A NOSTALGIA E O PATÉTICO EM A TERCEIRA MORTE DE JOAQUIM BOLÍVAR : UM DISCURSO ULTRAPASSADO |
Um ponto praticamente comum nas artes desse fim de século é a impossibilidade de se fazer obras políticas. Paulatinamente, os cineastas engajados procuraram fazer obras mais pessoais e abandonaram o assunto. Do final dos anos 80 para cá, o cenário em termos de cinema é a desconstrução pós-moderna de um sentido, o que vai totalmente contra qualquer processo político. Simplesmente, os políticos estão perdendo a legitimidade, o que em última instância está sendo utilizado de forma proveitosa por quem se mantém no poder. Na verdade, como diria Visconti, as coisas mudaram para continuarem como estão. Vez ou outra surge um filme social, como Começa Hoje, ou Meu Nome é Joe, mas são filmes sociais, e não filmes políticos. No cinema brasileiro, então, o cinema político era a primeira referência do cinema novo, desde Terra em Transe a Os Fuzis. Inspirado em La Terra Trema, já o pré-cinema novo falava das minorias lutando contra a opressão das classes mais privilegiadas. Assim o foi em Barravento, A Grande Feira, Bahia de Todos os Santos. Eles não usam Black Tie, nos anos 80, talvez tenha sido o último grande filme político brasileiro. Flávio Cândido retoma com coragem, portanto, um tema esquecido de todos. Joaquim Bolívar é um comunista que chega a uma cidadezinha no fim do mundo para resistir contra as arbitrariedades de um general/coronel (brilhantemente interpretado por Othon Bastos), que quer explodir a cidade para construir uma represa que lhe trará dinheiro. O drama dos agricultores, que são obrigados a aceitar uma ninharia do coronel, temendo a indenização ainda menor dada pelo governo, como representante das minorias exploradas, está presente no filme. Entretanto, Cândido não quer ser melodramático, muito menos didático. Seu filme tem um tom leve e bem-humorado que oscila entre o clima nostálgico e a caricatura burlesca. Se Cândido opta por evitar o moralismo simplório, ele acaba tendo um posicionamento claro no filme, que tende ao politicamente correto. Já no começo do filme, temos uma frase de Marx, que diz que o homem faz a história, mas o faz mal. Ao longo do filme, o himo da Internacional Socialista toca umas setecentas vezes. O filme retoma temas antigos de uma perspectiva completamente desgastada e retrógrada. O comunista que chega à cidadezinha como um barbeiro é mau visto pelas beatas locais e acaba por se isolar. Obviamente, o povo, a quem o comunista quer defender, se isola dele. Cândido quer que tenhamos uma profunda simpatia pelo comunista, mas no fundo ele o trata como um pateta, que luta por uma causa perdida. O filme tem uma certa cara de comédia italiana, porque todos os seus personagens são uma grande caricatura, principalmente o próprio coronel. A polaridade aumenta porque as autoridades pouco se importam com o destino da cidadezinha. O grande ridículo do filme é a presença do governador que nunca chega na cidade, o que é a mostra do governo ausente, da indiferença institucionalizada, mas que intimida tanto a direita quanto a esquerda. Com isso, o filme tem muitas semelhanças a Os Companheiros, filme de Monicelli dos anos 60. Mastroianni era um comunista que chegava a uma cidadezinha e tentava motivar as pessoas e conseguir mais adeptos. Monicelli dava uma dignidade incrível aos seus personegens, e o mais importante: o filme já possuía um claro viés de auto-crítica. Para o professor, era fácil porque ele não se envolvia diretamente, além de ser um estrangeiro que pouco conhecia dos problemas da região. Todo o Godard da metade dos anos 60 para frente inclui uma forte auto-crítica, presente especialmente em A Chinesa. Mas Joaquim Bolívar não: O diretor é comunista demais para criticar a postura de Joaquim. Mesmo em cenas atrapalhadas (como quando espera debaixo de chuva a presença do governador), o ponto de vista de Cândido claramente valoriza a luta incansável do barbeiro. O problema do filme é que Cândido se equilibra fragilmente na idéia de mostrar um bravo comunista tentando resgatar a dignidade do mundo e o absurdo de sua missão, lutando contra um coronel pouco digno de nota numa cidade onde Judas perdeu as botas. No fundo, a história adquire um tom nostálgico, "ai que saudades que eu tenho do tempo em que ainda havia algo por lutar, em que se acreditava em algo". Embora tenha os trejeitos do ridículo da cidadezinha, o filme claramente nos quer passar uma mensagem comunista. O herói é Joaquim, e o bandido é o coronel. Essa perspectiva é levada com muito pouca inspiração por Cândido, que acaba em perspectivas desgastadas, sem uma auto-crítica que já nos anos 60 se fazia presente, e com uma condescendência infantil e retroativa. A prova disso é o desastrado final, em que aparece o pavilhão nacional e se ouve o hino da bandeira. Claro, com um clara ironia, mas um desejo profundo que as coisas fossem diferentes. Essa imagem é o retrato perfeito do equilíbrio impossível em que o filme procura se adequar. Para mediar essa história antiga, o filme usa pelo menos três recursos do cinema moderninho, o que permite situá-lo como um filme desse fim de século. O primeiro é a presença da metalinguagem, quando uma equipe de filmagens aparece na cidadezinha. O tom nostálgico e de "crença nos valores da nação" atinge seu limite quando o cineasta é ninguém menos que Glauber Rocha. Cacoete moderninho claramente desnecessário, o cinema de Glauber aparece como uma grande caricatura, e quase exposto ao ridículo pelo jeito às vezes naif de Cândido (p ex, a filmagem da discussão entre padre e comunista). O segundo é a presença das tais três vidas do protagonista, pela sua presença num terreiro de umbanda. Recurso mais que desnecessário, justifica-se no filme pela referência à miscigenação como o específico brasileiro. Para Cândido, o autêntico comunista brasileiro é macumbeiro sim senhor. O terceiro é a falta de uma causalidade integral. Não se sabe quem mandou Joaquim para lá, nem por exemplo como sua mãe chega lá naquele fim de mundo. Cândido tem três histórias para contar. Ele arma seu roteiro, evitando que os dois pontos de virada se deêm exatamente nas viradas da segunda e da terceira história. Com isso, procura o óbvio, dilatando a primeira história para fazer o espectador se identificar melhor com os personagens e evitar probelmas com as repetições. O primeiro ponto de virada, dessa forma, ocorre quando descobrimos que o barbeiro é comunista. O segundo acontece quando dinamitam a cidade. Esse recurso cria enormes dificuldades para Cândido avançar da primeira para a segunda história, o que ocorre com uma grande descontinuidade, completamente desnecessária e anticlimática. O próprio início do filme, em sua apresentação, já nos mostrara cenas primordiais do desenvolvimento da história. Recurso tipicamente moderninho, a repetição nada contribui para uma perspectiva fresca sobre os eventos. O roteiro tem inúmeros problemas, e fica claro que o roteiro precisva ter vários outros tratamentos para que ficasse mais coeso. Sua idéia original até que convence. O filme se passa em três períodos: 64, 79 e dias de hoje. A efervecência do golpe de 64 é vista no filme como um pano de fundo. A falência das perspectivas claramente se vê em 79 (a barbearia vazia, as pessoas saindo da cidade, ...), e nos dias de hoje, não existem mais ideais, o importante é garantir o seu. No último episódio, Joaquim Bolívar se torna o engenheiro que vai tocar a obra. Esse é o máximo de crítica que Cândido permite a seu filme. No fundo, uma crítica tola: "vejamos nós a que ponto chegou nossa falência de perspectivas". Nem precisava falar, mas é como se desse o exemplo de FHC, antigo comunista, agora neo-liberal. Joaquim Bolívar portanto é a cara do Brasil, e aquela cidadezinha ridícula é um microcosmo da própria nação brasileira, atacada por uma oligarquia decadente, que espera subserviente notícias da capital (e num mundo globalizado, por que não dizer que a capital são os esteites?). A falta de novas perspectivas de Cândido para falar sobre o tema é apenas o reflexo da incapacidade de articulação intelectual da esquerda brasileira. O discurso de Bolívar ao fim do filme sobre emprego é de um amadorismo em termos de economia totalmente inaceitável. Com isso, Cândido, embora esbarre numa certa autocrítica quando fala do ridículo da cidade e de seus personagens, cai no esquematismo retrógrado, demonstrado pela citação a Marx que abre o filme. Como discurso, Joaquim Bolívar é a prova que o pensamento de esquerda tradicional não pode mais existir. O discurso agora deve ser outro para existir. Marcelo Ikeda. |