"BELEZA AMERICANA" VERSUS "FELICIDADE": IDENTIFICA��O E RECONCILIA��O VERSUS INVEJA E PIRRA�A


 

� imposs�vel n�o comparar Beleza Americana (American Beauty, dir.Sam Mendes) com Felicidade (Happiness, dir. Todd Solondz). Ambos mostram um grupo de pessoas que n�o se encaixa no American way of life, descrevendo um mundo hip�crita de apar�ncias e mentiras. Por tr�s da superf�cie de aparente equil�brio do American way of life, existe um mundo s�rdido e desiludido. Mas enquanto Happiness opta pelo tom c�ustico e destrutivo, Beleza Americana prefere uma constru��o, um sentido. Essa escolha tem pontos a favor e contra.

As semelhan�as j� come�am pelo t�tulo. No ir�nico t�tulo de Solondz, Felicidade hipocritamente se refere ao equil�brio da superf�cie, um terr�vel contraste ao esp�rito solit�rio de seus personagens. Beleza Americana, de certa forma, pode ser encarado como uma ironia, porque, para muitos, a beleza s� se encontra na superf�cie. Carolyn, (Annete Bening) faz um coment�rio de que � muito feliz sim, quando quase � seduzida pelo marido no sof� da sala. Mas sabemos exatamente que sua felicidade consiste em preservar as apar�ncias de seu mundo perfeito. Quando ela se encontra com seu �dolo, o cara que vende o maior n�mero de im�veis no pa�s, vemos como ele faz quest�o de esconder suas desilus�es pessoais, para ter uma "imagem de sucesso". Bening nunca chora, ele tenta sempre esconder suas l�grimas, para que seu rosto sempre mostre um sorriso, uma express�o de felicidade. No mundo capitalista, voc� vale o quanto se ganha, e o sucesso no meio profissional se torna fundamental. A frustra��o de Bening, sua ambi��o, est� diretamente ligada ao fato de ela querer ter poder. Ela se casou com um marido in�til, um derrotado, exatamente para ter o controle da situa��o, para que sua superioridade afirme sua cobi�a pelo poder. Ela queria, no fundo, ser como o corretor de im�veis, da� sua paix�o. Mas ela, como todos os outros personagens, � uma fracassada. Ela nem consegue vender uma casa no mesmo dia. A �nica forma de ela ter poder foi escolher um marido t�o rid�culo que n�o pudesse lhe controlar. A quest�o do poder � usada em sua rela��o com as armas. Bening, assim como seu �dolo, atira para relaxar, como forma de exercitar sua dita superioridade. Claro, pois todo poder � uma forma de viol�ncia, e o uso da viol�ncia � uma tentativa de imposi��o de um poder.

Angela, a amiga de Jane, a filha do casal, sofre do mesmo mal. Ela � bonita, atraente, e quer o sucesso a qualquer pre�o. Ela n�o tem o menor constrangimento em dizer que dormiu com um fot�grafo, porque "s�o assim que as coisas funcionam". Ela � uma c�pia adolescente de Carolyn. Ela tem a necessidade de dizer que dorme com todos os homens que ela quer, descrevendo detalhadamente suas transas para a amiga, s� por uma rela��o de poder. Ao escolher a t�mida e mais feia Jane, ela no fundo quer us�-la para se sentir bem, como seu namorado afirma explicitamente mais tarde no filme. A amizade � no fundo uma rela��o de poder. Angela escolhe Jane, apenas para reafirmar sua superioridade. Angela tem medo de ser uma pessoa comum, porque pela imposi��es do sistema, ela deve ser uma pessoa especial, e s� assim alcan�ar� o sucesso. Angela, de fato, � o mesmo personagem da irm� escritora que mascara seu sucesso em Felicidade, mas com seus conflitos mais bem trabalhados por Mendes.

Outra semelhan�a com o tom de Felicidade e Beleza Americana � a op��o pela com�dia. Embora n�o seja uma com�dia escrachada que quer ridicularizar seus personagens como uma caricatura, como em Felicidade, Beleza Americana tamb�m opta pela com�dia, e n�o pelo drama intimista que revele a desagrega��o do American way of life (como em Gente como a Gente, por exemplo). De fato, Beleza Americana � menos psicol�gico e angustiante quanto o filme de Redford, e muito disso est� na sua inten��o claramente reconciliadora, sobre a qual falaremos mais adiante.

Beleza Americana tamb�m lembra Felicidade porque mostra um cara que tem seu trabalho aparentemente bom num escrit�rio, mas se masturba nas horas vagas. A masturba��o � a �nica forma de prazer encontrada por Lester, mas no fundo o pr�prio ato se tornou tedioso, porque repetitivo e solit�rio. Mas a masturba��o n�o � uma pervers�o, como no caso do gordo asqueroso de Felicidade.

Enquanto Felicidade � um filme-painel, que mostra um conjunto de personagens doentios como uma representa��o ampla de toda a sociedade, Beleza Americana se torna um filme bem mais f�cil, porque torna seu roteiro mais coeso ao se concentrar nos dilemas de uma fam�lia espec�fica. As rela��es entre os personagens de Beleza Americana se tornam mais pr�ximas e vis�veis que a dispers�o an�rquica de Felicidade.

Isso j� aponta para uma diferen�a fundamental entre os dois filmes: o processo de identifica��o. Solondz mostra todo o seu desprezo pela sociedade americana e sua fragmenta��o espiritual. Isso fica evidente quando ele compara a fr�gil americana com o vigoroso russo. Solondz � o nerd que ficou de fora, e por isso fala mal. � como o cara que joga muito mal, e por isso ficou fora do time de futebol. Mas seu grande sonho � no fundo fazer parte do time. A abordagem sarc�stica, corrosiva de Solondz s� mostra que no fundo o diretor tem uma grande admira��o pelo sistema. Por isso, Solondz olha todo o problema de fora, sem se envolver com os personagens. Ele est� acima do bem e do mal: nem � integrado ao sistema, nem mostra simpatia pelos seus exclu�dos. Solondz n�o quer se envolver, porque tem dificuldade em tratar os seus limites. Seu filme � pretensioso, porque ele tem a postura da verdade, e apresenta o problema com uma tratamento ass�ptico. Ficando de fora do time, Solondz faz beicinho e fica de mal com a turma. A pirra�a de Solondz � quase sin�nimo de inveja.

J� Beleza Americana apresenta essa dissolu��o querendo uma reconcilia��o, ou uma constru��o. Nesse sentido, ele � menos hip�crita para com o espectador, porque diz claramente que o sonho de todos n�s � fazer parte do sistema. Mendes mostra uma s�rie de personagens t�o desajustados, hip�critas e desiludidos quanto os de Felicidade, mas a diferen�a est� na postura ou no ponto de vista do diretor. Mendes afirma que mesmo nesse cen�rio de fragmenta��o ainda � poss�vel construir. Beleza Americana n�o est� interessado numa "an�lise em painel da desconstru��o da sociedade americana", mas sim nos conflitos de seus personagens. Enquanto Solondz "usa" (no sentido depreciativo) seus personagens para comprovar uma id�ia sua sobre a sociedade americana, Mendes tenta dialogar com seus personagens, mostrando suas diferen�as, suas semelhan�as, seus conflitos, desejos, como eles lutam para ser uma pessoa que no fundo n�o s�o. E nisso entra a quest�o da identifica��o. Enquanto Solondz olha para aquele mundo repulsivo de fora para dentro, Mendes quer que nos identifiquemos com aqueles personagens, e sentimos claramente que o diretor n�o tem receio de apresentar um painel sincero sobre pessoas que t�m dificuldades.

A vis�o de Mendes � no fundo uma vis�o otimista. Seu objetivo � de uma reconstru��o, ou de uma reconcilia��o com o sistema. Mesmo nessa situa��o de fragmenta��o, ainda � poss�vel se construir um significado verdadeiro, n�o se deixar influenciar e ser si mesmo, agindo com mais liberdade. O exemplo m�ximo disso � Lester, que se rebela contra os seus limites e contra as conven��es restritivas do seu mundo e busca sua liberdade individual. A cena que melhor mostra isso � na mesa de jantar. O orgulho de Lester em sair do emprego � duramente criticado por sua esposa, ambos em mundos diferentes. Quando a esposa come�a a afirmar sua vis�o, Lester se levanta e atira o prato de aspargos na parede da sala. O aparente equil�brio da uni�o da fam�lia na mesa de jantar � rompido com uma abrupta descontinuidade. Naquele momento, Lester mostra que est� falando s�rio. A farsa acabou.

No momento seguinte, Mendes critica a vis�o de "rebeldes sem causa", t�pica da adolesc�ncia pequeno-burguesa. Carolyn sobe ao quarto da filha, que n�o quer receb�-la. A m�e tenta dizer a filha que "ela n�o deve confiar em ningu�m, a n�o ser ela mesma", mas a filha diz algo como quem n�o quer receber outra li��o de moral. Carolyn d� um violento tapa na cara da filha. Vemos pela primeira vez um movimento aut�ntico de Carolyn, outra abrupta descontinuidade contra o jogo e a farsa da superf�cie.

O ponto-chave para a tentativa de reconstru��o/reconcilia��o de Mendes � o menino vizinho. Considerado "doente", com interna��es num hospital psiqui�trico, apanhando do pai, vendedor de drogas, ele seria quase o oposto do estere�tipo de um her�i americano. � a partir de seu surgimento no filme que Mendes come�a a construir seu discurso. Nisso, � fundamental o contato de Lester com o garoto. Ambos fogem das conven��es est�pidas da sociedade e se refugiam. Lester recusa a festa est�pida onde ele tem que acompanhar sua esposa. O vizinho recusa o papel de gar�om que seu pai quer que ele sustente. Eles saem pela porta dos fundos, e se isolam do lado de fora daquele mundo de hipocrisias. Curiosamente, o ponto de contato entre os dois � as drogas. A partir desse contato, h� uma irradia��o de fluidos positivos. Primeiro, Lester e sua filha. Depois, a pr�pria Angela.

Uma sutil metalinguagem est� inserida quando Mendes associa o vizinho e as grava��es em sua c�mera. As grava��es de vizinho retratam sempre o que est� sob o v�u, abaixo da superf�cie de equil�brio. Mostram o desejo de Lester de ser forte, os seios feiosos de Jane, a surra que levou do pai, e especialmente a invis�vel beleza desse mundo transfigurado. A c�mera, ou em �ltima inst�ncia o cinema, foi o meio capaz de registrar esse sentimento de mundo, seja ele bom ou ruim, porque � esse sentimento que nos mant�m vivos.

O filme de Mendes � portanto uma tentativa de revelar a beleza da vida que se esconde por tr�s de acontecimentos tristes, de renascer um sentido da fragmenta��o e da desilus�o do mundo americano. Ap�s a crise do American way of life em meados dos anos 70, � imposs�vel manter a atmosfera plenamente otimista e ing�nua dos filmes de Capra e dos musicais. Os americanos se olharam no espelho e n�o gostaram nada do que viram. Mas abaixada a poeira, anos depois, � necess�ria uma reconstru��o. Por isso, no fundo, o filme de Mendes � conservador. Ele quer um outro American way of life, mostrando que, mesmo com todas as dificuldades, ainda � poss�vel chegar a um equil�brio, descobrir a beleza do mundo, e que devemos lutar por nossas liberdades, porque o sonho ainda � poss�vel. Por isso, a identifica��o assume um papel fundamental. Mendes nos aproxima dos personagens, quer que nos identifiquemos com eles, mostra sua compaix�o para com a vida e o modo de vida americano.

Se Beleza Americana � conciliador e tem cenas bem americanas (como o suspense de quem poderia ter matado Lester, que se estabelece desde o come�o - sua filha, sua esposa, ou o militar), devemos observar que, ainda assim, o filme tra�a um panorama at�pico das limita��es e dos conflitos do mundo americano. Al�m disso, o final n�o pode ser esquecido. Lester, quando conseguiu afinal ver a beleza do mundo, � morto. A sociedade se mobiliza para eliminar ou afastar aqueles que t�m uma vis�o diferente do sistema. Mas sua filha e o vizinho fogem, para longe daquele mundo opressor. Eles s�o a esperan�a de independ�ncia. Mas a esperan�a s� pode ser encontrada em definitivo na pr�xima gera��o. Por isso, o filme de Mendes aponta essencialmente para o futuro, com uma po�tica (e prof�tica) esperan�a...

Marcelo Ikeda.

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