| Louis Malle sempre foi um cineasta eclético. Na grande parte
dos seus filmes, Malle escolheu temas polêmicos, como o incesto, a prostituição, o
relacionamento extra-conjugal, e o suicídio. Mas neste que é seu primeiro filme, Malle
ainda não era o cineasta consagrado com a responsabilidade de apresentar algo
necessariamente surpreendente. De fato, a fama de Malle veio com o ousado Os amantes
(1958). Ascensor é, de fato, seu primeiro filme, depois da produção com Jacques
Cousteau de O mundo do silêncio.
Ascensor é, ao mesmo tempo, uma homenagem, e uma obra que prenuncia rumos futuros. A homenagem está na inspiração da literatura policial francesa (o noir), e nos seus prolongamentos no cinema, o filme noir americano. Ascensor, em 1957, é contemporâneo aos filmes noir (p.ex Kiss me deadly é de 1955), mas já existia uma tradição sólida do gênero desde Pacto de sangue (1945). Entretanto, ascensor é um filme tipicamente francês, um filme noir com importantes diferenças dos noirs americanos. A trama rocambolesca e a concentração na ação em si de um detetive que procura solucionar o crime é desviada em ascensor para os devaneios existenciais das personagens. Nesse ponto, a imagem-síntese de Ascensor é a deslumbrante caminhada de Jeanne Moreau pelas ruas de Paris, à espera do amanhecer. A falsa alegria sórdida da madrugada parisiense, o decadentismo e o fatalismo da procura inútil da sra. Carala por bares insignificantes são brilhantemente evocados pela fotografia de Decae. E quando Moreau está sozinha em seu catastrofismo, pensando que possivelmente Tavernier (Maurice Ronet) a tenha abandonado por outra mulher, especialmente mais jovem, a música de Miles Davis é o acompanhamento sonoro perfeito à atmosfera quase expressionista do típico filme noir: a noite é chuvosa, os becos, sombrios e solitários. As personagens dos noirs franceses, ao contrário dos americanos, sofrem não apenas de culpa, mas uma angústia existencialista, expressa na apatia do rosto de Moreau, simplesmente impassível, o retrato supremo do fatalismo noir. Ela é certamente uma femme fatale, uma cúmplice do assassino, mas seua motivos para matar o marido superam a simples questão material. As viagens, os jantares, a fama do marido, tudo lhe parecia uma grande farsa. Mas o destino, sempre o destino, faz com que sua saída daquele mundo fosse impossível. Aliás, o destino está tão presente como se fosse o protagonista do filme. Foi ele, e apenas ele que provocou a parada do elevador, o roubo do carro, a parada no motel, o assassinato, e a prova das fotografias. O retrato da luta do homem contra o destino está nas tentativas de Ronet de sair do elevador. O homem está enclausurado, preso pelo destino, e suas tentativas são em vão, até que o próprio destino lhe permita a fuga. Por outro lado, o destino também persegue um jovem casal. Eles sofrem a mesma angústia existencial, embora expressa por situações diferentes. O tédio de suas vidas insignificantes e rotineiras e a impossibilidade de um futuro digno fazem com que o casal embarque numa tentativa de romper o tédio pelo menos numa noite. Roubando um carro, ultrapassando o limite de velocidade, escapando da fuga da polícia e utilizando nomes falsos, esses jovens questionam os limites que lhe foram impostos, e tentam se divertir à sua maneira. Mas o contato com outro casal mais velho no hotel apenas evidenciou as limitações dos jovens. Era evidente que o rapaz estava mentindo, e ele se sentia inferiorizado, humilhado, um simples ladrãozinho na presença intimidante do alemão que, ao contrário do pobre rapaz, era efetivamente bem-sucedido. O contato culminou com uma tentativa de assalto do moderníssimo carro do alemão, e na morte deste. O destino transformou a brincadeira em tragédia. Ascensor também deve ser visto como um sutil prenúncio de novos caminhos do cinema francês. Embora Malle tenha ficado conhecido como um dos membros da nouvelle vague, na verdade, Malle começou a fazer cinema antes de estabelecido o movimento. Acossado e Os incompreendidos, os marcos do movimento, são de 1959 e 1960. Ascensor é um pouco anterior. Contudo, Malle já reflete algumas das insatisfações com o estado do cinema francês da época. Ascensor é, portanto, tão marginal quanto o cinema noir americano. Isto é, não é apenas um filme que fala sobre marginais, mas essencialmente um filme marginal. Ao contrário da magia das adaptações literárias francesas, Ascensor fala sobre pessoas que vêem a vida de um ponto de vista mais realista. Essa reação contra um cinema convencional e literário antecipa algumas das inovações da nouvelle vague. Além disso, a homenagem de Ascensor ainda pode ser vista como um resgate do realismo poético francês. A desilusão e o fatalismo lembram a atmosfera dos filmes de Marcel Carné, especialmente quanto aos jovens que buscam uma oportunidade de se afirmar na vida. A maior mudança de Ascensor está no papel do dinheiro: existe a presença de uma burguesa que deseja abandonar seu mundo de convenções sociais e de hipocrisia. A introdução de um elemento burguês se distancia do realismo poético francês. Em Os amantes, Malle prossegue criticando o mundo burguês, e Moreau novamente interpreta uma esposa que quer abandonar toda a hipocrisia de seu mundo por uma amor verdadeiro. Desta vez, ela consegue. "Os amantes" se torna menos desiludido e mais romântico. Mas a visão de mundo desta vez é do ponto de vista da burguesia, e não do povo. Mesmo que seja uma crítica, a crítica de Malle ao mundo burguês é do ponto de vista burguês, e o povo fica longe das telas. Nesse sentido, Ascensor é um divisor do cinema francês. Nele, as duas classes sociais se entrecruzam por obra do destino: o casal burguês cansado das hipocrisias e o casal de jovens oriundo das camadas populares. Mas, de fato, o segundo assassinato é quase como um sub-plot, só justificado pelo efeito que causa na conclusão do primeiro assassinato. Ascensor já mostra, portanto, que a ênfase tende mais para o retrato das dificuldades do mundo burguês, que são os protagonistas do filme. Ou seja, Ascensor, embora cruze os dois tipos de casais, já comprova uma tendência de transição do cinema francês das dificuldades do povo (o realismo poético francês) para os conflitos da burguesia (a nouvelle vague). Marcelo Ikeda.
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