Uma declara��o de princ�pios

 

 

Tarefa dolorosa esta minha de substituir o amigo Marcelo Ikeda em seu impedimento de prosseguir com sua atividade cr�tica. � curioso que justamente um site que sempre perseguiu a cr�tica como exerc�cio da liberdade individual seja envolvido por quest�es pol�ticas dessa natureza... Mas enfim, faz parte da vida, e como diria o Mestre Paulinho da Viola "e viver n�o � brincadeira n�o...". Ikeda, tenho a ingrata miss�o n�o de te substituir, mas de prosseguir sua peregrina��o solit�ria.

E como iniciar? Como prosseguir? Bom, creio que seria um bom in�cio come�ar com uma pequena declara��o de princ�pios. Relembro, pois, os dois �ltimos textos que o Ikeda escreveu para a capa do site, comentando quais seriam suas rec�nditas inten��es. Ei-los.

Crist�v�o Bresson

(14/07/2003)

 

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Neste ano de 2002, Claquete resolve realizar uma breve mudan�a, ainda que apenas para refor�ar os mesmos caminhos de sempre. Cada vez mais preocupando-se menos em ser abrangente, menos em ser "um site de cr�tica", no sentido estrito da palavra, para se revelar mais como um simples exerc�cio de di�logo e reflex�o sobre o cinema. A id�ia parece ser a de escrever menos e divagar mais, de surpreender-se mais do que apontar.

� tamb�m assumir-se como um exerc�cio individual, quase como um "di�rio de viagem", no sentido de percorrer um caminho interior que persigo atrav�s dos filmes. Mas at� que ponto esse caminho interessaria ao leitor? � uma pergunta, fundamental at�. Creio que sim, dado que o caminho envolva uma generosidade e uma necessidade de di�logo, ainda que solit�rio.

Claquete, assim, n�o se pretende a nada a n�o ser isso, exercitar sua paix�o pelo cinema, e se busca o isolamento, se foge das auto-promo��es, o faz exatamente como proposta de coer�ncia e nunca como timidez. Ao contr�rio de outros ve�culos, n�o pretende ser exaustivo, cobrir grandes temas, ter uma periodicidade, ter um expl�cito feedback com o leitor. O feedback � impl�cito, na possibilidade de este vir a se interessar em assistir a um filme ao ler um coment�rio favor�vel, ou � quem sabe � ter um novo olhar sobre um filme que n�o tenha apreciado tanto.�, acima de tudo, exercer a liberdade de preencher um espa�o alternativo, disposto a discorrer sobre cinema fora dos ran�os academicistas, das intrigas � la SET, ou das resenhas jornal�sticas. Recebo com algum desapontamento a opini�o de pessoas que julgam este site um exerc�cio egoc�ntrico, autista e anti-democr�tico por apresentar a opini�o de apenas uma pessoa. Ora, este � apenas mais um espa�o livre que se cria, inclusive sem nenhum retorno financeiro, para discutir sobre cinema. Que se criem outros, e outros e mais outros, que ofere�am novas vis�es e possibilidades.

Meu �nico desejo � que este espa�o possa ent�o servir como uma semente.

Marcelo Ikeda

28/12/2001.

 

Crise

Claquete ruma para 2003 num momento de crise. No momento em que come�o, ainda que timidamente, a avan�ar rumo � realiza��o, deparo-me ante a uma crise, uma lacuna que nem mesmo os filmes conseguem preencher. Crise da antiga obsess�o em ver o maior conjunto poss�vel de filmes; crise da obsess�o em escrever sobre o maior n�mero poss�vel de filmes. Crise da relev�ncia deste of�cio solit�rio e ranzinza; crise da necessidade em satisfazer-me com o produto escrito.

 E neste momento de crise, o que me resta a n�o ser eu mesmo? Pois o que me mant�m escrevendo � a necessidade de radicalizar minha proposta: � utilizar os filmes como meio para escrever sobre mim mesmo, para externalizar os problemas de sempre. Com isso, � afirmar a impossibilidade da cr�tica n�o ser algo essencialmente pessoal, � ratificar o modelo do di�rio de viagem. Com isso, antes de cair num obscurantismo autocentrado e egoc�ntrico, creio que, ao contr�rio, refor�o a generosidade e a intimidade do texto. E creio que, ainda assim, isto � poss�vel sem que se abra m�o de um texto que prima pelo rigor e pela coer�ncia. Que assim o seja.

Marcelo Ikeda

26/04/2003.

 

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