A TV E O CINEMA EM O AUTO DA COMPADECIDA |
O cinema brasileiro no ano 2000 exibiu dois filmes bastante curiosos, revisitando o conhecido tema do Nordeste sob uma nova perspectiva, dialogando menos com uma an�lise social do que um contato com o p�blico. S�o Eu, Tu, Eles e O Auto da Compadecida. Embora muito pr�ximos, s�o na verdade bastante diferentes. Se o primeiro foi acusado de uma certa influ�ncia publicit�ria, origem do diretor, o segundo � originalmente um produto da televis�o. Vista a miniss�rie, um primeiro ponto deve ser analisado. At� que ponto os recursos t�cnicos do cinema s�o convincentes quando exibidos no cinema? Em primeiro lugar, a montagem. A dura��o total da miniss�rie excede em muito o tempo do filme exibido nos cinemas. Da� a fundamental participa��o da montagem para tornar o filme coeso e sem muitos buracos. Em geral, a montagem se mostrou satisfat�ria, embora falha em alguns pontos. Alguns recursos de montagem alternada se viram prejudicados na montagem. Por exemplo, o cangaceiro aprisiona o padre e o bispo na igreja. Depois, sai para buscar o padeiro e a esposa. Corte. Os quatro est�o no interior da Igreja. Como o padre e o bispo n�o fugiram? Claramente, percebe-se a exist�ncia dos ganchos, que possu�am enorme efeito na TV, mas que se viram reduzidos no cinema. O principal deles � a morte de Jo�o Grilo. Em rela��o ao roteiro, o in�cio do filme foi bastante prejudicado. N�o houve uma apresenta��o adequada dos personagens nem da regi�o. A a��o � imediata, acompanhando a contrata��o de Jo�o e Chic� na padaria e o epis�dio da morte da cachorra. Daqui decorre um dos grandes problemas do filme. A compara��o da miniss�rie com o filme nos faz ver claramente as diferen�as entre a linguagem da televis�o e do cinema. O que na televis�o � extraordin�rio, em alguns casos pode n�o funcionar no cinema. Isto porque o cinema tem uma linguagem diferente da televis�o. Por mais que o filme se esforce, muitas vezes ele possui uma linguagem televisiva, o que o enfraquece no cinema. Isso se faz sentir especialmente no ritmo. A primeira metade do filme possui um ritmo avassalador, bastante verborr�gico, utilizando pouco os recursos de linguagem do cinema. O humor do filme se faz presente essencialmente com os di�logos e com o trabalho de representa��o dos atores, utilizando bastante o primeiro plano e os closes. O ritmo acelerado � uma influ�ncia clara de uma linguagem de televis�o, que no cinema perde a sua for�a. O som e a fotografia s�o dois recursos que perdem muito no cinema em rela��o a televis�o. O som do filme n�o � �timo, e por isso, o espectador na primeira metade, mais veborr�gica, se esfor�a muito para entender os di�logos, e acaba se envolvendo menos no filme. A fotografia claramente sofre uma grande diferen�a. Vemos que a produ��o do filme � caprichada, mas a qualidade fotogr�fica n�o convence inteiramente. A grada��o dos tons de cinza, especialmente nos interiores, deixa muito a desejar. Isso � facilmente sentido, porque dada a grande variedade de cen�rios, loca��es e figurinos do filme, � necess�ria uma fotografia de qualidade para destacar a import�ncia desses elementos. Outro ponto s�o os recursos digitais. Na televis�o, efeitos como a apari��o de Nossa Senhora e as cenas passadas no c�u e as portas do inferno ganhavam grande destaque, pela luminosidade e coer�ncia. Na tela grande, algumas vezes parecem uma caricatura, perdendo muito sua for�a. S�o esses aspectos que de forma geral nos remetem � diferen�a estabelecida no in�cio desse texto. Eu, Tu, Eles se afasta de O Auto da Compadecida exatamente por ter um projeto essencialmente cinematogr�fico. A maturidade de Andrucha se revela no ritmo. O ritmo particular da regi�o, com a bela utiliza��o da expressividade da fotografia, � acentuado em Eu, Tu, Eles, enquanto uma turbilh�o de acontecimentos nos desvia em O Auto. Se nos envolvemos mais com uma regi�o diferente da nossa naquele filme, em O Auto, o efeito � uma dispers�o. Al�m disso, em O Auto, o Nordeste � visto de forma mais caricatural, mais pr�xima a um vi�s ex�tico que no filme de Andrucha. Feitas essas considera��es, isso n�o implica que O Auto da Compadecida seja um filme ruim. Pelo contr�rio, ele utiliza seus recursos narrrativos para conquistar o espectador com sua agilidade, mesmo que no cinema o processo se dilua. Vemos de forma ing�nua e bem alegre, intencionalmente caindo na caricatura, de um amplo painel social da regi�o. Do lado da dupla Jo�o Grilo e Chic�, dois pobres mas bem diferentes - um esperto e outro ing�nuo, como toda dupla que se preze - h� o padre e o bispo, o dono da padaria e sua esposa, o cabo da pol�cia, o vagabundo metido a valent�o e conquistador, o fazendeiro, e o cangaceiro. A partir do riso ing�nuo, cada personagem representa um estrato social que de certa forma � ridicularizado. O padre e o bispo, i.e o clero, s� pensam em dinheiro, caindo no rid�culo de enterrar uma cachorra orando em latim. O dono de padaria e sua esposa s�o os pequeno-burgueses que exploram seus empregados (veja a bela cr�tica da cachorra que come melhor que a dupla de empregados...). Ele no fundo � comandado pela esposa, que o trai abertamente com v�rios homens. A pequena-burguesia � a prova do jogo de apar�ncias da sociedade. A futilidade do casal � acentuada no epis�dio do enterro da cachorra. Por outro lado, tamb�m existe a aristocracia decadente, representada pelo fazendeiro que quer casar sua filha. Seus costumes antigos, sua dificuldade em entender os novos tempos s�o refor�ados quando toda a dita fortuna guardada na porquinha na verdade s�o um monte de moedas velhas corro�das pela infla��o do per�odo. O cabo da pol�cia e o valent�o s�o no fundo dois despreparados, retratados como solit�rios, imbecis e no fundo covardes (os dois evitam se enfrentar e fogem). O encontro dos dois num duelo, que resulta na fuga, � a ant�tese do her�i dos westerns, a que o filme indiretamente se refere no epis�dio. O cangaceiro tamb�m � desmistificado em sua bravura. Primeiro, ele se disfar�a de mendigo para observar os costumes da regi�o. (Ele resolve atacar porque confessa que travestido viu que a cidade n�o tinha nenhuma pol�cia fixa). Ao cair no golpe de Jo�o Grilo, mostra sua imbecilidade: aceita levar um tiro para ver Padici�o. Esse humor rasgado que indiretamente questiona as regras dessa sociedade, tocando numa cr�tica ao materialismo, d� ao filme um certo aspecto de chanchada. O dito tom social do filme fica claro quando Nossa Senhora lembra que Jo�o Grilo � um pobre como tantos outros no Brasil, e na imagem, v�em-se fotografias em preto e branco, como num document�rio. No entanto, em algumas vezes, esse humor, ou essa cr�tica social, se torna caricato. O tribunal e os di�logos entre Deus, o Dem�nio e Nossa Senhora em v�rias vezes caem no esquematismo. O �pice disso talvez seja na absolvi��o do cangaceiro: ele v� a loucura quando seus pais s�o brutalmente massacrados quando o menino tem seis anos. Para o final, deixo no entanto a maior qualidade do filme: seu humanismo, mesmo que �s vezes ing�nuo ou rom�ntico. E isso est� centrado especialmente na figura de Jo�o Grilo. De uma certa forma, o filme faz um retrato de Grilo como um s�mbolo brasileiro: o malandro pobre e de bom cora��o que acaba sobrevivendo e que se diverte no meio do caminho, que "ri pra n�o chorar" (como se diz no final de Central do Brasil). J� vimos o discurso de Nossa Senhora. Por isso, as cenas mais comoventes envolvem o personagem. Apesar de Jo�o Grilo ser um personagem extraordin�rio, e Nachtergale ter uma atua��o fant�stica, sua morte � o grande acontecimento do filme. Uma frase boba, solta, resume o sentido da vida para esse brasileiro. Ele estava triste porque ia perder o dinheiro, ver o amigo casado, mas no fundo ele se divertiu bastante. A vida para Jo�o Grilo era quase uma brincadeira, em que pregar pe�as nos outros era a �nica forma de sobreviver. Mas numa dessas ele fracassou por um detalhe e morreu. E morrer para ele foi triste, porque ele se viu distante da alegria espont�nea de se safar das adversidades com seu famoso jeitinho brasileiro. No seu jeito espont�neo, debochado e inconsquente, Jo�o Grilo � um brasileiro que se finge de tonto para sobreviver, mas que nunca abriu m�o de sua liberdade. Nesse sentido, seu personagem � claramente chapliniano. S�mbolo do brasileiro e seu t�pico complexo de inferioridade, numa exemplo comovente de humildade, Jo�o Grilo acha que � o �nco que vai para o inferno. Pela primeira vez, ele tem a certeza que n�o vai se safar. Ele est� a caminho do inferno, parece sem esperan�as, resignado com seu destino de perdedor. Mas seu destino n�o est� ainda totalmente cumprido. Prometendo ser um exemplo, ele retorna. E � curioso que Chic� tenha feito a promessa de dar todo o dinheiro a Nossa Senhora se Chic� sobrevivesse. Isso d� a a��o um duplo sentido. Por um lado, pode ser lido como uma ironia a Igreja (j� vimos como o padre fazia tudo pelo dinheiro...). Por outro, Chic� tem que cumprir a promessa, porque sen�o sabe que da pr�xima (e definitiva) vez, ele n�o escapar� do inferno. O final, claramente chapliniano, � bonito, bonito mesmo. Os tr�s caminham pela caatinga, com Deus os observando de longe. Eles optam pela liberdade, mesmo que aparentemente desgra�ados. Mas o final � claramente otimista, por sua condi��o moral. Chic� se lamenta pela falta do dinheiro. Grilo comenta: "e ser� que n�o foi melhor assim? J� pensou se a gente fica rico e fica como o dono da padaria?" Com esse humor, o trio segue pela estrada de terra batida, bem igual e bem diferente da estrada em que seguia a fam�lia de retirantes em Vidas Secas. Esse otimismo pode at� ser chamado de alienante, mas falem o que quiser: no fundo � a for�a de uma certo olhar sobre o povo braileiro que, mesmo de forma caricatural, aparece olhando de frente para as dificuldades da vida, e sempre, � claro, com muito humor. Marcelo Ikeda. (em 17/09/2000) |