BABILÔNIA 2000 |
| Babilônia
2000 e Santo Forte são dois filmes que devem ser vistos como parte de uma mesma visão do
documentário. Neles, Eduardo Coutinho comprova que é o grande documentarista em
atividade no Brasil. E mais: seus filmes são feitos para serem lançados no cinema, e
não na televisão. A maturidade do cineasta e sua experiência ficam evidentes na
elegância de seu estilo ainda que despojado, no contato íntimo com os entrevistados e no
ritmo sem sensacionalismos desnecessários com que guia seus filmes. Avesso às grandes
propostas de repensar o Brasil como um todo globalizante, Coutinho indiretamente o faz
pelo seu oposto: conquista o coração e o ideário do espectador porque aparentemente
parece um filme descuidado e menor. Mas isso é só aparência. Através de um grande
bate-papo, Coutinho explora a força de um povo brasileiro que não tem medo de olhar de
frente para as suas limitações. Mesmo com a vida de dificuldades - e com a consciência
dela -, os entrevistados de Coutinho revelam sua dignidade, sem medo de abrir as portas de
seus casebres e sua visão de mundo para o diretor. Por sua vez, Coutinho nunca trata o
entrevistado como um ser exótico, ou espetacularizando suas diferenças. Seu estilo é
sóbrio, em tons menores, e apenas nas entrelinhas, nos detalhes curiosos e nos momentos
certos, é que os tons graves aparecem mesmo que de soslaio.
Deve-se ainda lembrar que apesar do longo tempo de estrada atuando com o documentário, Santo Forte é um filme fundamental nos anos 90 para o cinema brasileiro porque apresenta um projeto moderno para o documentário. Na estética, é um filme imponente, já que em várias oportunidades o realizador mostra ao espectador o documentário como um projeto fabricado. Torna-se quase um making of de seu próprio filme. No entanto, o objetivo de Coutinho é sempre, sempre o entrevistado, e nunca um mero exercício de estilo. A honestidade, a sinceridade com que Coutinho trata seu ponto de partida, através da incrível intimidade com os entrevistados, é a mesma com que trata o espectador. Santo Forte é um metadocumentário porque faz questão de mostrar ao espectador que o processo de criação de um documentário é quase tão importante quanto o próprio filme em si. Nesse sentido, em Babilônia 2000, vemos o habitual cinema de Coutinho. O olhar para os menos favorecidos com uma dignidade impressionante, sem nunca tratar aquele ambiente como um meio exótico, sem nunca subestimar os entrevistados. O estilo de metadocumentário está presente em várias partes. O rapaz se recusa a dizer quais as dificuldades que ele teve anteriormente na vida, e pede para que a conversa acabe porque ele está com muita fome. A idosa pergunta a Coutinho se ela está falando muito alto. Et cetera. Se em Santo Forte a chegada do Papa é utilizada como pretexto para falar sobre a religião, em Babilônia 2000, a chegada do próximo milênio (sic) também é o começo de uma discussão sobre as expectativas e os anseios dos moradores do Morro da Babilônia e do Chapéu Mangueira. Da mesma forma que Santo Forte, Babilônia 2000 não pretende obter respostas conclusivas e significados totalizantes, mas coerentemente no máximo uma impressão geral. Da mesma forma, é um filme honesto, sincero e em vezes comove o espectador com um retrato do Brasil sem as demagogias de sempre. No entanto, a grande diferença entre Santo Forte e Babilônia 2000 é que Santo Forte veio antes. A partir de todas as discussões e todos os elogios recebidos pelo filme, seria de se esperar de Coutinho um filme que ainda mais avançasse na questão de se propor uma estética do documentário mais marcante. Pois esse era o ponto forte de Santo Forte. A consciência do uso da linguagem aliada à intimidade de Coutinho nas entevistas eram as grandes chaves do filme. Agora, parece-nos que Babilônia 2000 simplesmente repete a estrutura básica de Santo Forte sem ir além do que foi apresentado nesse filme. E mais: em alguns pontos, pode-se notar um certo retrocesso. A didática "voz de Deus" no começo do filme situando ao máximo o espectador, o covarde zoom in quando uma das entrevistadas chora ao falar do irmão que morrera são alguns deles. A divisão das equipes de filmagem, a meu ver, enfraquece o filme, já que tornam a relação do entrevistador com o entrevistado muito heterogênea. O melhor claramente é o próprio Coutinho. Outros já soam artificiais demais, com uma aproximação para o entrevistado mais com jeito de estudo do que de conversa. Muitas vezes tive a impressão de que na verdade são os mais extrovertidos os que ganham mais destaque no filme de Coutinho. Achei bastante afetada a entrevista de uma mulher (que mostra sua filha que passa o dia todo na praia). Até que ponto, portanto, Babilônia 2000 é um retrato representativo daquelas comunidades? Por outro lado, há uma excelente entrevista com uma idosa que mostra um retrato seu quando era mais nova, quando adorava dançar. Ela diz que só espera a hora da morte chegar. A verdade é que é uma certa trapaça entrevistar quinhentas pessoas com trezentas equipes de filmagem, totalizando milhares de horas de vídeo gravadas e depois, na edição, selecionar as entrevistas que mais convêm. O único tipo de documentário possível, nesse formato, é num plano-sequência. Marcelo Ikeda. (12/01/2001) |