se completamente a vida de duas pessoas, tornando seus conflitos, suas esperan�as, parte de um jogo ordin�rio e cruel. No fundo, a �nica diferen�a � que a aposta vale muitos d�lares a mais.

Marcelo Ikeda

(05/09/2002)

 

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