Embora Kieslowski seja conhecido em sua fase polonesa por mostrar as condições árduas de seu país de origem, ilustrando as desigualdades do regime comunista, em Amador, Kieslowski compõe uma homenagem ingênua e objetiva sobre sua paixão pelo cinema. O cinema amador de Stahr é uma contrapartida ao próprio cinema "amador" de Kieslowski. No filme, o movimento da câmera e o enquadramento possui um vigor de experimentação, uma necessidade de buscar novas soluções e a paixão pelas simples descobertas que caracterizam a visão de um principiante. A identificação de Kieslowski com seu personagem é a prova da humildade do filme. Quando Stahr ganha o terceiro lugar no concurso, ele mesmo sabe que seu filme não é lá essas coisas, não é um grandessíssimo filme. Aliás, como o é o próprio Amador. Kieslowski quer apenas fazer um filme, nada mais, nada menos, nem perfeito, nem ruim, mas um filme. Por isso, ao longo do filme, Kieslowski insiste em dizer que não quer fazer um filme para ganhar concursos, e que o cineasta não precisa ser formado em grandes universidades para fazer cinema, nem que quer ser um artista, mas basta que ele olhe a realidade; observe os fatos rotineiros que passam por ele, e daí ele terá o seu cinema. Todo o filme é um conflito entre o documentário e a ficção, que reflete muito as próprias características do cinema que Kieslowski fez na Polônia, já que sua origem é de documentarista. Do documentário temos principalmente o próprio fim do filme, em que Stahr fala para a câmera, narrando tudo o que lhe aconteceu desde o início do filme. Portanto, seria um filme a partir do real que já havia sido filmado por Kieslowski. As participações de Zanussi e Janka como eles mesmos, e a evidente metalinguística sobressaem a ficção. Mas, por outro lado, o filme é apenas uma história, com encadeamento narrativo típico do processo ficcional. O conflito entre documentário e ficção é fundamental no cinema, por que em suas características se divide entre o real e o imaginário. Daí a metalinguística de Kieslowski. Cada vez mais, Kieslowski, ao longo de sua carreira, migrou para a ficção, onde o caso mais extremo é A dupla vida de Veronique. Mas mesmo na trilogia, sentimos a influência de Kieslowski pelo documentário, de registrar a situação real de pessoas reais, e as suas dificuldades ante o seu meio social, como em seu Decálogo. Mas um aspecto curioso do filme é que, embora o desejo do "amador" seja o de olhar para tudo a seu redor, ele foi incapaz de perceber o desencantamento de sua mulher e a sua traição. De fato, seu desejo pelo cinema lhe causou uma série de problemas em sua vida particular inconciliáveis. Stahr comprou a câmera para, em primeiro lugar, filmar sua filha, mas depois, ele praticamente não a via mais. A prova disso é que numa cena em que Stahr a filmava, a cadeirinha quase caiu, e Stahr repreendeu a mulher por tentar socorrer a criança e interromper a filmagem. A própria segunrança da criança valia menos que a integridade da película. O cinema passou a ser um tipo de obsessão para Stahr. Quando Stahr conta entusiasmado à esposa como foi seu primeiro encontro com Zanussi, vemos o quão distante os dois estão, já que a esposa ignora possivelmente quem seja Zanussi e a importância do fato. Kieslowski tem uma visão ingênua do que seja a paixão pelo cinema, mas nunca romântica. Ele toca em alguns pontos com até certo sarcasmo sobre o sucesso e os determinantes do futuro de um cineasta. No concurso, vemos que na verdade nenhum filme foi bom, mas a mulher vota no filme de Stahr por que diz que ele vai continuar filmando e isso é o que importa para ela. Isso pode ser interpretado de duas formas. A primeira é numa visão utilitarista: como realizadora do concurso, sua função só continuará existindo se houver novos concursos, e portanto, pessoas que façam filmes. Por outro lado, temos uma visão dos iniciantes: no começo, inevitavelmente, todos os filmes são ruins, mas aos poucos o cineasta vai melhorando, e para isso ele deve continuar a fazer filmes. Por isso, no início deve haver um incentivo, e uma certa tolerância, não se comparando igualmente um cara da experiência de um Zanussi com um amador que está apenas começando sua possível carreira futura. Uma crítica demasiadamente severa pode desestimular um diretor que pode aprender mais, com seus próprios erros e contruir bons filmes. No início de suas carreiras, cineastas como Bergman e Griffith fizeram filmes medíocres. Nesse contexto, Kieslowski ironicamente apresenta o comportamento do crítico de cinema teórico radical, que não quer premiar nenhum filme por serem ruins. A organizadora sabe que ele tem razão, mas mesmo assim deve-se premiar como estímulo a pessoas que pretendem continuar fazendo filmes. A prova desse acerto é o documentário sobre o trabalhador anão q Stahr fez posteriormente, ganhando elogios e até aparecendo na televisão. Um outro ponto, pouquíssimo romântico, é que simplesmente, a organizadora votou nele porque gostou dele. Os contatos, a influência dos amigos, saber ser simpático pessoalmente, podem valer tanto ou mais que a própria obra apresentada. Mesmo que o filme seja ruim, a organizadora pode ter votado no filme simplesmente por ter gostado do diretor. Uma característica fundamental para o diretor, segundo Kieslowski, é a curiosidade. Stahr quer filmar tudo, chegando a irritar o diretor da empresa. Stahr diz que quer filmar "tudo o q se move". E ele tira do dia-a-dia sua inspiração, e não através de temas fantásticos, mas do contato que tem com as coisas ao seu redor. Daí vemos o documentário. Quando no final, Stahr filma a si mesmo, o filme se volta para si, i.e é como se o filme fosse um documentário sobre toda a história que se passou no filme. Daí o filme assume um duplo significado. A partir desse momento, vemos que ao mesmo tempo, presenciamos dois tipos de acontecimentos distintos no tempo, mas apresentados ao mesmo tempo na tela. Primeiro aconteceram as coisas na realidade; só depois, Stahr resolve fazer um "documentário", i.e. um filme que falasse sobre tudo isso. Mas esse filme é o próprio filme amador a que acabamos de assisitr! Por isso, presenciamos simultaneamente tanto os acontecimentos com Stahr (o "real") quanto o filme que Stahr fez posteriormente sobre os acontecimentos (a "ficção"). É como se depois do fim, o filme voltasse a seu início, e tivéssemos que assistir a ele mais uma vez. Nessa segunda vez, o final poderia ser um fruto de uma ficção, que comprovaria ainda mais uma vez da inspiração de Stahr da realidade. No fim, ao invés de se perguntar sobre a realidade dos outros, o diretor passou a fazer um filme sobre sua própria realidade, o que seria um indício de achar um "caráter autoral" para sua obra. Ora, os diretores com filmes autorais falam de si, de sua visão de mundo, e é exatamente isso que Stahr vai fazer em seu filme Amador. No fim, Stahr ultrapassa os limites do documentário utilizando a própria estrutura do documentário, exatamente como o próprio Kieslowski irá fazer posteriormente nos seus filmes. Embora o decálogo seja, de certa forma, um "documentário" sobre as dificuldades da vida polonesa, e a falta de referência dos grandes ideais do mundo contemporâneo (ou mesmo Deus e a religião), o Decálogo também é tudo isso segundo o ponto de vista do seu autor, segundo a sua visão de mundo. Portanto, é um filme sobre o próprio Kieslowski, de certa forma. Em Amador, a consciência artística é atingida já um pouco antes, quando Stahr se orgulha de afinal fazer o "seu" filme, e não um filme encomendado sobre alguém ou alguma situação de sua empresa. Nos filmes "contratados", inevitavelmente existem pressões quanto aos objetivos do filme. Por isso, o diretor censura cenas de pessoas recebendo dinheiro, ou mesmo no caso do filme sobre o anão. No curta da excursão, finalmente Stahr vai fazer o "seu" filme. Fazendo um filme sobre "si", voltando a câmera para si mesmo, Stahr faz um filme autoral, ligado ao documentário porque as coisas efetivamente aconteceram com ele, ou expressa coisas que ele viveu na sua vida de verdade, mas a partir do que aconteceu com ele particularmente, Stahr pode expressar sentimentos fatos mais gerais, como o amor ao cinema, as condições de trabalho da classe média baixa polonesa, como o trabalho pode interferir na família, etc. Por isso, o filme pode interessar não somente a seu autor, mas a todos, e ser mais do que simplesmente a história de Stahr. Marcelo Ikeda.
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