CONFLITO DE CULTURAS EM "AS TRÊS ESTAÇÕES" |
O vencedor do Festival de Sundance de 1999 definitivamente foge dos cacoetes do cinema independente norte-americano: não é um filme que fala de drogas, do mundo pop dos jovenzinhos americanos, nem que usa a banalização da violência. Pelo contrário, As Três Estações (Three Seasons) é (sic) dirigido por um vietnamita que veio para os Estados Unidos com dois anos de idade, Tony Bui, de apenas 26 anos. Seu filme de estréia é falado quse todo na língua local, o que o torna ainda mais distante da platéia americana. E ao contrário do pseudo-cinema independente, coroado em Sundance, não quer falar de um processo de destruição, mas essencialmente de construção. Isso por si só já nos revela claramente o estado de desmantelamento do dito cinema independente americano. Meu argumento aqui será expor uma clara divisão existente no filme, que se origina de uma polaridade própria da essência do diretor. As Três Estações é uma tentativa de um precário equilíbrio entre os conceitos do recente cinema oriental e da narrativa americana. Esse equilíbrio agradou a muita gente, mas na verdade é um meio termo que insere no filme uma série de dificuldades, para não dizer incoerências. Em termos gerais, o filme mescla três histórias no Vietnã. Na primeira, uma colhedora de lótus brancos encontra seu solitário chefe, que preferira o retiro por causa de uma deformação facial em decorrência da lepra. O contato foi possível pelo interesse em uma música cantada pela menina. Ela o ajuda a lidar melhor com suas dificuldades, escrevendo as poesias que seu chefe lhe dita. No começo, a simples menina chega à plantação, e temos contato com a sua rotina severa. Na plantação, as mulheres, bem mais velhas, cantam sempre a mesma música. Quando a menina tenta cantar uma música diferente, ela é recriminada. A poesia une patrão e criada, mas a morte chega ao homem, justamente quando ele encontrava seu equilíbrio. Na segunda, um motorista (o termo é difícil porque ele tem uma espécie de táxi que se parece com uma bicicleta, porque é movida a esforço diretamente humano, e não a motor) se apaixona por uma prostituta. No começo, vemos seu esforço em subir uma ladeira com a bicicleta. Ele leva a prostituta para a entrada de um hotel para turistas. Espera todo o dia na porta do hotel para reencontrá-la, o que se repete diariamente. Quando ganha uma corrida de veículos, ele gasta o seu dinheiro com uma noite com a mulher. Mas não fazem amor. Ele se limita a observá-la dormir. Num dia, ela é humilhada por um de seus clientes, e pelo que parece, é expulsa do hotel. O ciclista vai até a casa da prostituta. Numa cena muito poética, ele limpa o cheiro de perfume que tem no corpo dela, deixando-lhe inclusive marcas no corpo. (A cena se justifica porque no começo um companheiro de profissão do ciclista diz que as pessoas do hotel têm um cheiro diferente das demais pessoas, porque provavelmente as toalhas devem ser perfumadas...) Na terceira, um garoto vende bugigangas nas ruas. Encontra no bar um turista nostálgico (Harvey Keitel), que sabemos ser um veterano de guerra que passa os dias olhando para a porta de um restaurante. O garoto perde a sua maleta porque cochila no bar, sob o efeito de uma bebida alcoólica, e ele acredita que tenha sido roubado pelo turista, e passa a procurá-lo. Seu pai diz que ele só pode voltar para casa se trouxer a maleta. Quando ele finalmente acha o turista, a situação é esclarecida, mas o garoto não vê sua maleta de volta. O turista se apieda do garoto, mas não o ajuda. Ele está mais preocupado em seu encontro com sua filha, fruto de um caso da época da guerra. No encontro, ele diz que quer reparar um erro do passado. O menino finalmente encontra sua maleta, roubada por um turista arrogante, e ainda encontra uma menina de sua idade que também vende objetos pelas ruas da cidade. Eles prosseguem juntos. Quase todos os críticos identificaram prontamente nessas histórias uma estética neo-realista. O filme é uma produção independente, que fala com sensibilidade sobre os problemas de uma faixa da população mais pobre, especialmente nos casos do ciclista e do menino que vive nas ruas. Entretanto, a meu ver, essa comparação é um tanto equivocada. Em várias ocasiões, o filme se esquiva de um discurso realista, optando por um tom simbólico e sugestivo próprio do cinema oriental. Isso é mais claramente observado na primeira história. O objetivo do filme não é propriamente fazer um relato em tons semi-documentais da situação vietnamita, mas explorar a poesia que surge do contato entre seres humanos um tanto diferentes. Isso é bastante explícito no final do filme. Há uma sequência em que o ciclista e a prostituta passeiam por um campo de flores. As flores que caem das árvores, espelhando o perfume do mundo comum que não precisa ser fabricado nas toalhas dos hotéis, são um componente que claramente afasta o filme de uma estética realista. Da mesma forma, o fato ocorre com os encontros da menina com seu chefe. O filme não se preocupa em trilhar o caminho que a menina faz para voltar a encontrar seu chefe, ou se ela deixa de trabalhar no dia seguinte para à noite escrever as poesias. Há uma nítida descontinuidade que separa o campo de lótus da casa de seu chefe, e o caminho da menina entre esses dois ambientes é descontínuo, o que radicalmente se afasta de uma perspectiva realista. Por um lado, As Três Estações é um filme tipicamente oriental porque explora uma conhecida polaridade desse cinema, existente já em Ozu e Mizoguchi: um típico conflito entre tradição e modernidade. No entanto, Bui opta por um discurso conservador. Ele claramente opta pelos valores tradicionais, e praticamente nega a modernidade. Com isso, fere o que de mais significativo existe no cinema oriental. Ainda assim, ele busca um equilíbrio, dizendo que mesmo no mundo de hoje, ainda é possível existirem os valores tradicionais. No início do filme, o ciclista tenta corajosamente enfrentar a competição dos táxis. Da mesma forma, a vendedora de lótus naturais tenta enfrentar a concorrência das flores artificiais. Esse conflito pode ser visto na própria composição das histórias. A história da menina vendedora de flores possui um tom que mais claramente opta pelo tradicional do que pelo moderno. Porque na verdade um corolário da questão tradição-modernidade é sem dúvidas passado-presente. Por outro lado, As Três Estações é um filme tipicamente americano, porque utiliza a paisagem exótica para compor uma estrutura narrativa e dramática completamente típicas do estilo americano. A composição de histórias paralelas que em algum momento se cruzam não é novidade para o novo cinema americano desde Nashville, como é o caso dos recentes Felicidade, Beleza Americana e Magnólia. Cada história tem um ponto de virada bastante bem definido, e todo o filme tem um discurso social que opta para o politicamente correto. Por isso, o filme em vários pontos toca no melodrama desnecessário. O drama das crianças que vivem nas ruas e a prostituta são quase um lugar-comum. As cenas são estruturadas para que o espectador no fundo se apiede de seus personagens, que nos parecem claramente simpáticos, lineares como o princípio da narrativa americana. Ficamos com pena desses personagens e lutamos por seu sucesso. Seus problemas nos surgem de forma clara. No fundo, é um filme maniqueísta. Ele fala da difícil condição do Vietnã com o único objetivo de nos comover, mas sem que tenhamos um contato orgânico com esse mundo. Esse é um típico caso do "neo-realismo fake" do qual Nenhum a Menos é o caso mais típico. Ele tem uma embalagem neo-realista (se supusermos a influência neo-realista do filme) quando no fundo se revela o contrário: é milimetricamente planejado para comover o espectador no momento certo, mas no fundo é reacionário porque não quer nenhuma transformação daquele mundo, só ratificando a posição dominante. É bom lembrar que esse conflito entre um cinema com um toque oriental permeado por uma estética e um sentido narrativo claramente americanos é explorado pelo próprio filme, o que transparece ainda mais o caso individual do diretor, um vietnamita-americano. Todo o filme é preenchido com o difícil contato dos americanos com os nativos. A prostituta quer ter uma vida digna freqüentando os hotéis de luxo onde só ficam os turistas, mas só encontra a humilhação. O ex-soldado quer fazer um ajuste de contas com seu passado, reparando um antigo erro, mas não percebe como está afastado da realidade do país (p. ex. não possui amigos, não sabe falar a língua, ...). O diretor conclui de forma conservadora por dois motivos. Em primeiro lugar, ele nega o contato do estrangeiro com o nativo. A solução da prostituta é esquecer a vida de luxo dos turistas e ter o seu próprio modo de vida. No final, quando o ciclista raspa de seu corpo os resíduos de perfume, a separação está clara. Quando o ex-soldado troca simplesmente algumas palavras com sua filha (na verdade, um monólogo), ele fica com sua consciência tranqüila e está pronto para retornar. Ele não toma contato com nenhuma particularidade da população local. (Veja a cena em que ele também se envolve com prostitutas e vê o menino do lado de fora da janela...). Segundo, ele tenta afirmar o antigo modo de vida como se fingisse que o novo não existisse. A vendedora de lótus continua vendendo suas flores como se ignorasse a nova competição. O ciclista procura ignorar os táxis. Mas no entanto, As Três Estações possuem passagens poéticas. Por vezes, o filme possui uma simplicidade ingênua que conquista o espectador. Mas na maioria das vezes, é manipulador, e por isso artificial. O filme é otimista porque permite o contato entre pessoas diferentes, como o chefe e a criada, e o ciclista e a prostituta. Esse contato é regido de uma grande poesia e de um sentido de mundo. Através da solidariedade, as pessoas podem se unir e superar suas dificuldades. No final, o mundo cruel, solitário e cinzento da cidade vietnamita se vê transformado pelas flores, sejam jogadas ao mar ou caídas das árvores. Final sugestivo e esperançoso. P.S.: a cópia exibida no circuito Estação possuiu uma péssima legendagem. Os diálogos na língua local eram legendados em inglês. As legendas são claras, brancas, discretas, na borda inferior da tela. Acima delas, estavam as legendas em português. Por isso, elas acabavam ficando no meio da tela, atrapalhando em muito uma contemplação visual de várias cenas do filme. Com as duas legendas, pudemos comparar a qualidade da legenda americana e a brasileira. A brasileira tem caracteres grandes e mal distribuídos. Marcelo Ikeda. |