2000: um belo ano do cinema brasileiro - um breve panorama


 

O ano de 2000 foi um ano marcante para o cinema brasileiro. De fato, ap�s a dita "retomada" e a repercuss�o de Carlota Joaquina, foi em 1999 e em 2000 os anos em que a filmografia brasileira lan�ou seus melhores e mais significativos filmes. Dessa vez, n�o houve um �nico filme como um ponto de referencial isolado, como um Central do Brasil. J� em 1999 tivemos filmes do porte de um Copo de C�lera, Dois C�rregos, Outras Hist�rias, O Primeiro Dia, Santo Forte, S�o Jer�nimo e O Viajante. Em 2000, o saldo tamb�m n�o deixa tanto a desejar. Verificando o n�mero de filmes lan�ados, em primeiro lugar, surpreende a diversidade est�tica desses filmes. Desde o lixo comercial ao filme quase experimental, passando pelos curtas e v�deos, o cinema brasileiro respira com f�lego �s incont�veis dificuldades de sempre que lhe cruzam o caminho.

Aqui, neste espa�o, reservo um r�pido panorama do mais significativo da produ��o de longa-metragem em 2000, com cinco grandes destaques, j� receando alguma lacuna ou esquecimento.

 

1) Cronicamente Invi�vel

O novo filme de Sergio Bianchi foi o lan�amento mais importante do ano, por v�rios motivos. O principal deles � que o filme resgata uma proposta de cinema disposta a (re)pensar o Brasil. Mas para Bianchi, isso n�o significa um discurso pol�tico no sentido estrito do termo, como nos filmes de Ken Loach, ou at� mesmo no recente A Terceira Morte de Joaquim Bol�var. Quase beirando o niilismo, o filme questiona a possibilidade da exist�ncia de possibilidades. Embora na est�tica o filme n�o seja t�o inovador quanto seu document�rio anterior Mato eles?, Bianchi comprova a for�a de seu cinema e sua indigna��o com a passividade e a incredulidade de todos n�s. Em meio � sua "metralhadora girat�ria", como muitos rotularam o filme, o politicamente incorreto, o deboche e a s�tira s�o os pontos fortes do filme. Apesar de algumas irregularidades, � um filme obrigat�rio n�o s� para quem se interessa em cinema mas para todos que de alguma forma querem repensar o Brasil.

 

2) Eu, Tu, Eles

Eu, Tu, Eles � o filme que comprova o amadurecimento da equipe da Conspira��o. Ap�s os fracos Trai��o e G�meas, � um filme que em hip�tese alguma pode ser rotulado como tendo uma est�tica de videoclipe ou de televis�o. Apesar de recorrer ao ultra-desgastado tema do sert�o, consegue admiravelmente uma perspectiva nova, especialmente pelo sens�vel humanismo que permeia o filme. O trunfo de Andrucha � que ele n�o procura fazer um retrato documental daquela realidade, mas sim transfigur�-la atrav�s de uma ternura que envolve seus personagens (e que nos leva a associ�-lo mesmo que brevemente com Outras Hist�rias). O filme ainda resolve um aparente paradoxo, unindo um tratamento neo-realista (especialmente pelo trabalho com o tempo, seja atrav�s de planos-sequ�ncia como de elipses temporais) com um sofisticado modo de produ��o (cinemascope, bel�ssima fotografia, atores profissionais).

 

3) Estorvo

O injusti�ado filme de Ruy Guerra, embora tenha sido bastante mal recebido em Cannes, � um trabalho t�pico do cinema de autor, beirando o experimental, quando trabalha com coragem e vitalidade novos rumos para a narrativa e especialmente em termos do tratamento do ponto de vista no cinema. Consegue, assim, um filme essencialemente psicol�gico, com um inovador trabalho de c�mera que insere o espectador num perturbador mundo claustrof�bico, cuja hipnose/transe s� poder� desfeita ap�s os cr�ditos finais.

 

4) Am�lia

Ap�s tantos anos de aus�ncia, Ana Carolina volta aos cinema com o t�pico humor que caracteriza sua filmografia. Como sempre, o deboche, a cr�tica � futilidade dos padr�es da sociedade, a quest�o feminina e a alegoria surgem no estilo claramente pessoal da diretora. Resolve sutilmente um conflito entre cultura culta e cultura de massa, ridicularizando a tend�ncia do brasileiro em exaltar o que vem de fora, mas sem deixar de incorporar uma vis�o cr�tica quanto � vit�ria destes.

 

5) O Rap do Pequeno Pr�ncipe

Comprovando a inventividade do document�rio brasileiro e a tend�ncia de dispers�o geogr�fica, o filme de Caldas e Luna � um marcante retrato das desigualdades em um morro no Nordeste. Nunca optando por um discurso moralista ou ing�nuo, os diretores confrontam a vis�o apocal�ptica de um jovem justiceiro com as de um conjunto de rap. Na est�tica, procura um tratamento ousado mesmo nas entrevistas, com �ngulos de c�mera inusitados, uma montagem sempre marcante e investindo na n�o-linearidade como forma de evitar um tom did�tico.

 

* * *

P�blico - no ano de 2000, surgiram alguns filmes que tiveram uma positiva repercuss�o com o p�blico, apesar de serem produtos mais question�veis. Dentre eles, o melhor � indiscutivelmente Eu, Tu, Eles.

O maior sucesso, at� certo ponto inesperado, foi o de O Auto da Compadecida. Ancorado pela repercuss�o da miniss�rie da televis�o, o lan�amento do filme nos cinemas acabou conquistando o p�blico. Apesar de defeitos t�cnicos vis�veis, tanto na fotografia, no som, na montagem e especialmente nos efeitos visuais, o humor f�cil do filme e a convincente performance dos atores principais, al�m da in�meras situa��es c�micas criadas pelo roteiro sustentam o interesse do espectador at� o final. Com isso, passou a ser importante refer�ncia para se pensar as rela��es entre cinema e televis�o no Brasil.

Bossa Nova � uma com�dia rom�ntica despretensiosa, feito basicamente nos moldes de um filme americano. Trata o Rio como um cart�o postal, ing�nuo, fantasioso, e sem maior criatividade.

O grupo da Casa de Cinema, com os cultuados ga�chos Carlos Gerbage, Jorge Furtado e Giba Assis Brasil, entre outros, lan�aram no final o ano o thriller Toler�ncia. Este pouco ou quase nada tem na estrutura de um filme brasileiro. Acaba esbarrando em uma s�rie de clich�s, culminando com um final na verdade mal resolvido, que ainda por cima resgata a m�xima de que "todo filme brasileiro tem que ter um pouco de sacanegem". Infelizmente, a espectativa mais frustrada do ano.

Filmes infantis - entre a mesmice dos sempre presente filmes da Xuxa e dos Trapalh�es, dois filmes infantis merecem destaque. O primeiro � Castelo R�-Tim-Bum. Embora o tom quase barroco do filme seja um claro exagero e uma excentricidade �s vezes pouco justificada, e do roteiro que precisaria ainda de alguns tratamentos, � uma divers�o bem acima da m�dia, com algumas solu��es inesperadas (como o sofisticado trabalho de c�mera).

Mas ainda melhor � o pouco comentado Os Tr�s Zuretas (A Reuni�o dos Dem�nios), lan�ado ap�s mais de dois anos de sua conclus�o. Retrato amb�guo, sarc�stico e muitas vezes pessimista da inf�ncia, � uma vis�o que recusa todos os estere�tipos do dito cinema infantil, composto com um amadurecimento que recusa a piada inconsequente da linha de O Menino Maluquinho.

Outros - Atrav�s da Janela, da paulista Tata Amaral, � outro filme que deve ser real�ado por sua proposta radical e sem concess�es a um cinema que seja "agrad�vel". Questionando as conven��es da narrativa cl�ssica, do ponto de vista restrito ao tratamento da causalidade, Tata faz um filme importante e vigoroso, dentro de sua proposta de cinema, ainda que ponderando acertos e desacertos.

Al�m desses, outros filmes devem ser citados e que n�o envergonham nenhuma filmografia. Embora Cruz e Souza nada acrescente � imagem que j� temos do poeta, � um filme sens�vel nos seus melhores momentos de poesia. Outros filmes, como Villa Lobos, Quase Nada, O Dia da Ca�a e Hans Staden merecem ser citados, mesmo que de passagem.

Embora o ano de 2000 tenha sido um ano com um saldo extremamente positivo, infelizmente o ano de 2001 n�o parece promissor, se analisarmos os filmes a estrear. As grandes expectativas s�o os pr�ximos filmes de Bressane e Sganzerla. Na fic��o, Buffo&Spalanzani e Bicho de sete cabe�as s�o desapontadores...

Que o pr�ximo mil�nio reserve um melhor destino ao sofrido cinema brasileiro... !!!

Marcelo Ikeda.

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