AMORES POSSÍVEIS |
(um "rascunho" de um texto) Numa lotada sessão de pré-estréia no CCBB, o público carioca teve a oportunidade de conferir Sandra Werneck falando sobre seu último filme, Amores Possíveis. Embalada pelo sucesso do anterior Pequeno Dicionário Amoroso, a diretora optou pela mesma linha da comédia romântica de nítido apelo para um público de classe média. O que envolve essencialmente este projeto de Sandra Werneck é o caso típico das comédias românticas de Hollywood: um conflito entre um olhar para o passado, com um olhar geralmente nostálgico, e um contexto típico dos anos 90, com uma maior liberdade formal e uma maior ousadia nos temas. A comédia romântica americana dos anos 80 já veio se modificando, passando por experiências como as de Quatro Casamentos e um Funeral (recusando a união estável), Feitiço do Tempo, O Casamento do Meu Melhor Amigo, etc. No entanto, permanece a mesma, com um olhar nostálgico em vários casos (ver as referências a Tarde Demais para Esquecer em Sintonia de Amor) e com um tom tipicamente americano e reacionário: é um cinema conformista e conservador especialmente em seus finais. É um bom filão de público para o cinema brasileiro, decerto ainda pouco explorado. Atraindo especialmente a indecisa geração X, seu moralismo implícito é que sempre haverá tempo para os reencontros, mostrando para a platéia que suas indecisões não são características de uma neurose particular e problemática (ver p ex., a interessante abordagem de Sunday, dir. J. Nossiter), mas um conflito típico de sua geração (i.e. normal). O relacionamento humano é geralmente visto com uma doce superficialidade. É o tipo de cinema que só mostra exclusivamente aquilo que o público quer ver. Como dissemos, as comédias românticas aos poucos têm se tornado mais ousadas, já que o modelo estava se tornando muito previsível. Feitiço do Tempo é louvável numa recuperação da rotina com toques quase surrealistas, ridicularizando exatamente o conservadorismo, a irreversibilidade e a falta de ousadia de uma vida americana completamente inerte. Na temática, O Casamento de Meu Melhor Amigo, por exemplo, brinca com a polaridade entre o vilão e o mocinho, punindo a protagonista por sua indecisão crônica. Mas no fundo são pura diversão sem compromisso. Amores possíveis é extremamente tradicional no modelo da comédia romântica, mas como os últimos exemplares do gênero, tenta inovar tanto no conteúdo quanto na estética, mas no fundo se mostra extremamente conservador. O mote do filme é a questão das possibilidades, o jogo dos "ses". Se Carolina Ferraz encontrasse Murilo Benício naquela noite, o que seria de suas vidas? Se eles se reencontrassem quinze anos depois, o que aconteceria? O filme tenta um jogo formal ousado, narrando simultaneamente as três histórias, sem nenhuma indicação a priori para o espectador quando se troca de uma história para outra. Este nítido caos, na forma e na temática, torna (por que não?) o filme quase um exercício do virtual e do pós-moderno. Na primeira, MB é um executivo sério, casado com uma mulher sem graça mas que lhe dá segurança (Beth Goulart). Arruma uma amante (CF), mas após uma semana em que diz para a esposa que foi viajar a negócios, resolve voltar para a esposa. Na segunda, MB é um homossexual que resolve assumir seu lado e desmanchar seu casamento. Vivendo com outro homem, ele ocasionalmente vê sua esposa por causa do filho. Eventualmente, eles tentam voltar, mas MB acaba ficando com seu parceiro. Na terceira, MB é um garoto playboyzinho que tenta arrumar uma garota perfeita por um programa de computador (CF), mas de fato não consegue abandonar sua mãe (Irene Ravache). As três histórias representam várias gradações, do drama à comédia, do homem forte ao frágil (pelo menos na aparência, porque no fundo a fragilidade do homem é comum nas três histórias, fato típico de um filme dirigido por uma mulher), do executivo ao playboy. No entanto, esse mote comum é quebrado pela falta de unidade de um ponto de partida coerente, uma premissa fundamental do roteiro que está ausente. Desse modo, vemos três Murilos Benícios e três Carolinas Ferrazes completamente diferentes. No começo, há um tom claro de Feitiço do Tempo, quando vemos o mesmo plano de uma torradeira saindo do pão. Mas depois, as histórias (e as hipóteses implícitas sobre cada personagem) serão completamente diferentes. Não se define então se esse exercício de especulação ( a cogitação da possibilidade) parte na verdade do Murilo Benício (o protagonista) ou de qualquer outro. Podemos pensar em situações diferentes, mas como explicar a existência de pessoas radicalmente diferentes? Como alimentar a possibilidade de um Murilo Benício playboy e outro gay? Essa incongruência afeta toda a estrutura do filme. O ponto mais curioso de Amores Possíveis é sua ousadia em relação à temática. Mostra-se um Murilo Benício gay, beijando (mesmo que de estalinho) um outro homem. Ele troca sua esposa pelo seu amigo de peladas, e vai morar com ele. Curiosamente, Werneck coloca nesse episódio o mais alto tom dramático. Acaba se tornando um exagerado dramalhão que, paradoxalmente, fica completamente politicamente correto. No entanto, ainda perturba o público. De fato, este se sente desconfortável, contrariando sua expectativa. Mas a alta carga dramática se torna quase risível. Numa cena, MB tenta voltar para CF e na cama descobre que não sente mais atração por ela. Curiosamente (nem tanto, porque a diretora é uma mulher), Werneck mostra o outro lado, enfatizando o desespero de CF com a recusa. O filho do casal (personagem bem construído para um terrível ator-mirim) aceita tudo numa boa, e até chega a perguntar porque o pai não pode ficar com sua mãe e com o outro cara (???). Essa cena completamente inverossímil foi ainda lembrada por Werneck após a sessão: "o preconceito está nas imposições da sociedade; a criança só vê o amor, sem preconceitos". Ainda que esse episódio seja mal sucedido - o excesso dramático, a descontinuidade do roteiro (CF o odiava mas depois aceita uma investida de MB), a abordagem hipócrita das diferenças, etc. ele possui de fato uma certa ousadia ao mostrar para um público cenas que certamente o constrangem. No entanto, em torno de todo esse projeto, o que prevalece é uma solução conservadora. A própria temática do homossexual, de se aceitar como é, é na verdade ultra politicamente correta. Ainda mais estranho é o desfecho do péssimo primeiro episódio. O executivo de fato volta para sua mulher, reforçando os laços da família, de sua corporação, etc., mesmo que não sinta nada de especial em relação a ela. Seria mais interessante, p ex., se ele não ficasse com nenhuma das duas. Isto só nos revela que Werneck na verdade faz uma comédia romântica no fundo ligada ao típico padrão conservador do gênero. O que nos remete a sempre usada relação de saudosismo. O mote que liga os três episódios é o mesmo: o cinema. O cinema Odeon, a chuva e o guarda-chuva, são na verdade códigos do hábito de freqüentar o cinema. Torna-se apenas uma breve referência, pouco explorada em termos de dramaturgia, mas que tem um desfecho simpático: o filme se encerra de fato dentro do cinema quando o casal MB e CF finalmente se encontram para ver um filme. Apesar das esquisitices dos dois primeiros episódios, vemos a típica comédia romântica de sempre: o casal feliz e consumindo (de preferência no cinema). O terceiro episódio, o do MB playboy, é o que mais agrada ao público, porque nunca sai do convencional e é o que cai na comédia. Ainda assim tem cenas estranhas, como CF bêbada para jantar com a mãe do MB. Irene Ravache está impagável e é o grande destaque do filme. Em suma, Amores Possíveis é uma típica comédia romântica, que tenta algumas ousadias interessantes mas que são bastante frustradas. No fundo, revela-se conservadora e com um viés extremamente de classe média. * * * Bom, até aí nada demais. De fato, não se esperava muito do filme. Mas as palavras que Werneck lançou ao público no CCBB foram muito esquisitas. Claro, há o público, a necessidade do discurso apaziguador e de auto-elogio para a promoção do filme. Há também a inevitável expectativa do lançamento de inúmeras cópias ao longo de todo o país. Werneck sabe que seu futuro está em jogo, claramente. Por isso, devem-se relevar alguns excessos. Ainda, acho que devem ser comentados. A diretora me pareceu completamente fora de noção do que o seu filme representa, falando coisas contraditórias e sendo ao meu ver bastante arrogante. Perguntada sobre o seu processo de criação, disse que tem todas as idéias e que dá para o SEU roteirista escrever. "Daí, o Pepê (Paulo Halm) escreve, me mostra, e eu digo, não Pepê, ainda não chegou no tom que eu quero. Ele volta e reescreve até que eu sinta que ele chegou aonde eu queria." Werneck foi quase desrespeitosa com o trabalho de Halm, ao meu ver, e indiretamente colocou mais crédito para a sua filha do que para Halm. Repetiu várias vezes que o SEU filme ganhou Sundance, e a importância extraordinária do prêmio. Mas o pior é quando Werneck disse que seu filme não era uma comédia romântica, mas era muito mais, porque tinha um trabalho extremamente inovador com a linguagem, de uma sofisticação extraordinária. Acho que Werneck deveria assistir às entrevistas dos realizadores americanos sobre seus filmes. Soderbergh, por exemplo, nunca disse que achava Erin Brocovich um trabalho inovador. As palavras arrogantes de Werneck mostram que ela é muito como seu filme: um caso superestimado. P.S.: um fato curioso no filme é que nos letreiros de abertura não existem os nomes da equipe técnica, apenas com letras bem grandes "um filme de Sandra Werneck". A equipe só aparece no final. Um ato condenável!
Marcelo Ikeda. (04/04/2001) |