|
Houve uma vez dois ver�es � um filme que mereceria ser mais visto. Aqui no Rio de Janeiro, inacreditavelmente, foi exibido nas salas do circuito de arte da rede Esta��o. � um filme destinado ao p�blico adolescente, e que, por sua linguagem e seu humor, apresenta um �timo di�logo com o p�blico das salas de circuito comerciais. Com um or�amento bastante reduzido, filmado em digital, com dois atores desconhecidos, Houve uma vez dois ver�es � bem-sucedido em cativar o p�blico a que se destina. � por isso um filme muito em falta no atual cinema brasileiro, e por isso, mais que necess�rio, uma li��o. Mas n�o se bastando tudo isso, o que em termos do
atual cinema brasileiro significa muito (a recusa do �imp�rio da
fotografia�, o filme para jovem, a inten��o em dialogar com o p�blico
de uma forma inteligente), Houve uma vez dois ver�es � muito mais do que
isso. Para o p�blico jovem que assiste ao filme, � isso: uma divers�o
sadia, simples, engra�ada. Mas para aqueles que, n�o se satisfazendo em
desperdi�ar anos de suas vidas nas salas de proje��o, querem
desesperadamente realizar seu primeiro filme, Houve uma vez dois ver�es
torna-se um tratado pessoal, revela-se uma das estr�ias mais emocionantes
do cinema brasileiro. Para isso, � preciso antes conhecer um pouco sobre
cinema brasileiro, conhecer um pouco sobre a carreira de Jorge Furtado,
conhecer um pouco o que foram os anos oitenta. Conhecer ou ent�o
relembrar. Jorge Furtado, que ganhou fama com a realiza��o de Ilha das
Flores, � o expoente m�ximo de toda uma gera��o de curta-metragistas
da d�cada de 80. Ga�cho, membro da Casa de Cinema de Porto Alegre,
Furtado, como toda essa gera��o, tinha o sonho de se afirmar no cinema
nacional, realizando seus filmes de longa-metragem, sempre com uma vis�o
de cinema que nunca ignorava a necessidade de integra��o com o p�blico.
Havia � e como ainda h� � toda uma esperan�a em torno dessa gera��o
e, em especial, no nome de Jorge Furtado. Mas a turma da Casa de Cinema
foi envelhecendo, e Furtado envolveu-se com publicidade, televis�o, e n�o
conseguiu levar adiante seus projetos de cinema. Veio a Era Collor, que
derrubou o cinema no Brasil; veio o tempo. Hoje o cinema brasileiro � o
mesmo de vinte anos atr�s (para n�o dizer pior...), mas a diferen�a �
que o pessoal da Casa de Cinema � vinte anos mais velho. Dentro desse cen�rio, o que pode significar realizar
um primeiro longa tantos anos ap�s o esperado, e completamente �na ra�a�,
sem uma estrutura no m�nimo razo�vel? O que pode significar ainda come�ar,
mesmo ap�s tanto tempo? O longa de Carlos Gerbase, tamb�m da Casa de
Cinema, Toler�ncia, foi mal compreendido (inclusive por mim, que exagerei
nas cr�ticas) por conta disso. � um projeto cuja estrutura central se
baseia nisso, nessa fissura entre os sonhos da Casa de Cinema de ontem e a
realidade de hoje. Mas enquanto Gerbase se baseou no rancor, o que torna o
longa de estr�ia de Furtado uma obra-prima � a sua generosidade, � a
sua consci�ncia em avaliar toda uma fissura de um projeto de cinema que n�o
p�de se concretizar, � seu olhar maduro e terno em rela��o a um
passado partido e um presente deslocado. N�o � � toa que Furtado escolheu um di�logo com
um cinema americano dos anos oitenta que marcou os adolescentes da �poca,
nem tampouco a refer�ncia expl�cita ao filme de Robert Mulligan, Houve
uma vez um ver�o, sobre um menino que descobre o amor por uma mulher mais
velha. Ou ainda em rela��o aos pr�prios filme ga�chos dos anos
oitenta, como Me Beija, Verdes Anos ou Deu Pra Ti. Pois � exatamente a
partir dessa fissura entre os anos oitenta e hoje, entre estar vinte anos
mais velho ou mais novo, que Furtado espelha um olhar particular sobre sua
condi��o de realizador. Por tr�s do filme adolescente, por tr�s das
doses de humor do roteiro, h� uma latente melancolia em Houve uma vez
dois ver�es, que come�a na reflex�o da voz off do protagonista, que n�o
nos deixa de lembrar o recurso de Love Story, at� por causa da expl�cita
circularidade ao final do filme. H� um sentimento de aus�ncia que domina
os personagens, uma dificuldade de express�o: s�o os di�logos curtos,
� o falso luar que surge na praia, � a completa aus�ncia dos pais. *
*
* O pr�prio enredo do filme nos oferece essas chaves
de leitura. Chico conhece Roza num flipper, e se apaixona por ela ap�s
ter sua �primeira vez�. Ela liga apenas dias mais tarde, avisando que
est� gr�vida e precisa de dinheiro para o aborto. Chico consegue o
dinheiro e, mais tarde, descobre afinal que ela o estava enganando. H� uma seq��ncia que mostra muito do que est� em
jogo no filme. Chico procura por Roza em toda parte, at� que a acha. Ela
devolve o dinheiro por meio de um cheque. Chico pergunta porque ela n�o
se prostitui logo de uma vez, seria mais f�cil. Ela diz que n�o
conseguiria R$ 1.000 numa transa. Chico rasga o cheque. Esta seq��ncia � formid�vel por muitos aspectos,
dif�ceis at� de serem descritos, e por conduzir o filme a um caminho
particular. N�o se trata aqui do arremedo moralista, da li��o de moral
para aprofundar o desprezo a Roza, de uma no��o de �piedade�. Ao
contr�rio, trata-se de uma declara��o de amor. Ou ainda, n�o se trata
da gratuita condena��o � postura de Roza em rela��o ao dinheiro, mas
em como o mesmo dinheiro possui t�o pouco valor em rela��o aos nossos
sonhos. Roza, em resposta, n�o chora, transa com Chico. Pelo dinheiro.
Como se pode fazer um filme sem dinheiro? Mas qual a import�ncia do
dinheiro em rela��o ao sonho de se fazer um filme? Como � poss�vel
para um filme expressar essa fissura entre Chico e Roza? Qual � a
alternativa poss�vel? A alternativa para Furtado � o amor. *
*
* Sim, porque, voltando ao nosso tema inicial, o que
torna Houve uma vez dois ver�es um filme exemplar � a generosidade de
Furtado, � o olhar terno em rela��o a seus desgra�ados personagens. N�o
se trata de vilanizar Roza, de torn�-la um fetiche ou uma mera femme
fatale. Trata-se de mostrar simplesmente como as pessoas podem endurecer
seus cora��es de tal modo a n�o mais ver o outro como pass�vel de
afeto. Por outro lado, mesmo com a certeza de que foi enganado meramente
pelo dinheiro, a ingenuidade da busca de Chico por Roza reflete muito da
pr�pria busca de Furtado pelo seu lugar ao sol. Mesmo diante da consci�ncia
do fim de um sonho, a generosidade em Furtado realizar um filme claramente
menor, sua paix�o em torno de simplesmente realizar o filme que se pode
fazer, � o que torna Houve uma vez dois ver�es desde j� um filme
obrigat�rio, um dos filmes de estr�ia mais promissores e apaixonados do
cinema brasileiro. E a�, surge o brusco final, que muitos interpretaram como um abrupto final feliz. Mas em parte. Ele deve ser visto com a circularidade, com a refer�ncia ao in�cio do filme. Chico, agora, � como o seu pai, que ir� dizer ao filho que aquela � a melhor praia do mundo. � a consci�ncia dos tais vinte anos passados. Chico est� na mesma praia, nada mudou. N�o � � toa que o �ltimo plano do filme � de uma crian�a, filha do casal. Ela olha perdida uma confus�o c�mica que ocorre na praia. Triste final. � genial o fato de o roteiro salientar que o casal receber� dinheiro da indeniza��o at� o filho completar dezoito anos, �depois, a gente se vira�. O que ser� daqui a dezoito, vinte anos? Essa crian�a somos n�s, os desgra�ados de que falei no segundo par�grafo, aqueles que buscam seu lugar ao sol no cinema brasileiro. Houve uma vez dois ver�es � um filme que deve ser revisto daqui a vinte, quarenta anos, para reavaliarmos seu valor. Marcelo Ikeda (28/01/2003) |