II - F A A P

A FAAP é conhecida aqui no Rio como o local onde os playboyzinhos paulistas vão estudar cinema. Essa impressão rapidamente se desfez. A escola apresentou o maior número de curtas em competição e foi o grande destaque coletivo. A diversidade foi bastante grande, do lixo comercial ao filme experimental. Claro que a FAAP apresentou filmes muito ruins como Não vai ser fácil, exercício adolescente extremamente fútil onde nada funciona. Mesmo o tom de pastiche vai por água abaixo quando um tom absurdamente melodramático entra em cena com uma suposta crítica social (o assaltante é um pobre homem que quer dinheiro para comida). Montagem fraca, direção péssima, nenhuma noção de dramaturgia.

Os únicos dois filmes vaiados no Festival pelo público foram da escola, e curiosamente da mesma diretora, Íris Bertoni. Na verdade, as vaias foram um pouco exageradas, mas de fato, os filmes não fazem o estilo dos adolescentes que compunham o público. São filmes que exploram com alguma perspectiva metalinguística o papel da arte, mas o fazem de uma forma excessivamente didática e arcaizante que irritou o público. A voz em over em O que é meu no mundo? e a coreografia estilizada em Ao ser tocado foram fruto do sarcasmo do público.

O que incomoda mais em O que é meu no mundo?, filme que muitos elegeram injustamente como o pior do festival, é o caráter extremamente ideológico do filme. Um bando de crianças brinca nas ruas, com uma liberdade que, entretanto, não é canalizada produtivamente. As crianças estão perdidas, sem uma orientação. Quando entram pelos portões da FAAP, elas descobrem um novo mundo, resgatam o papel da arte e modificam suas vidas. A FAAP, própria do estilo arcaizante da diretora, é apresentada num plano geral, com suas esguias colunas como se fosse um templo grego. No interior da FAAP, as crianças finalmente resgatam a verdade e a arte autêntica. Em seguida, as crianças desenham e pintam num extenso painel estendido no chão. Filme didático, em que talvez a intenção da autora seja exibir para as próprias crianças com um caráter educativo. Ainda assim deve ser questionada a inscrição de um filme desse tipo em um festival de cinema. Ainda assim, o filme tem dois momentos curiosos. O primeiro é uma belíssima animação. O segundo é que quando pensamos que (finalmente para muitos) o filme acabaria, há um corte para as crianças assistindo ao próprio filme, o que insere uma clara perspectiva metalinguística, e que ilustra a função didática que o próprio filme se pretende.

Filmes mais comerciais, numa estética do cinema clássico narrativo também estiveram presentes no Festival, e alguns foram da FAAP. Esses filmes se preocupam exclusivamente em contar uma boa história de modo eficiente, visando um contato com o público, e sem uma proposta de experimentação formal. São longas reduzidos. Um exemplo é Os Noivos, adaptação de um conto de Nelson Rodrigues, que obviamente fracassa em recuperar uma atmosfera essencialmente rodrigueana. No entanto, é um filme correto, que conta sem sustos sua história, que trava um bom contato com o público. Em termos de cinema, o filme é bem convencional. Não existe uma noção de montagem e especialmente de enquadramento para criar uma história que realmente incomode o espectador. O filme também é mal trabalhado em termos de ponto de vista.

Outro filme nessa linha mais comercial é Meu sangue ferve por você. Filme bem-humorado que segue uma lógica altamente referencial: seu grande humor não vem exatamente pelas piadas que surgem na diegese, mas pelo paralelo que fazemos com o gênero a que o filme caricaturalmente se refere. Teoricamente, o filme seria um melodrama: é a história de uma garota que sofre maus bocados quando seu pai arruma uma nova esposa. Ela e suas filhas tratam a protagonista como uma empregada. Mas tudo se transforma quando a "garota", a protagonista do filme, é representada por um homem muito mal disfarçado de mulher. O travestismo hoje é super fashion, mesmo com um público que claramente prefere um cinema mais convencional.O trunfo do filme é seu humor leve, que nunca cai no vulgar, mas sempre apoiado pela estilização do mau gosto, do brega. O clímax do filme é a existência de um concurso. As "peruas" vão extremamente fantasiadas, já que o primeiro lugar seria uma consagração. A pobre "garota" terá que ficar de fora porque mal teve tempo de preparar o seu vestido. Daí segue uma clara descontinuidade, que une a estética do mau gosto, o discurso essencialmente referencial do cinema contemporâneo e uma linguagem esquizóide tipicamente pós-moderna: surge uma fada que satisfaz o desejo da "garota". Numa clara referência a Cinderela, seu formidável vestidinho, entretanto, desaparecerá à meia-noite. Como esperado, um homem irá se apaixonar pela garota, e quererá encontrá-la a qualquer custo, mas ela terá que sair por causa do horário. O homem é o galã dos galãs, jurado do concurso, onde obviamente a garota tira primeiro lugar, e suas novas irmãs são obviamente execradas. O galã procurará sua cinderela exaustivamente, tendo como sinal uma luva (não mais o sapatinho...) que ela deixara para ele. Ele a encontra no salão de cabeleireira onde a garota trabalhava quase como escrava de suas irmãs.Narrado com eficiência, no filme ainda se destaca o importante trabalho de figurino, maquiagem e cenografia, que incorporam o componente acentuadamente brega e exagerado do filme.

Mescla entre o filme narrativo e o filme-piada está Linha Burra. Todo o filme é baseado em um paralelo: a tensão do cotidiano de um casal, especialmente suas brigas, é comparado à tensão de um jogo de futebol entre Guarani e Ponte Preta (??!!). O diretor (obviamente campineiro) faz esse paralelo de forma ingênua e pouco inspirada. O filme resvala no mau gosto (sua namorada se torna o juiz que o expulsa da partida) e numa imaturidade pré-adolescente.

Mesmo a elitista FAAP também apresentou filmes sociais. Isto é, um filme social. É Cativeiro, que inclusive ganhou um prêmio do júri. O filme explora o drama de um prisioneiro submetido a tortura. Mas a originalidade do filme é que ele evita o discurso e a mão excessivamente pesada. Cai no humor e na habilidade técnica: o prisioneiro é um ventilador (??!!). Com isso, evita a falta de perspectiva sociológica que coroa esse tipo de produção (ver as restrições aos filmes sociais da UFF, por exemplo). No entanto, tem um tratamento ingênuo e de pouca maturidade. Mas é claramente original, e com uma certa ousadia. A animação, que comanda os movimentos do ventilador, é eficiente. A combinação de elementos completamente diversos, e de um objeto totalmente deslocado de seu contexto original é quase pós-moderna. Quase porque no fundo o filme possui uma mensagem.

Um dos destaques do Festival é Cavalheiros, filme que foge dos rótulos convencionais. Embora se baseie numa fórmula narrativa que objetiva um certo contato com o público, é um filme de proposta essencialmente artística. Todo o filme se passa num banheiro, onde duas esferas paralelas se realizam. Enquanto vemos as imagens do cotidiano movimento dentro de um banheiro de um bar, a trilha sonora nos mostra o diálogo de dois policiais, tentando capturar um criminoso que supostamente estaria no bar. As relações entre as duas histórias, que no fundo trabalham com uma criativa relação entre som e imagem são engenhosas. Mas o trunfo do filme é o choque que causa no espectador. As imagens do banheiro mostram cenas repugnantes: um bêbado vomitando, um homem defecando que não encontra papel higiênico, restos de cigarro que entopem o mictório, dois homens apostando implicitamente quem mija mais, um bando de travestis que invadem o banheiro. Por isso, o filme promove um diálogo com o "cinema marginal" brasileiro, retratando o abjeto, seja no vômito, no mijo ou no cocô. O vulgar é estilizado numa ruptura com a modernidade. O filme também é em certo sentido uma descontrução do sentido de gênero, própria das narrativas contemporêneas, já que em tese, seria um filme policial (enfatizado pela trilha sonora). No final do filme, as duas esferas paralelas se unem, e o filme se fecha. A meu ver, o filme seria ainda mais coerente se sua estética fosse tão suja quanto o banheiro. Faltam câmeras na mão, fotografia suja, cortes abruptos. No entanto, é inusitado demais esperar uma estética virulenta dos filmes da FAAP, que tanto priza pelo acabamento.

Um bom filme, embora se estenda demais e não possua um final com força para sintetizar a história, é Nada Lhe Faltará. Quase no formato dos filmes americanos da chamada "geração X", é um filme que mostra a falta de perspectivas, o tédio, o lugar-comum de pessoas de classe média sem os tradicionais didatismos. Entretanto, ele se baseia no drama de jovens de 20 anos, o que é bastante coerente tendo sido realizado por universitários. É leve, mas não propriamente bem-humorado. Ao final do filme, a desilusão e a inércia são claramente perceptíveis. Ele pode ser dividido em três partes: o interior do ônibus, o interior do apartamento, a barraca de cachorro-quente. No primeiro, o filme mostra pessoas em silêncio no interior de um ônibus. Embora caladas, uma voz em over revela o que estão pensando, como no início de Asas do Desejo. Um jovem pensa em dar em cima de uma garota, mas desiste. No segundo, uma jovem meio porra-loca, que mora num quarto cujas paredes são forradas de discos, transa com o namorado, mas não sente nenhum prazer. Pratica o ato quase por inércia. No quarto ao lado, um intelectualóide, lotado de livros, não consegue se concentrar em suas leituras por causa do barulho do quarto ao lado. A falta de perspectivas é geral. No terceiro, a garota vai comer um cachorro-quente. Perto há um louco, ou talvez bêbado, que fala frases com algum sentido, mas desordenadamente. Seria um louco ou um homem livre? Com alguma sensibilidade, em seus melhores momentos o filme dialoga com uma São Paulo cinzenta e sem rumos, calcado no vazio do mundo dos jovens, evitando o esquematismo.

A grande surpresa da Festival, entretanto, foi o surgimento de filmes que trabalham com elementos de linguagem de uma forma bastante bem resolvida, completamente atípicos da produção da escola. São três filmes extremamente intrigantes na forma e no conteúdo: Identidade, Três Minutos de Imponderabilidade, e Ardil.

Identidade explora o tema da crise da personalidade na sociedade contemporânea. Um funcionário que entrega documentos de identidade acaba fundindo a sua identidade com as de pessoas aleatórias. O grande mérito do filme é que essa preocupação é feita de forma essencialmente metalinguística. A crise de identidade é no fundo o espelho de uma crise de realismo, e o filme de Fernandes dialoga com a realidade confrontada com as alucinações do funcionário. Uma simples representação da identidade (a carteira de identidade) se torna o símbolo de uma verdadeira nova identidade, como já foi tratado em Rossellini em A Máquina de Matar os Maus. Sem nenhuma referência ao filme, o diretor trabalha os temas de alienação e crise na sociedade de hoje mesclando o tratamento dos elementos de linguagem.

Três Minutos de Imponderabilidade Mais um Epílogo nega o tratamento da causalidade tão essencial à linguagem clássica, coroando o absurdo que rege nosso simples cotidiano. Filme regido pela lógica do absurdo, em tons surreais, com claras descontinuidades, possui alguns cacoetes desse tipo de cinema, diaogando em parte com alguns trejeitos do cinema independente norte-americano dos anos 80. Ainda assim convence com uma linguagem prosaica que sempre atrai o interesse do espectador e uma claríssima noção de ritmo. O epílogo resume perfeitamente suas intenções. A importância do corredor, o encontro despropositado, a lógica do absurdo e do exagero non-sense estão claramente presentes. Uma pessoa em um corredor olha para dentro de um cômodo, mostrando-se surpresa. Uma a uma, uma série de pessoas chegam e se põem a observar. Mas não sabemos o quê. Câmera parada, mostrando a inércia absurda desse mundo, o filme inteligentemente cria uma expectativa frustrada negando a oferecer o tão esperado contracampo da narrativa clássica. Não chega a ser absolutamente original, mas o filme é reinado por uma emancipação de um sentido tradicional de linguagem que em seus melhores momentos surpreende.

Ardil é o mais psicológico dos três, e o grande destaque da produção da FAAP. Feito por uma linguagem austera, que culmina com a quase ausência de diálogos e o uso expressivo da fotografia em p&b, Ardil começa com um belíssimo trabalho de plano-seqüência. Um homem misterioso sobe lances de escadas com uma maleta. A câmera acompanha os degraus, sem corte. A música é outro recurso essencial, enfatizando o suspense. Cada degrau é reforçado com uma nota grave e misteriosa. A fotografia tem nesse início um belo tratamento neo-expressionista. Abrindo uma porta, a câmera baixa mostra a cuidadosa noção de enquadramento do diretor. Encontra um velho, talvez seu pai, talvez seu próprio futuro, e sentados num sofá, segue-se para a memória do velho. Filme ligado com a irreversibilidade do passado, num tom suavemente pessimista, no fundo aborda uma tentativa de resgate frustrada. Na organicidade de seus elementos, no conjunto de tratamento entre o plano-seqüência e a montagem, o suspense do presente imediato e as lembranças do distante, o eterno e o etéreo, a fotografia e o enquadramento, a música e o silêncio, Ardil é um exercício austero num filme essencialmente psicológico e que obriga o espectador a fugir do contexto do narrativo para apreender sua sensibilidade. O filme surpreende porque foge dos cacoetes dos iniciantes, aventurando-se sem medo de errar num campo mais árduo, evitando o velho tom de comédia e demais recursos para conquistar o público, optando por uma expressão inegavelmente autoral.

Esse formidável ano, entretanto, ainda não é o suficiente para dizermos que a qualidade dos filmes da FAAP é inquestionável, dado o péssimo retrospecto dos anos anteriores. Talvez seja um ano atípico, com um bom conjunto de realizadores. Resta a expectativa para o próximo ano. Mas a importância desses curtas não pode ser subestimada. A FAAP foi o grande destaque coletivo do Festival, finalmente unindo sua tradicional eficiência nos itens técnicos com bons roteiros e boas propostas.

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