V - ECA / USP |
Se a grande revelação do Festival foram os curtas da considerada playboyzinha e ingênua FAAP, os curtas da USP foram a maior decepção exatamente pelo motivo inverso. Escola conhecida por seus exercícios de linguagem, pelo conteúdo pseudo-intelectualizante, a USP mostrou filmes ingênuos e fracassou em quase tudo o que apresentou. O Troféu, embora realizado com certa decência, é um dos piores do Festival. Uma vovozinha quer ler o seu livro, mas não consegue por causa do barulho dos meninos que jogam bola na rua. Quando cai uma bola dentro de sua casa, quebrando a janela, ela guarda a bola como um troféu: vemos uma estante com dezenas de bolas. Há um trabalho com algum interesse pelo uso do extracampo, e uma sutil referência à janela como caminho para a realidade. Os meninos jogando bola nunca são mostrados, apenas ouvimos suas vozes, o que é um recurso com algum interesse. Ainda assim a piada é fraca, e o filme não se salva. Há um erro de produção assustador: a bola de futebol faz um buraco na vidraça no tamanho no máximo de uma bola de tênis. A janela da vovó não é puramente de vidro, mas dividida por madeiras verticais e horizontais que impediriam a passagem de uma bola daquele tamanho. Esse erro é apresentado no filme de forma tão grosseira que destrói completamente qualquer chance de o filme funcionar. Gênesis 22 é o exemplo de filme do chamado Dogma-Feijoada que os alunos da USP inventaram por falta do que fazer. Recomenda-se aos professores da casa que passem mais trabalho de casa para seus aluninhos, para que eles não fiquem desocupados para pensar abobrinha. Importação oportunista do Dogma dinamarquês, o "Dogma-Feijoada" ou coisa parecida tenta resgatar o problema dos negros e das minorias, mas o faz de uma forma tão inconsistente e rudimentar que cai na caricatura burlesca. Gênesis 22 tem alguns trejeitos de câmera que dão um certo interesse, mas é curto demais para mostrar qualquer coisa. Movimento é outro filme que dispensa comentários. Verborrágico, homem e mulher discutem relacionamento numa "arquibancada" e fazem metáforas usando uma flor. Fraco. O Mundo Segundo Sílvio Luiz foi um dos filmes mais elogiados do Festival, recebendo um prêmio do júri e o importante prêmio de melhor curta da ABD. Baseado num improviso do apresentador Sílvio Luiz, o filme possui uma sensibilidade bastante particular. Extraindo de seus fotogramas imagens aparentemente desconexas como um garoto pegando ônibus, uma bola num estádio de futebol, uma misteriosa mala, e um tocador de fole (??!!), Sílvio Luiz resgata com a voz um conflito constante em que se baseia toda a formação de um sentido do filme. De uma certa forma, Francioli promove um diálogo com o cinema marginal de forma puramente saudosista, muito influenciado pelo cinema de um Reichenbach. Evitando o didatismo e ao mesmo tempo sem buscar o pseudo-experimentalismo formalista, Sílvio Luiz é uma demonstração de uma visão de mundo sempre associada com uma generosidade. Três Tigres Tristes é um denso exercício de linguagem que questiona a causalidade da narrativa clássica. Filme quase experimental, essencialmente psicológico, possui alguns exageros, como um tigre que aparece no meio de uma estrada. Nas suas descontinuidades, lembra a estética de Através da Janela. Filme difícil que, entretanto, tem alguns bons momentos. Muito pouco, entretanto, para o que se espera de uma Universidade com a tradição da USP. Sem dúvida, a grande decepção desse Festival. |
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