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Qual é o sentido de se condenar um filme como Abril Despedaçado? Sim, sabemos perfeitamente que se trata de um exemplo de um cinema globalizado, fabricado para corresponder à imagem que o público estrangeiro quer que o Brasil seja, que em nenhum momento busca um frescor de novidade para a natureza da imagem. Sim, sabemos perfeitamente de tudo isso. Mas ainda assim qual é o sentido de se condenar um filme como Abril Despedaçado? O problema talvez seja que o cinema brasileiro ande tão carente de títulos significativos que qualquer sopro represente um sinal de vida. Abril Despedaçado faz parte de um projeto de cinema claro: um cinema subordinado a regras que não vêm do Brasil. Mas o que deve ser ponderado é que esse projeto tem a sua importância e seu papel. O nome de Walter Salles vem circulando pelos festivais internacionais, e Abril Despedaçado cumpriu essa função de alertar à comunidade internacional de que o cinema brasileiro existe. Que existe e que quer se inserir no que eles esperam de nós. Na economia, existe uma teoria defendida por alguns que não se deve criticar em demasia uma empresa nascente até que ela se estabeleça no mercado. Porque duras críticas no início da gestação podem ser fatais, impedindo um desenvolvimento futuro, ainda que no começo a caminhada seja titubeante. É claro que o cinema brasileiro não é nenhum garotinho, e que isso fique claro. Mas acho que esse é o caso de Abril Despedaçado. É um filme que tem um projeto para o cinema brasileiro. Ainda que não seja um projeto digno de nota, é um projeto. E só isso já basta para tornar Abril um filme obrigatório. Infelizmente. * * * E o que torna Abril Despedaçado um filme fracassado, além do fato de sua recepção ambígua nos grandes festivais? Ora, no filme, não há um único sopro de vida, tudo surge de um cinema de situações com transparente apelo emocional, que em nenhum momento busca a dúvida ou a ambivalência de suas relações. No fundo, é exatamente como o cinemão americano. É um produto feito para comover (ou melhor consolar) os corações dos pobres europeus, para que "conheçam" um pouco mais do que é o Brasil, um país pobre e miserável, com uma população que, apesar de todos os atropelos, tem honra e luta por sua dignidade. É um filme sem o menor interesse a não ser o de buscar os significados mais primários e imediatos dessas relações, de tornar essa natureza árida e sofrida o mais agradável visualmente possível para os olhos do estrangeiro. Surge a paixão pelo mundo do circo, o menino em seu balanço, a mulher do circo que gira num pedaço de corda, a chuva que coroa o encontro entre os dois amantes, o sonho em ver o mar, etc. etc. Lamentável? Sim, porque o cinema brasileiro exibido nos Festivais Internacionais sempre buscou ser muito mais. * * * Abril Despedaçado acaba se tornando, como exercício de roteiro, uma mescla de alguns filmes do cinema brasileiro. Tem o cinema novo (como não poderia faltar) de Vidas Secas, aliado a um tom de Bye Bye Brasil (no papel do circo nas cidades do interior). Tem uma pinta de cinema iraniano, ou melhor, do mais simples cinema iraniano. O final do filme, quando Rodrigo Santoro finalmente chega ao mar, claramente dialoga com o famoso final de Os Incompreendidos. Mas não deixa de ser um final íntimo ao próprio cinema brasileiro, se pensarmos no tão comentado final de Deus e o Diabo na Terra do Sol : "o sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão". Mas enquanto no filme de Glauber o que interessava era a busca, no de Salles é o encontro. Mas encontro de quê? Após encontrar o mar, de finalmente fugir de seu ambiente opressor, qual é a alternativa? O que fazer? Apesar do final ingênuo, imerso num grande clichê, é interessante constatar a semelhança com o final de Central do Brasil. Walter Salles, apesar de retroativo, é coerente, e se Abril Despedaçado não conseguiu atrair as platéias estrangeiras tanto quanto Central do Brasil, isso não significa que ele ainda não possa fazer um bom filme. * * * Se o projeto de Abril Despedaçado está fadado aos limites de um cinema globalizado, é indispensável comentar de que não se trata de um realizador mal intencionado. Ao contrário, é um filme humanista, que possui uma mensagem de tolerância e amor ao próximo, numa época em que tudo isso é cada vez mais fundamental. É um cineasta que acredita em seu filme e segue tal proposta de cinema com coerência. Deve-se também elogiar o trabalho dos atores, todos ótimos, inclusive Rodrigo Santoro e o menino do filme. Retornando ao início desse texto, qual é o sentido de se condenar um filme como Abril Despedaçado? É um filme tão necessário e tão burocrático quanto uma política de marketing. Sobrevivamos com isso, dadas suas devidas proporções, para que possamos enfim falar de cinema. Marcelo Ikeda (20/06/2002) |