ASSÉDIO : UM JOGO AMBÍGUO COM O PONTO-DE-VISTA NO CINEMA CONTEMPORÂNEO |
O novo filme de Bertolucci é um típico exemplar de um cinema desse final de século. Na estética, o filme promove um jogo ambíguo com a causalidade e a motivação das personagens. Mas antes, em primeiro lugar, deve-se dizer que os quinze primeiros minutos do filme são belíssimos. As primeiras cenas do filme na Europa, saindo da África, são quase uma aula de cinema. Movimentos de câmera obtusos, corte abrupto, câmeras lentas, e vários outros elementos de linguagem são combinados de forma bastante elegante, que impressiona o espectador mais atento. A grande jogada de Assédio é o tratamento ambíguo de Bertolucci do ponto-de-vista. O tratamento do olhar, a relação com a cultura estrangeira, o amor obsessivo são características presentes na filmografia do diretor. Mas em Assédio o território é o das ambiguidades. Filme calcado em meios-tons, em excessos que se superpõem a elipses, e ainda com uma narrativa restrita. O ponto-chave do filme, novamente em paralelo com a questão do ponto-de-vista, é o da informação, sempre imperfeita. É exatamente pela delirante apresentação e pelo jogo com o ponto-de-vista que se torna improvável interpretar a história em seu sentido literal. Para muitos, Assédio fala sobre uma empregada negra que é assediada por seu chefe. Ela recusa. "O que eu posso fazer para conquistar seu amor?", ele pergunta, visivelmente desesperado. A resposta é paradoxalmente resgatar o marido. E assim ele o faz ? Os móveis da casa são vendidos, ele se torna taciturno, não mais interpela a mulher, e no final vemos que o africano é realmente libertado. Tudo por amor. Sendo assim, com quem ela deve ficar? Interpretando a história nesse nível, o filme tende a um romantismo frouxo e um tanto ingênuo. E sabemos que Bertolucci definitivamente não gosta de filmes ingênuos. As ambiguidades são criadas exatamente porque existem fatos na história que nos faltam, exatamente porque acompanhamos o ponto de vista da mulher, e conseqüentemente sua indecisão. Será que o músico vendeu os móveis para subornar quem quer que seja e libertar o marido de sua amada? Ou porque ele estava precisando de dinheiro porque não trabalhava? Será que o músico sequer olhava para a mulher por respeito às palavras dela? Ou porque realmente ela não o atraía? (Lembremo-nos de uma cena em que ela fica repetindo "você não quer mais nada?"...puxando papo, fingindo que limpa o chão para ver a sua reação, e o músico nem olha para ela...). Esse ponto é importante se pensarmos em culturas estrangeiras: a fascinação é de lá pra cá ou de cá pra lá? No meu ponto de vista (que aliás todos acharam estranho), o filme é exatamente um jogo sobre a possibilidade do assédio. Cada vez mais temos a impressão de que o assédio do chefe pode ter sido fruto da imaginação da empregada. Isso porque desde o começo ela passou a amá-lo. Como todo o filme é baseado em um ponto-de-vista, a confluência entre o objetivo e o subjetivo fica cada vez mais clara. O final extremamente aberto ilustra exatamente o ponto-limite desse jogo. Questionando a causalidade da narrativa clássica, jogando com um ponto-de-vista restrito, e tornando o que não é visto mais importante do que é visto na tela, tratando de uma relação íntima, ambígua e afetuosa, Assédio se parece em muito com o tupiniquim Através da Janela. As comparações são ótimas. Nos dois filmes, há um mundo claustrofóbico, e o contato com o exterior, e uma terceira pessoa que relativiza as coisas. Só o discurso de transgressão do filme brasileiro é mais claro. (o que no caso chega a ser até um defeito...) Por isso, é um filme que fala da relativização de verdades. No mundo de hoje, de descontruções pós-modernas, a arte quer promover um jogo direto com o espectador questionando as regras que antes pareciam ser invioláveis. Especialmente com motivação e causalidade. Assim, Assédio é um filme bem muderninho. E como todo bom jogo, bem disfarçado. O problema é que esse também é um discurso, que não necessariamente constrói. Pode-se argumentar que o espectador fica menos alienado, no sentido de Baudry e MacCabe. Pode até ser. O problema é que é um tipo de arte que valoriza mais uma visão do cinema do que um sentido de mundo. De qualquer forma, é curioso ver Bertolucci, um cineasta das antigas, fazendo um cinema claramente moderno. Marcelo Ikeda. (em 01/08/2000) |