Algumas idéias sobre o Festival Universitário/2003

 

 

1. Este que escreve estas linhas é um sobrevivente. E como sobrevivente nem me refiro aos dias seguintes das festas e das rodas de cerveja após as sessões do festival. Mas simplesmente sou um dos raros que conseguiu assistir a todos os filmes do Festival – e, diga-se, fato que superou a necessidade de escrever este próprio texto, já que nenhum privilégio me foi dado –, simplesmente porque não havia lugares para todos. O cinema do CCBB se tornou minúsculo ante a fúria indiscriminada de amigos, equipe e interessados ávidos em assistir à nova produção universitária. Pasmem, mas é verdade. A sala de cinema do CCBB não mais comporta o volume de público do Festival. 

2. O melhor do Festival talvez tenha sido os debates. Na quarta, Felipe Bragança, de Por Dentro de Uma Gota D´Água, mostrou as garras do “diretor temperamental”, e teve seus “segundos de glória” ao tentar ridicularizar não só a pergunta mas pessoalmente o jurado de sua própria universidade. Com sua arrogante postura do “Contra”, mostrou-se alinhado com o discurso do chefe do “grupo de críticos” do qual participa, julgando-se não só indiferente mas superior a seu público. Mas o melhor debate foi o de sábado, o da última sessão. Composta de filmes bastante diferentes em proposta, desde a ênfase no cinema experimental com “os filmes esquisitos” de Moira Toledo até a busca pela explícita comunicação com o público com a comédia narrativa de Boca a Boca e o filme-piada em Não Perca a Cabeça. A visão da poesia como política no manifesto poliético (sic) de Fabiana da Câmara, de Bem-Te-Vi, também incitou inúmeras discussões e descontentamentos, inclusive com o explícito “racha” da co-diretora do filme, Ilana Feldman que, em sessão posterior, fez questão de dizer que “nada tinha a ver com o manifesto”. 

3. Mas os filmes em si não desapontaram, apesar do presságio nefasto de parte dos dois primeiros programas. Os três seguintes foram bem interessantes e, como sempre, a ênfase foi na diversidade. Apesar de três ou quatro trabalhos bizonhos, a FAAP acabou levando a maior parte dos prêmios do júri oficial (seis num total de oito), além do prêmio do público e do júri da ABD&C/RJ para o curta Os Fiéis

4. Recentemente o Núcleo de Cinema e Vídeo da Universidade Estácio de Sá passou por um conjunto de mudanças. Com a substituição do coordenador do curso, os filmes de realização passaram a ser selecionados a partir de um “edital de realização”. Com critérios que se aproximam muito das seleções dos concursos de roteiro e dos editais de projetos em todo o país, a Estácio insere uma suposta “lógica do mercado” e prepara o aluno a escrever seu projeto. Nesse Festival, os primeiros filmes realizados a partir dessa seleção foram exibidos. Um deles, de resultado irregular, se revela fascinante por evidenciar toda a mudança de rumo que está por trás dessas novas regras.  

Quando o Amor Vem por Necessidade, de Pablo Nery, é um filme da Estácio. E tem orgulho disso. Com isso, quero dizer que, desde o início de seu projeto, o diretor fez questão de mergulhar na tradição anterior da produção da escola, e realizou um curta em direto diálogo com essa proposta: é a quebra da diegese e do sentido narrativo próprios dos curtas de Walter Fernandes Jr., é a importância da participação da equipe como uma família, é o desejo incontido por uma liberdade que não cabe na película. 

Mas ainda assim, o curta, já pelo seu título, se revela profundamente pessoal. O papo de bar e a valsa inserem uma intimidade rara às produções da escola. E é quando o curta assume seu lado profundamente melancólico e se deixa invadir por uma imanente ternura que atinge seus melhores momentos (em especial, o pichamento no banheiro). Não deixa de ser profundamente triste: a porradaria da equipe, o desprezo do cinema “bate-cartão”, o “já tive uma idéia” no meio do filme, ressaltam uma liberdade criativa e um descompromisso que nunca mais serão vistos nas posteriores produções da Estácio, vítimas dos editais de realização. Pablo é o “último dos românticos”. Provavelmente seu filme foi selecionado por engano. 

5. Talvez o grande tema em torno do qual a maior parte dos filmes do Festival pode ser incluída é uma idéia de crise, e como, a partir dessa constatação, busca-se um caminho pessoal de descoberta. Em torno do tema da crise, pode-se alinhar filmes tão diversos quanto o documentário Cinema Pagador e a revisitação do terror de Conrad. No entanto, neste breve espaço, gostaria de ressaltar quatro filmes que inseriram a idéia de crise na própria estrutura de seus filmes, problematizando de forma aguda sua própria construção. São eles: O Afogado (Doca Corbett, FAAP), Coisas (Tula Hatagima, USP), Viver no Carnaval (Daniel Seidl, FAAP) e Na Idade da Imagem ou Projeção nas Cavernas (Bruno Safadi, UFF). Uma primeira visão pode tornar redutora uma análise sobre os filmes. Por isso, deixo para uma outra oportunidade o irregular mas em alguns pontos fascinante O Afogado e o surpreendente Coisas, inegavelmente um dos grandes destaques do Festival. Neste espaço, portanto, pretendo me debruçar sobre os outros dois filmes. 

6. Se o tom melancólico e nostálgico de Gosto que me enrosco era sugerido especialmente pelos planos longos e pela intimidade, o filme seguinte de Bruno Safadi resolve prosseguir com uma aproximação particular a um Rio antigo e a um cinema carioca antigo (o cinema marginal) para efetivamente desconstruir seu próprio discurso. A idéia de crise e decadência, que assumia um olhar íntimo, agora passa a soar agressivo, num discurso próximo ao catártico. O que nos desconcerta é o tom ambíguo com que Bruno conduz quase ao limite suas próprias angústias pessoais como realizador. Por um lado, Na Idade da Imagem é um filme sobre a crise do olhar e da representação, sobre a banalização do viver, ou sobre a impossibilidade de a imagem traduzir algum sentimento de vida. Por outro, é um apelo desesperado pela afirmação de um cinema e de um Rio de Janeiro que já não mais existem, é um gesto de resistência à possibilidade de se viver com liberdade. Entre tantas outras questões, Bruno problematiza o tom naturalista da representação, o trabalho com os atores, o apelo ao improviso e o filme que se fecha na montagem, e a incorporação do espaço físico. Além disso, uma questão-chave de seu filme é o sentido da marginalidade. Ao mesmo tempo que um elogio à marginalidade como resistência, um profundo pesar sobre a banalização do gesto, ou da contrição da liberdade. Nisso, se expressa a ambigüidade da fotografia trabalhada, em pleno 35mm, de uma plasticidade em contraste com o desleixo do cinema marginal. Retrabalhando, recodificando esses códigos, Bruno problematiza uma idéia de crise sem nunca se importar em resolver suas contradições, sendo um dos mais radicais desabafos e gestos de descoberta do cenário do atual curta-metragem. Ao final, ainda, não satisfeito, Bruno termina com o tom sombrio da morte, de preferir o assassinato à cumplicidade vã, quebrando mesmo a intimidade da homenagem a Memórias de um Estrangulador de Loiras para se assumir como “marginal entre os marginais”. Enfim, só, solitário. 

7. Se Na Idade da Imagem insere um conceito de crise através de um brutal distanciamento crítico em relação à imagem e à representação, Viver no Carnaval, o apaixonado filme de estréia de Daniel Seidl, reflete sobre a crise de forma oposta, problematizando a questão da possibilidade da identificação no cinema meramente convencional, ou de narrativa clássica. Assumidamente autobiográfico e pessoal, Daniel busca um mergulho radical num cinema que busca a expressão como refúgio único em relação à incompletude da vida. Em sua busca pessoal, de forte descarga dramática, resta para Daniel o cinema como fuga da solidão e do abandono. A partir de um casal em crise, Daniel passeia por uma série de referências que nos lembram da crise do intelectual típica dos filmes da segunda fase do cinema novo, especialmente O Desafio. Ao final, em meio a uma exasperação que dialoga com filme anteriores da FAAP (especialmente A Primeira Vida, de Moira Toledo e Flávio Derzorzi), como no início, surge o mar, como símbolo dessa oscilação entre o transidio e o íntimo que tanto invade o filme, em seu cinema da solidão e sua própria fragilidade para superar sua crise pessoal através dele. 

8. Mas há um filme que, de forma absolutamente corajosa, consegue envolver de forma capital o tema da crise, tentando ainda, oferecer algumas respostas. Entre o resgate nostálgico de Na Idade da Imagem e o intimismo autobiográfico de Viver no Carnaval, Uma Folha que Cai, de Ivo Lopes Araújo, transcende seu significado a partir do desejo de não só apontar a existência dessa crise, mas de sugerir alguma alternativa de conciliação, ainda que pressupondo sua fragilidade. No caso de Ivo, a fuga da cidade grande, fotografada de forma opressora mas através de uma música (seja Satie, seja Limite) que insere um distanciamento a esse espaço opressor e já funciona como uma preparação, representa o reencontro com um mundo onírico, quase místico, de suspensão do tempo e da resignificação dos sentidos. A coragem de Ivo está justamente em um cinema que utiliza o narrativo e a tensão do olhar como mero pretexto para um trabalho extremamente sutil e particular de construção de um mundo em suspensão no tempo e da reafirmação da memória. A visão e a firmeza da direção equilibram diversos signos que poderiam cair nos mais desgastados clichês (o velho que relembra seu tempo de menino, a mulher idealizada, o tom idílico meramente romântico, o cinema de fotografia, etc. etc.), simplesmente porque seu retorno desesperado possui um quê de solidão e de refúgio impossível. 

Mas Ivo não é assim tão romântico, ou ainda, Uma Folha que Cai é apenas seu primeiro filme em película. Ou melhor, ao próprio Ivo só lhe resta a memória e a vida opressora na cidade grande. Como parte de um típico cinema contemporâneo, Ivo faz questão de um austero retorno, de um insuportável “o que fazer?”. Como é possível ainda viver ante a necessidade do sonho e a fragilidade da memória? Como conviver com o fato de que a memória é vã, ou com a impossibilidade do retorno? O longo plano seqüência final, com a imobilidade e a decadência do velho personagem, resgata um doloroso mas necessário retorno da atmosfera onírica e contemplativa do filme, quando mesmo a morte e o sangue agora dão lugar ao nada, ao vazio. 

9. Para não dizer que não falei das flores, os destaques do Festival, mais uma vez ressaltando as distorções naturais da confusão de se analisar os filmes dentro de um Festival tão corrido: 

  1. Uma Folha que Cai – Ivo Lopes Araújo (UNESA)
  2. Coisas – Tula Hitagima (USP)
  3. Viver no Carnaval – Daniel Seidl (FAAP)
  4. Na idade da imagem ou projeção nas cavernas – Bruno Safadi (UFF)
  5. WM – Bernardo Ururahy e Juan Pablo González (UFF)
  6. Os Fiéis – Danilo Solferini (FAAP)
  7. O Princípio Feminino do Sol – Núcleo Patrícia Bárbara (UFF)
  8. Inciso XXI – Eduardo Barioni (FAAP)
  9. “Dá-dos” – Pedro Palhares Fernandes (FAAP)
  10. Tabaco – Henrique Rodriguez (FAAP)

 

Marcelo Ikeda

(12/06/2003)

 

valbul2a.gif (530 bytes)  S I T E       C  L  A  Q  U  E  T  E

valbul2a.gif (530 bytes)  FILMES EM 2002                                  valbul2a.gif (530 bytes)  FILMES EM 2003

valbul2a.gif (530 bytes) Ensaios valbul2a.gif (530 bytes) Festivais

valbul2a.gif (530 bytes) Filmes Antigos

valbul2a.gif (530 bytes) Filmes de 1999 valbul2a.gif (530 bytes) Filmes de 2000 valbul2a.gif (530 bytes) Filmes em 2001

 

Hosted by www.Geocities.ws

1