A AGENDA

� poss�vel ver o t�o elogiado filme de Laurent Cantet de v�rias formas, desde a simplicidade e a economia de sua narrativa � problematiza��o do papel da identifica��o com seu protagonista. � v�-lo um tanto � parte do atual panorama do cinema franc�s, pomposo e estiloso, e sua op��o pelo lento e gradual desvelamento do modo de vida de seu personagem.

Pois � exatamente a partir desse estranhamento que Cantet realiza um cinema da d�vida que intencionalmente tarda a atingir sua inexor�vel situa��o-limite. O entrecho � simples: homem de classe m�dia alta � demitido da empresa em que trabalhava h� onze anos, e tem medo de contar o fato � sua esposa e fam�lia, criando uma s�rie de subterf�gios para tal.

Sim, � poss�vel ver A Agenda dessa forma, al�m de seu aspecto social, em revelar o impacto pessoal da imposi��o social de �estar empregado� como reflexo da falta de valores do homem contempor�neo e de sua necessidade de ser algu�m. Sim, � poss�vel. Mas tamb�m � poss�vel reconsiderar o filme, se pensarmos que estamos no Brasil, e se pensarmos tamb�m que h� mais de cinq�enta anos j� havia um filme como Ladr�es de Bicicleta.

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Cada cultura tem uma forma muito particular de ver suas pr�prias caracter�sticas econ�micas e culturais. Aqui, no Brasil, ver um filme como A Agenda n�o deixa de nos parecer repulsivo. Sim, porque somos adultos, e o mundo � esguio e confuso, mas n�o podemos deixar de nos eximir de nossas responsabilidades. O protagonista de A Agenda � um pobre desempregado, mas completamente diferente do personagem de Lamberto Maggiorani em Ladr�es de Bicicleta. Para desafogar suas m�goas, ele pede um empr�stimo milion�rio aos pais, veste seu mais formoso terno, passeia com seu estonteante carro pelas belas estradas da Europa, e, para esfriar a cabe�a, tira o fim de semana num chal� abandonado numa �rea coberta de neve. O terr�vel drama desse desafortunado � o que milh�es de brasileiros e africanos (como o filme de longe at� cita) se estapeariam para viver.

A Agenda � franc�s demais para o nosso terceiro mundo. Falsa crise de consci�ncia sobre a fun��o do homem contempor�neo, apesar de sua realiza��o concisa e discreta, revela-se um filme extremamente pedante e alienado.

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Sim, porque se A Agenda recusa o padr�o b�sico do cinema de identifica��o, porque n�o deixamos de condenar a postura de seu personagem, ele o faz para em �ltima inst�ncia ratificar esse modelo. Se os planos alongados, a narrativa esguia, o clima de d�vida colaboram para a suspens�o dessa identifica��o imediata � o que faz esse filme ser um tanto mais moderno que os filmes recentes de Ken Loach, por exemplo, onde tudo precisa ser entregue ao espectador da forma mais imediata poss�vel � � preciso observar que em �ltima inst�ncia a proposta do filme n�o � diferente. Todo o percurso do filme nos leva � dura cena final, ou ainda para que possamos �compreender os motivos que levaram-no a mentir para sua fam�lia�. Sim, porque o protagonista do filme mentiu �para que tudo pudesse ficar como antes�. Sua ilus�o, apesar de ser obviamente insustent�vel, � compreens�vel, dado �seu drama pessoal, seu desespero�. Ao contr�rio do oper�rio de Ladr�es de Bicicletas, que luta bravamente para recuperar sua bicicleta, agora, o executivo de A Agenda n�o quer mais o trabalho, porque o trabalho escraviza, vitimiza sua liberdade, mas tamb�m n�o quer abandonar sua fam�lia, n�o pretende desapont�-los. �Eu tenho medo de n�o corresponder �s expectativas de voc�s�, chega a dizer em uma hora para a esposa. E A Agenda pretende passar a m�o na cabe�a do pobre executivo que tem sua liberdade roubada. Para o p�blico da Cahiers de Cinema pode ser a gl�ria, mas para os brasileiros que andam pelas ruas, n�o deixa de ser conversa de quem n�o tem o que fazer.

N�o s�o poucos os recursos apelativos de A Agenda, a diferen�a � que s�o bem mais sutis que os dos americanos, ou dos Ken Loachs da vida. A diferen�a � de grau, n�o de natureza. � a trilha sonora, � o papel no roteiro do contrabandista polon�s que j� foi preso, � o amigo que quer arrumar um novo emprego para ele, mas que � ignorado, � o papel dos filhos (o mais velho chega a dizer que o pai � um canalha, e o espectador pensa �oh, mas ele n�o � um canalha..), etc, etc.

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A Agenda � um filme politicamente correto. Laurent Cantet n�o desconhece cinema. O filme tem seu lado interessante, em como recusa o didatismo, em como prolonga a a��o o mais que o suficiente, em como algumas vezes joga com o processo de identifica��o. Mas em �ltima inst�ncia esses pontos n�o fazem de A Agenda um filme recomend�vel. Em sua proposta primeira, A Agenda desaponta, talvez porque seja de um mundo t�o distante do nosso que seja quase incompreens�vel. Um cinema de clima existencial � quase sempre bem-vindo, mas ao acopl�-lo a um contexto social, atrav�s do tema trabalho, Cantet revela um descompasso que evidencia sua vis�o elitista. Talvez A Agenda seja franc�s demais para o Brasil.

 Por outro lado, os dois finais de A Agenda � o alongado plano do homem saindo do carro com a voz de sua esposa ao telefone e o close de sua rea��o ao ouvir o �brilhante futuro� em seu mais novo trabalho � e o tenebroso contraste que surge at� mesmo da impossibilidade desse primeiro final e da inevitabilidade do segundo confirmam que Cantet conhece cinema.

   

Marcelo Ikeda

(21/11/2002)

 

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