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Sim, Apocalipse Now � uma obra-prima do cinema, tem indiscutivelmente seu nome al�ado � categoria de "cl�ssico" do cinema, mas todo, qualquer que seja o filme, merece uma revis�o, e nada como o tempo para coroar a possibilidade de um novo olhar. Vendo, ou revendo Apocalipse Now, mais de vinte anos depois, nos v�m � mente O Resgate do Soldado Ryan, e sua famosa seq��ncia do desembarque na Normandia. Ryan tem a influ�ncia dos videoclipes (sem nisso ter nenhum ju�zo de valor): � a c�mera fren�tica, que quer passar ao espectador um sentido de urg�ncia, o sangue que espirra na c�mera, o formato esquiz�ide que mistura diversos formatos e pesquisa quanto ao material e revela��o do negativo, � estar inserido na sensa��o do caos. Na impressionante seq��ncia do ataque a�reo em Apocalipse Now h� ao contr�rio a estabilidade, a �nfase nos planos gerais, a presen�a de onipotentes e grandiosas gruas que percorrem a regi�o. Ao inv�s da sensa��o de terremoto e de caos de Ryan, h� a amplitude refor�ada pelo esplendoroso widescreen. Sim, porque o filme fala acima de tudo do poder, e do prazer em exercer o poder da destrui��o. � impressionante quando o Coronel afirma que sente o cheiro de Napalm no dia seguinte ao ataque como exalando um cheiro de vit�ria. Nas duas cenas, enquanto Ryan quer oferecer a vis�o do soldado, Now quer a vis�o do comandante, e isso certamente nos causa um efeito bem mais aterrorizante.
Sem d�vida, revisitar Apocalipse Now � se inebriar com os encantos do cinema americano. A cr�tica, seu tom �s vezes escrachado, continua l�, com o absurdo show das playmates, com a infantiliza��o dos soldados, com a auto-sufici�ncia dos comandantes, com a pr�pria miss�o absurda de Martin Sheen. Comparando-o com Ryan percebemos como o filme � ousado para a �poca. Enquanto Tom Hanks vai resgatar o tal soldado Ryan que quase se recusa a voltar para casa, em Now, Sheen volta ao Vietn� para matar um alto coronel americano. No entanto, essa cr�tica se desgasta com a dist�ncia e o tempo. Agora, o que nos importa � a ess�ncia, � a constru��o de seu projeto de cinema, � sua identidade e rela��o dentro de um cinema americano. Por isso, acima de tudo, n�o devemos deixar de observar que rever Apocalipse Now � ainda deliciar-se com a extraodin�ria fotografia de Storaro, com a produ��o megal�mana, com a ousadia do projeto, com o car�ter vision�rio e obsessivo de Coppola na realiza��o do filme, com tudo o que o filme representou na �poca. Mas tudo isso quase que escapa ao filme em si. Rever Apocalipse Now � tamb�m constatar que o filme n�o teria sido feito sem que antes o fosse Gl�ria Feita de Sangue, com seu retrato do absurdo da guerra, da cr�tica ao militarismo, dos jogos de poder, da incompet�ncia das autoridades. Mas � tamb�m constatar que Apocalipse Now � no fundo no fundo parte da mesma estirpe de um O Morro dos Ventos Uivantes ou de um tradicional filme de Capra, por mais incr�vel que possa parecer. � perceber que o filme v�rias vezes cai na tabula rasa das explicita��es psicol�gicas das personagens, que est� envolto num moralismo antigo e conservador, do mesmo esp�rito do cinema americano de sempre. � perceber que na sua estrutura intr�nseca Gl�ria Feita de Sangue ou mesmo A Grande Ilus�o s�o muito mais modernos que Apocalipse Now. No entanto, a mitologia persiste, alimentada muito pelos extraordin�rios minutos iniciais e finais do filme. Os del�rios de Sheen em seu quarto de hotel, e os primeiros di�logos entre Sheen e Brando s�o parte de qualquer antologia de cinema. Claro que por seus m�ritos intr�nsecos, mas tamb�m por constru�rem uma esp�cie de mitologia particular.. Marcelo Ikeda (29/12/2001) |