BUENA VISTA SOCIAL CLUB : A PIOR FACE DA REACIONÁRIA IDEOLOGIA DO CINEMA AMERICANO


 

Voilá! Eis o filme cult da temporada de 2000! O que poderia agradar mais aos pseudo-cinéfilos do Estação Botafogo? Buena Vista Social Club, nome mezzo americano half cubano, já sintetiza o espírito da proposta do filme: ele posa de cinema autoral com o nome de Wenders, posa de documentário sobre a realidade cubana, posa sobre um tratado de cultura alternativa, mas é tudo pose: no fundo é cinema americano do pior tipo, reacionário, profundamente ideológico e ultra-mercantilista.

A grande característica da narrativa clássica americana é que ela fabrica um processo que se diz transparente, mas que no fundo é um claro retrato ideológico, que vende no subconsciente o modo de vida americano. Buena Vista é exatamente isso. O aspecto de documentário de Buena Vista é mais uma prova dessa intenção de mostrar a verdade. Mas no fundo, quem assiste ao filme com olhos bem atentos, vê a fabricação ideológica.

Ao longo do filme, o espectador vê todos os aparentemente bons sentimentos americanos; é um filme sentidinho, onde todas as emoções são sentidas na hora certa, i.e quando o diretor quer que sintamos. Mas a mensagem é clara. Ry Cooder é o sensível americano que viaja para Cuba e consegue resgatar o que há de autêntico da cultura cubana. Palmas para eles. Descobertos pelos americanos, que souberam reconhecer uma expressão cultural que os próprios cubanos ignoraram, agora sim eles são verdadeiramente um grupo. E, claro, para coroar seu sucesso (novamente, depois da bestial descoberta de Cooder), os cubanos gravam um disco que poderá ser exibido na civilização, i.e. nos esteites. E o sucesso do grupo (i.e. a generosidade e a visão de Cooder) é tão grande que ele poderá realizar o "sonho dos sonhos". Tchan, tchan, tchan. Eles viajam de avião (não é de barquinho clandestino não!) para "the center of the civilization", New York. Eles vão se apresentar no teatro mais famoso do mundo. Aí sim passarão a ter valor, quando os Estados Unidos, i.e. o Ry Cooder, dão as suas bençãos ao grupo de ingênuos primitivos.

Isso mesmo, porque no fundo em BVSC não temos contato com nada de autêntico da cultura cubana, o que vemos é apenas uma visão de cima para baixo, i.e os americanos que, chegando em Cuba, encontram a sua verdade. Os artistas cubanos são vistos sim como "ingênuos primitivos", que tocam como seres instintivos, sem fazer força ou teorizar sobre o assunto, e só os americanos poderiam ter a sensibilidade para descobrir esses valores.

Isso me lembra de um trecho de O Passageiro, de Antonioni, quando Nicholson, cheio de seus preconceitos europeus, entrevista um líder africano. As perguntas eram tão imbecis, que numa hora, o líder virou a câmera para Nicholson, dizendo que suas perguntas induziam a respostas que falavam mais sobre o entrevistador do que o entrevistado. I.e o entrevistador no fundo tava cagando e andando para o drama e a realidade daqueles países africanos, ele estava interessado naquele discurso de "coitadinhos" que, no fundo, era uma necessidade de falar mais de si do que do outro. E o que pensar quando vemos um talk show do Jô Soares, é diferente?

BVSC pouco se interessa por um verdadeiro diálogo com a cultura cubana, o que ele realmente quer é falar de si. Os cubanos para fazer realmente sucesso devem vir para os esteites, conhecer a civilização e se apresentar nela, lançar um disco, conversar com Ry Cooder, só então podem ser chamados de artistas. Ora, mas o que é isso senão a visão americana de múscia, a visão americana de sucesso? Vejamos nós como os americanos ajudam os pobrezinhos dos incompreendidos cubanos... E o pior, na visita dos cubanos aos esteites, somos obrigados a ouvir o pior tipo de comentário, "isso aqui é o paraíso", "eu queria chamar minha esposa e filhos para que eles pudessem ver isso", "nossa, os prédios aqui são maiores que a estátua da liberdade", "olha os aviões pousam aqui, como são grandes", e por aí vai. Isso só confirma a tese dos "artistas ingênuos". O primitivismo é o máximo de genialidade que um latino pode ser.

Tanto que no final do filme perguntei a um amigo para citar o nome de um daqueles cubanos cantores que participou do filme. A gente não se lembrava mais! O único nome que ficou em nossa memória é o de Ry Cooder. Realmente a lavagem cerebral inconsciente funciona muito bem!

É uma pena que um cineasta do nível de um Wim Wenders aceite a se submeter a um projeto tão utilitarista e reacionário. É a prova de que o cinema de Wenders acabou, comprado pelo dinheiro do sistema. Não é de hoje que as ações da nova empresa de Wenders foram as que mais subiram no início do ano na bolsa de Frankfurt. No entanto, vez ou outra, há o toque de Wenders na estética. A inércia e um sentido de solidão que permeia os travellings pelas ruas de Cuba. A narrativa frouxa, os planos elegantes, uma certa rouquidão.

O trabalho de câmera, no entanto, me entediou pela repetição. Como a câmera optou por não ficar parada, ela simplesmente roda em torno dos personagens, quase deixando o espectador tonto. Simples maneirismo, que acrescenta cada vez menos em temos de inventividade, até se tornar um ponto negativo. Embora a câmera rode o tempo todo em 360 graus, no único momento que esse movimento seria importante para afirmar uma realidade orgânica, a câmera habilmente se abstém. É nesses momentos que se deve pensar o caráter ideológico e fabricado desse cinema. É no concerto no Carneggie Hall, onde o filme nos passa a impressão de que a casa está lotada, aplaudindo freneticamente a apresentação do grupo. Mas nesse instante, a câmera não roda, mostrando a apresentação e a reação do público. Não. Apenas nesse instante, Wenders opta pelo muito confortável recurso do campo e contracampo. Ora, isso abre a suspeita de que o contracampo dos aplausos pode ter sido fabricado. Percebemos que o enquadramento foi minuciosamente escolhido para mostrar a apresentação e apenas uma ponta da platéia, o que nos dá a impressão de um grande público, mas o que pode não ser a verdade. É como num jogo de futebol, em que uma câmera mais baixa mostra só uma parte da arquibancada onde fica concentrada a torcida local, o que passa a impressão de estádio cheio, quando o resto está vazio. É claro que não se pode afirmar isso vendo o filme, mas a descontinuidade do uso do movimento de câmera em momento tão estratégico levanta a suspeita. Devemos comparar a cena com o final de A Carta, de Oliveira, onde a reação do cantor Abrunhosa com a platéia ocorre num único plano, e Oliveira aos poucos nos surpreende (no começo, a platéia é uma massa negra, aos poucos, percebemos que são muitos...).

Como o público alternativo do Estação poderia não gostar do filme? Fala sobre Cuba, último reduto das esquerdas, é feito por um cineasta autoral, tem uma música alternativa, cultura alternativa... Caso perfeito de identificação. O que eles não percebem é que o filme possui uma ideologia altamente reacionária. Quem ganhou com tudo isso? Os cubanos? Certamente que não. Quem ganhou foi o Ry Cooder. Ele produziu o seu filme, que vendeu ingressos e ingressos em todo o mundo, e além disso, vendeu milhares e milhares de CDs. Nada mais conveniente, e os Estados Unidos ainda fazem pose de bonzinhos com os cubanos. È isso. Daqui a um ano, quando o dinheiro acabar, a gente passa na Jamaica e descobre mais um cara alternativo... that´s all, folks!

Marcelo Ikeda.

(em 16/07/2000)

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