A �LTIMA NOITE

 

 

1. A primeira seq��ncia de A �ltima Noite, anterior aos cr�ditos, impressiona. Um homem socorre um cachorro, completamente ferido. O cachorro n�o aceita a prote��o; acha, instintivamente, que seu salvador tamb�m ir� feri-lo. Ataca-o no pesco�o. O campo-contracampo, inventivo, usa planos ponto-de-vista do cachorro com um expressivo contra-plong�e, valorizado pela fotografia contrastada e pelo cinemascope. Criamos v�rias expectativas: seria o filme uma esp�cie de O C�o Branco intimista, em que, quando feridos, passamos a ser t�o defensivos que recha�amos a quem nos ama?

2. Mas o filme come�a.

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3. A �ltima Noite mostra um Spike Lee cansado de si mesmo, querendo ser outro, fora dos r�tulos de cineasta moderninho, fora do gueto falido do �cinema independente�, em dire��o a uma id�ia de dramaturgia e de constru��o de personagens.

4. Tr�s amigos se despedem. No dia seguinte, um deles (Edward Norton) ir� para a pris�o. A �ltima Noite � um filme sobre a despedida.

5. Mas a quest�o � que, se o filme se esfor�a ao m�ximo para ser intenso e pessoal, se se esfor�a para mostrar que Spike Lee quer ser um outro, a quest�o � �que outro � esse?� Spike mostra mais o que n�o quer ser do que efetivamente o que agora procura ser. A �ltima Noite parece em muitas medidas um filme de estreante, na dificuldade em estabelecer seu tema, na d�vida em se ater ao que lhe serve e ao que � meramente circunstancial, em definir qual � o seu projeto de cinema. Indeciso, revela-se irregular, fascinante em alguns momentos de descoberta, desapontador por evidenciar a completa desarticula��o de seus elementos internos, especialmente quando � e nesse caso, � essencial ao filme � se faz necess�ria uma habilidade no desenvolvimento de uma dramaturgia.

6. As motiva��es dos personagens n�o tardam a se revelar desgastadas e vazias. O conflito do personagem principal quase se assume como uma mera quest�o de trai��o, ou manobra de roteiro (afinal, foi Naturelle quem o dedurou aos tiras?). O professor tarado (o �timo Philip Seymour apenas repete atua��es anteriores) e o operador da bolsa nunca convencem.

7. Quando A �ltima Noite vai usar explicitamente o policial, e pretende-se uma pequena mistura de g�neros (transita tamb�m entre o noir) passa a ser quase pat�tico. Os tiras que descobrem a droga dentro do sof�; o chef�o que chama Norton � sua sala e lhe d� li��es; tudo cheira � pior caricatura. A pen�ltima seq��ncia do filme, quando se cogita as possibilidades de fuga de Norton, � tamb�m muito mal resolvida.

8. Mas o filme possui boas li��es a respeito de narrativa e o uso dos elementos de linguagem. A fotografia, valorizada pelo cinemascope, por vezes trabalha a quest�o do gr�o, em outras, como na cena do show, trabalha com os filtros de forma inventiva. O destaque �, no entanto, a montagem, que d� ao filme uma ambig�idade temporal que seduz, evitando o flashback meramente did�tico, e orientando o espectador apenas a posteriori (chegando a lembrar dos recursos do pouqu�ssimo visto filme de Stanley Kwan, Lan Yu)

9. Apesar de alguns achados, e de um uso inventivo dos elementos de linguagem, A �ltima Noite mostra ser mais uma tentativa de rea��o contra o passado do que um sinal de constru��o de um futuro para a filmografia de Spike Lee. Desarticulado em seus elementos dramat�rgicos, ainda canhestro em trabalhar as motiva��es e os recursos de seus personagens, Spike Lee mostra que precisa urgentemente descobrir-se. Se A �ltima Noite for parte dessa busca, menos mal.

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Crist�v�o Bresson

(14/07/2003)

 

valbul2a.gif (530 bytes)  S I T E       C  L  A  Q  U  E  T  E

valbul2a.gif (530 bytes)  Capa2003

(Todo o resto foi destru�do)

 

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