Corrida Sem Fim

 

 

Corrida Sem Fim

Two-Lane Blacktop, EUA, 1971

de Monte Hellman

Telecine Emotion, 20 de mar�o de 2004

 

A mat�ria-prima de Two-Lane Blacktop � o cinema. Nada mais. � um filme feito puramente de cinema, das rela��es entre tempo e espa�o. Ou ainda, feito a partir de um deslumbramento ante o ato de filmar e um desencantamento ante o ato de viver.

N�o h� �entrecho�; n�o h� psicologia. Apenas o cinema.

  O piloto e o mec�nico s�o. Gostam de carros; dedicam-se �s suas m�quinas. Est�o em busca de competi��o, seja para conhecer outras m�quinas, seja para ganhar a grana que precisam para sustentar suas vidas. O caminho n�o � mais sinal de encontro, de um acerto de contas, ou de resgate ao passado, como no simb�lico percurso de um Morangos Silvestres. O caminho simplesmente �.

  Warren Oates e a menina est�o em busca de ser. Ele, com seu palavr�rio falso e afetado. Ela, com seu ar como se dominasse a situa��o.

  Mas todo o estilo descritivo e �rido de Monte Hellman n�o consegue deixar de revelar que seu filme � fruto de um irreprim�vel e incontrol�vel sentimento de ser.

  Todo o estilo despojado de Monte Hellman n�o consegue esconder o rigor do enquadramento (o trabalho com as linhas verticais e horizontais), a crucial participa��o da montagem (do pr�prio Hellman). Praticamente n�o h� improviso; todo o estilo relaxado � fruto de marca��o.

  As pessoas v�m e v�o. Nenhuma rela��o consegue se fixar. H� apenas o caminho. O caminho n�o � meio, � fim.

  Mas ainda h� mais, porque, como diz�amos, Two-Lane Blacktop � um filme feito de cinema. H� o final. Mais uma competi��o, como qualquer outra. H� um campo-contracampo dos mais sugestivos, quando o piloto olha, de dentro do carro, para as pessoas l� fora, l� longe. O sinal � dado, a bandeira se agita, mas h� algo estranho. A m�quina n�o mais responde, mas desta vez � a m�quina fora da diegese, a m�quina do filme. O filme se esgar�a; tudo acaba. � um dos finais mais desconcertantes. Toda a fragilidade do universo de Two-Lane Blacktop � t�o intensa que contamina at� os gr�os da pel�cula. O filme � processo f�sico, exibido em suas entranhas, em seu tecido epid�rmico. Como subst�ncia qu�mica, � t�o perene quanto a vida.

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Marcelo Ikeda

(28/03/2004)

 

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