A BRUXA DE BLAIR

 

O maior fen�meno de bilheteria dos Estados Unidos, com um retorno extraordin�rio (custou US$30 mil e arrecadou at� o momento cerca de US$150 milh�es) deve ser observado com bastante cautela. Em primeiro lugar, deve-se ter claro o objetivo da hist�ria. O filme � uma mistura de um document�rio com um making of do pr�prio document�rio sobre a lenda da bruxa de Blair. Supostamente, no in�cio do s�culo, a bruxa atacou crian�as e se refugia numa floresta. Uma equipe de tr�s estudantes colegiais resolve visitar a cidade em que a lenda se passa – Maryland – e entra na floresta para tentar colher mais alguma informa��o, especialmente sobre um suposto cemit�rio. O grupo se perde na floresta, e a bruxa passa a assombr�-los � noite, quando armam sua barraca. Um dos garotos, Josh, � pego, e logo depois, os outros dois membros da equipe s�o mortos dentro de uma casa.

A estrat�gia do filme, portanto, n�o � fazer um filme de terror, mas inserir elementos entre o document�rio e a fic��o, e o filme de fato combina diversas formas de narrativa. O filme tem decepcionado as plat�ias do Brasil em primeiro lugar porque a expectativa do filme se tornou muito grande, mas especialmente porque as pessoas n�o compreendem como o filme se tornou uma febre ao ponto de levar as pessoas a acreditarem que realmente os garotos foram assassinados misteriosamente. De fato, o filme � claramente uma fic��o, e muito foi especulado sobre o que realmente teria ocorrido fora do universo do filme em si (na diegese), mas no processo de filmagens. A discuss�o, portanto, se afasta do filme em si para como o filme foi efetivamente filmado. E isso � um dado curioso. A fus�o entre document�rio e fic��o pr�pria do filme faz com que as pessoas especulem sobre em que condi��es o filme foi filmado como circunst�ncia fundamental, ou at� mais importante do que a hist�ria em si. As hip�teses s�o essencialmente tr�s: 1) todos s�o grandes picaretas que enganam o p�blico propositadamente para ganhar dinheiro, o que comprova a import�ncia da m�dia e a debilidade americana; 2) o filme � real, e os garotos realmente se perderam e foram mortos pela bruxa; e 3) os produtores enganaram os tr�s garotos e armaram todas as pe�as na floresta, de modo que os garotos realmente acreditaram que a bruxa existia, mas de fato, ela foi produzida pelos produtores.

Na verdade, as tr�s hip�teses mostram que o filme � 1) uma fic��o (ilus�o); 2) um document�rio (real); 3) ou uma mistura dos dois (real para os garotos, ilus�o para os produtores). A principal estrat�gia de marketing do filme tem sido evitar a aceita��o da hip�tese 1), n�o importando o que o espectador julgue no lugar. Mas mesmo quem julgue que o filme � uma fic��o completa deve admitir que o impacto que o filme causou na juventude americana se justifica porque eles de alguma forma acreditaram que as cenas foram reais.

A confus�o entre o real e o imagin�rio intensifica o processo de identifica��o do espectador com os personagens. Isso se torna ainda mais fundamental num filme de terror. Quando ficamos em d�vida se o filme realmente aconteceu, e ainda, que ele est� acontecendo e se formando naquele momento (o que � diferente de um filme artificialmente produzido que apresenta no final "baseado em fatos reais"), imaginamos mais intensamente que o filme poderia estar acontecendo conosco, e nossa percep��o sobre o filme � diferente. O estilo de apresenta��o do filme contribui para isso: uma forma amadoresca, com c�meras port�teis e baratas, discuss�es comuns, brincadeiras, piadas e registro do cotidiano. Outro truque foi o tempo todo, quando os garotos perceberam que estavam perdidos, discutirem se deveriam prosseguir as filmagens ou n�o. As filmagens foram t�o simples, quase r�sticas, que pensamos que qualquer um de n�s poder�amos estar com a c�mera na m�o, como se estiv�ssemos filmando o churrasco do vizinho. A falta de acabamento do filme, portanto, refor�a o processo de identifica��o.

Por outro lado, o filme tem alguns furos de roteiro que s�o impens�veis se tratarmos o caso como real. O principal deles � que, embora o trio tenha um alto contato com tecnologia (como o uso das c�meras digitais), ningu�m leva para a floresta um telefone celular. O descaso do grupo com o mapa e o isolamento do grupo na floresta s�o pouco plaus�veis. A insist�ncia em prosseguir as filmagens � tamb�m exagerada.

No geral, o mais interessante em A Bruxa de Blair � como o filme mexe na percep��o do espectador, dadas as especula��es sobre o processo de filmagens. Se as discuss�es sobre o filme se limitassem ao que � visto na tela, admitir-se-ia provavelmente que o filme � fic��o pura, e seu efeito desapareceria. O fen�meno Blair � portanto externo ao universo do filme na diegese, mas pr�pria do universo f�lmico, j� que necessariamente, admitindo a conflu�ncia entre o real e a fic��o, o processo de filmagens ganha import�ncia fundamental para se compreender o filme. Toda essa discuss�o contribui para um aumento do processo de identifica��o do espectador, refor�ado pela pr�pria forma amadora com que o filme � feito. Por outro lado, A Bruxa de Blair � um sinal claro do mainstream querendo se flexibilizar, afastando-se de uma narrativa cl�ssica para dialogar mais diretamente com o espectador, reduzindo a neutralidade cl�ssica.

Blair � um filme trash, e deve ser analisado sobre essa perspectiva. Os furos do roteiro e a precariedade do filme s�o uma conseq��ncia natural de um projeto que v� o cinema inocentemente como o prazer de filmar. Mas no fundo sabemos que o projeto n�o � t�o inocente assim, incorporando v�rias m�dias diferentes para tornar o filme uma m�quina de dinheiro. E a f�rmula funciona � perfei��o.

Uma outra quest�o a ser levantada, mais ampla e que vou tocar aqui muito rapidamente � a mesma do filme 20 encontros. O que preocupa � o fato de A Bruxa de Blair ter sido lan�ado como cult no Festival de Sundance. Isso s� comprova a fal�ncia do cinema independente norte-americano, que se fundiu ao mainstream. No fundo, Blair � um filme de esp�rito mainstream, que supostamente assumiria alguns elementos independentes. Mas no fundo, Blair e Guerra nas Estrelas s�o o mesmo filme. Eles apenas usam meios diferentes para atingir o mesmo objetivo. O p�blico atento tem que ter essa id�ia claramente, para n�o ser enganado pela apar�ncia relaxada dos "pseudo-independentes". Blair � o futuro (para n�o dizer o presente) do cinema hollywoodiano mainstream.

Marcelo Ikeda.

NOTA: 5

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