CHOCOLATE: UM FILME DE LASSE HALSTROM |
A motiva��o para este texto na verdade surgiu a partir de uma discord�ncia de duas rea��es extremadas. Primeiro, uma amiga me afirmou que n�o entende como o diretor tem a coragem de assinar no final do filme um cr�dito como "um filme de Lasse Hallstrom". Segundo ela, � um tipo de filme que impossibilita se tratar de "uma assinatura", especialmente para um diretor europeu como Hallstrom. A segunda veio de uma cr�tica formal, publicada em um site de cinema de excel�ncia, escrita pelo bom amigo Felipe Bragan�a. Trata-se de uma cr�tica ousada e, ao meu ver, desrespeitosa, praticamente desqualificando o filme. Segundo Bragan�a, nada existe no filme que mere�a ser comentado, da� seu texto ironicamente se concentra nas indica��es que o filme teve ao Oscar. S�o dois exemplos dos mais comuns coment�rios sobre o filme. Praticamente todos comentaram a terr�vel aposta de um certo bom gosto do filme, que acaba caindo em todos os clich�s do g�nero, sem nenhuma criatividade. Visto dessa forma, de fato, Chocolate � um p�ssimo filme, feito para agradar aos "velhinhos da Academia", respons�vel por suas indica��es ao Oscar. Nesse ponto reside toda a raiva an�rquica de Bragan�a. Para ele, parece impens�vel que um filme insosso como Chocolate possa ser indicado ao Oscar de Melhor Filme. Esse ponto merece ser comentado. Apesar de sabermos que certamente o Oscar n�o � propriamente uma indica��o da qualidade art�stica do filme, mas que esbarra em in�meros fatores, como pol�ticos, comerciais e (especialmente atualmente) de marketing, as pessoas, ainda que indiretamente, associam uma indica��o ao Oscar como um pressuposto. Da� a grande bandeira dessa cr�tica especializada tem sido aniquilar tais filmes, o que acaba em uma avalia��o redutora. Se um filme como Beleza Americana fosse exibido aqui sem estardalha�o no meio do ano, receberia coment�rios razo�veis. De fato, n�o se trata de um filme digno de nota, mas possui algumas virtudes. No entanto, devido � sua premia��o na cerim�nia da Academia, o filme foi considerado como abomin�vel por essa cr�tica alternativa. Talvez um filme como A Vida � Bela, com as macaquices de Begnini na cerim�nia de premia��o, tenha sofrido ainda piores preconceitos. A primeira rea��o, a da minha amiga, sobre a assinatura, � muito mais interessante, e em cima dela que devo estruturar este texto. Esta rea��o, paradigm�tica de in�meros coment�rios que li ou ouvi, � plenamente justificada. Chocolate parece a princ�pio um filme fraco, com recursos simpl�rios, e um certo bom gosto que nos lembra os piores exemplares do academicismo franc�s que os cr�ticos da nouvelle vague tanto condenavam. Ainda assim, e mesmo reconhecendo todas estas limita��es, creio que Chocolate � um dos filmes mais emocionantes deste in�cio de ano. E curiosamente, ao meu ver, a emo��o que transborda do filme vem exatamente da constata��o de que o filme � absolutamente autoral. Vamos ao ponto. Em primeiro lugar, as rea��es anteriormente citadas se esquecem de uma coisa: o cinema anterior de Hallstrom. Este sueco foi revelado a partir de uma tenra hist�ria sobre a inf�ncia em Minha Vida de Cachorro (85). Filme c�lebre para os cineclubistas dos anos 80, abriu o mercado hollywoodiano para um diretor europeu que, mesmo com um estilo psicol�gico centrado no universo das rela��es humanas e pessoais, tinha um toque delicado e que esbarrava no humor. Em Hollywood, Hallstrom, apesar das limita��es criativas do sistema, e trabalhando muitas vezes com roteiros que n�o eram escritos por ele, conseguiu reunir uma obra que apresenta v�rios pontos em comum. Em primeiro lugar, Hallstrom se concentra no problema das diferen�as no relacionamento humano e como, a partir desse choque, � poss�vel um espa�o para uma transforma��o. Esse sentimento de liberdade, no entanto, � quase sempre sufocado por um mecanismo de irreversibilidade, seja devido aos pr�prios limites intr�nsecos aos personagens seja da sociedade/meio que os cercam. Esse aparente paradoxo � claramente vis�vel em todos os seus filmes. Seu primeiro filme em Hollywood � o pouco visto Meu Querido Intruso (91), com Richard Dreyfuss, em que o relacionamento humano e o tratamento das diferen�as j� se apresentam, quando uma mulher (Holly Hunter) v� sua vida modificada quando conhece um homem mais velho. A investiga��o atenta das rela��es familiares, j� presente nesse filme, tamb�m estar� presente em seu filme seguinte, Gilbert Grape, Aprendiz de Sonhador (93), filme pelo qual Leonardo di Caprio foi indicado ao Oscar pelo papel de um menino com defici�ncia mental. O olhar quase saudosista mas ao mesmo tempo decadente para uma pequena vila num tempo passado � outro ponto em comum, que j� existia desde Minha Vida de Cachorro. A irreversibilidade, a quest�o da liberdade e o tratamento das diferen�as (atrav�s da defici�ncia de di Caprio) s�o evidentes no filme. Em O Poder do Amor (95), a quest�o familiar � vista pelo lado do casamento. A exist�ncia fr�vola e o mundo perfeito da bonequinha Julia Roberts � destru�do com a revela��o de que seu marido a est� traindo. Com Regras da Vida (99) veio a consagra��o, com a s�rie de indica��es ao Oscar. � um filme com uma s�rie de semelhan�as com Chocolate, no estilo autoral que Hallstrom vem buscando. A ess�ncia desses filmes resulta em uma clara contradi��o. De um lado, vemos um diretor plenamente integrado ao modo de produ��o americano: hist�rias com uma conclus�o moralista/conservadora, geralmente endere�ada a um p�blico com mais idade, roteiros simples, com v�rios clich�s e sem grandes criatividades. Mas por outro vemos um diretor essencialmente europeu: o trabalho dos relacionamentos humanos, o preciosismo dos enquadramentos, a tend�ncia ao drama psicol�gico. Disso nasce uma combina��o bastante esquisita no cen�rio do cinema americano. Se por um lado Hallstrom admira o espa�o nos Estados Unidos e sua aceita��o como cineasta, por outro suas rela��es com essse mundo s�o amb�guas. Por isso, os personagens de Hallstrom s�o sempre eternos divididos entre o resgate de um passado e o desafio de um futuro em expans�o. Em Regras da Vida e Chocolate, claramente est� envolvida uma quest�o pessoal. N�o � � toa que ambos os filmes falam de migrantes que precisam se adaptar a um novo ambiente e sofrem dificuldades. Regras da vida nesse ponto � ainda mais t�pico que Chocolate. Toda a primeira parte do filme � claustrof�bica. Apesar de todo o ambiente de prote��o, � necess�rio que o garoto saia ao mundo e busque novos espa�os, seu caminho pr�prio. No entanto, esse novo ambiente, apesar de toda a conota��o de liberdade que ir� tomar, ser� de certa forma tamb�m insatisfat�rio, porque inevitavelmente ele � um estrangeiro que n�o pertence �quele lugar. Esse sentido de deslocamento como uma forma de estranhamento ou aliena��o � um ponto importante nos dois filmes. Em Regras da Vida, claramente a solu��o � levemente pessimista. A impossibilidade de um meio-termo reflete um cineasta que ainda est� em busca de uma identidade pr�pria. Nesse caminho, surgem temas estranhos a um t�pico filme americano, especialmente o pai que abusa da filha.
Chocolate, nesse sentido n�o � t�o exemplar quanto Regras da Vida, mas pensando nessa perspectiva torna-se um filme emocionante. O problema das diferen�as e o tratamento do imigrante tornam-se, apesar dos clich�s, um tratado extremamente pessoal. A objetividade com que o filme trata esses temas � comovente. Hallstrom trata seu pr�prio problema �s avessas. Chocolate fala de uma pessoa liberal que traz alegria a uma pequena vila conservadora e avessa a mudan�as. Parece o contr�rio de Regras da vida, ou da trajet�ria do pr�prio Hallstrom, que abandona sua vida luterana e conservadora na velha Su�cia para embarcar para o Novo Mundo. De fato, Hallstrom n�o chega a ser original, e o filme � bastante rom�ntico, especialmente pela possibilidade de uma transforma��o. Mas a ternura de Hallstrom mesmo por seus personagens pat�ticos mostra que na verdade s�o temas caros � sua pr�pria personalidade, e que ele pr�prio busca uma solu��o. At� que ponto n�o podemos pensar que a crian�a que segue a hist�ria (e que se revela a narradora) n�o � o ponto de vista do pr�prio diretor? Ou mesmo um resgate ao mundo infantil de Minha Vida de Cachorro? Mas o que � curioso e contradit�rio nesse tipo de cinema (e o que na verdade o torna apaixonado e pessoal) � o ritmo extremamente particular que surge. Inevitavelmente, o filme cairia no humor leve. No entanto, Hallstrom n�o recusa o melodrama intenso ( a mulher que apanha, a av� impedida de ver o neto, a discrimina��o social, a cr�tica � religiosidade, etc.). Esses breves pontos j� podem nos alertar de que de certa forma o filme pode ser at� visto como um certo painel dos Estados Unidos, centralizador e das hipocrisias de seu estilo conservador (o padre e o prefeito s�o t�picas caricaturas). Mas nada esconde do filme o brilho de cenas absolutamente esquisitas. A pr�pria escolha de Juliette Binoche espelha bem essa contradi��o. A princ�pio, seu refinamento n�o parece adequado para se encaixar no estilo de uma cigana liberal e extremamente ativa. No entanto, sua atua��o escapa dos estere�tipos, tornando sua personagem mais humana. Ainda assim, a escolha de uma europ�ia torna a quest�o do imigrante ainda mais em destaque. A cena do inc�ndio � t�pica das ambiguidades do estilo americano de Hallstrom. A m�e, por alguns insantes, pensa que sua filha morrera, e se atira desesperadamente no lago. Apesar de sua independ�ncia, de afirmar que n�o se prende a nada, vemos sua proximidade obsessiva com sua filha. Quando se reencontram, a m�e rola, molhada e completamente suja, com a filha pela terra �mida e pelo mato � beira do lago. A filha surpreendida, apenas retruca que "ela a est� machucando". S�o nesses breves momentos em que se v� o toque europeu, amb�guo e observador de Lasse Hallstrom. * * * Este texto mereceria ser melhor trabalhado para apresentar de forma mais detalhada a filmografia de Lasse Hallstrom e o perfil de seus filmes americanos. Decerto que Hallstrom ainda n�o se revelou um �timo realizador. N�o � isto o que quero defender neste texto. Muito menos quero argumentar que Chocolate � um filme digno de nota. Absolutamente. Mas ainda assim creio que foi um filme que sinceramente me deixou comovido. Entre os clich�s abundantes dos dois �ltimos filmes, senti pulsar em Regras da vida e em Chocolate um autor, i.e um diretor que sente uma vontade imperiosa de refletir no cinema suas pr�prias ang�stias pessoais, fato cada vez mais raro no cinema americano atual. Ainda que com v�rias irregularidades, os filmes de Hallstrom merecem ser vistos com menos preconceitos, e com uma maior vis�o de conjunto. De uma certa forma, Hallstrom dialoga com v�rios diretores americanos do cinema cl�ssico. Se esses filmes s�o irregulares e paradoxais, � porque assim ainda � a pr�pria vida desse sueco que tentou a sorte grande nos Estados Unidos e, como uma crian�a, parece ainda n�o acreditar que o sonho se tornou realidade. Talvez com a maturidade venha uma solu��o menos rom�ntica e uma tentativa de s�ntese. Ser sueco no pa�s do MacDonalds n�o parece ser f�cil. Ainda assim, voltando ao mote do in�cio do texto, � indubit�vel que se tratam de filmes de Lasse Hallstrom. Marcelo Ikeda. (30/03/2001) |