Paris Vive � Noite

 

 

Paris Vive � Noite

Paris Blues, EUA, 1961

De Martin Ritt

Telecine Classic, Quinta-Feira, 29 de abril

 

Martin Ritt parece ser um daqueles casos t�picos de diretor do mainstream que, contratado pelo cinem�o hollywoodiano, conseguiu fazer filmes no in�cio de sua carreira que imprimiam uma certa marca pessoal, mas que acabou n�o tendo uma continuidade ou um desenvolvimento ao longo de sua filmografia, que, ao final, teve uma descendente. De qualquer forma, em O Indomado (Hud, 1963), Ritt fez um dos mais memor�veis filmes do in�cio dos anos sessenta ao apresentar uma certa crise de valores da tradicional sociedade americana. E mais: fez n�o s� no tema em si, mas na apresenta��o de um estilo, numa concep��o criativa do espa�o e tempo, no bel�ssimo uso do cinemascope e do preto-e-branco, na marcante atua��o lac�nica e explosiva de Paul Newman.

  Mas este texto n�o � sobre Hud, nem mesmo sobre os filmes de Martin Ritt (pretendo ver mais uns quatro filmes das d�cadas de 50 e 60, que ser�o exibidos no pr�ximo m�s pelo Telecine, n�o dispon�veis em v�deo), mas ainda n�o parece ser completamente despropositada a compara��o com Hud quando temos � vista este Paris Vive � Noite: filme menor que prenuncia, em menor escala, v�rias das qualidades vistas em Hud e que, o que parece ser mais relevante, aponta para a busca de um estilo pessoal, ainda que dentro dos limites de um cinema cl�ssico hollywoodiano.

*  *  *

Paris Vive � Noite � um filme sobre o ex�lio: dois m�sicos americanos de jazz tocam em uma pequena banda numa boate de Paris, at� que encontram duas turistas tamb�m americanas de f�rias em Paris, e iniciam um romance. Dois casais naturalmente se formam: um �casal branco�, com Ram Bowen (Paul Newman) e Lillian Corning (Jeanne Woodward) e um �casal de negros�, com o saxofonista Eddie Cook (Sidney Poitier) e Connie (Diahann Carroll). O primeiro casal se depara com o tom depressivo de Ram, em que sua instabilidade emocional decorre dos conflitos que a composi��o de uma m�sica traz para sua vida pessoal, e sua dificuldade em ter uma rela��o verdadeiramente �ntima, isto �, n�o passageira. O segundo casal discute a quest�o racial, sendo que ela, ativista, quer retornar para os EUA e lutar por uma vida mais digna, ao passo que ele quer simplesmente continuar em Paris. Ritt desenvolveu ao longo de sua filmografia temas ligados � quest�o racial. Neste filme, no entanto, alguns cr�ticos apontaram a abordagem um tanto conservadora de Ritt, transformando a personagem de Diahann Carroll praticamente em uma professora branca de classe m�dia americana. Ainda, o romance original de Harold Flender, origem do roteiro do filme, descrevia a rela��o de um �nico casal, ambos negros. Para o filme hollywoodiano, foi criado ent�o, um segundo casal, desta vez branco, trazido, pela presen�a de Paul Newman, para o primeiro plano do filme. Os cr�ticos sugeriram que um exame mais contundente das quest�es raciais seria poss�vel se houvesse uma mistura �tnica entre os casais, ao inv�s de um �casal branco� e um �casal negro�. O filme, focado bastante no trabalho do quarteto principal, ainda pode ser visto confrontando-se as rela��es pessoais fora da tela: Paul Newman e Jeanne Woodward eram namorados na �poca, e Sidney Poitier e Diahann Carroll viviam um romance extraconjugal, o que quase os levou a n�o aceitar o papel para o filme. Por fim, o filme conta com uma memor�vel trilha sonora assinada por Duke Ellington (indicado ao Oscar daquele ano), e com a participa��o de Louis Armstrong, especialmente num n�mero musical delirante (�Battle Royal�) dentro da boate, com presen�a marcante da montagem. Al�m da quest�o racial, o filme tamb�m tematiza a quest�o das drogas, no personagem de Serge Reggiani, o que pode ter provocado alguma surpresa em se tratando da Hollywood dos anos 60.

Isto posto, ao que interessa: Paris Blues � um filme sobre o ex�lio. Os dois m�sicos americanos escolhem a subterr�nea boate de Paris como um modo de fuga, uma esp�cie de �porto seguro� ou de ref�gio em rela��o seja a problemas pessoais (a dificuldade de um relacionamento aberto, a confus�o entre o m�sico e o homem) seja a sociais (o racismo). O ref�gio tamb�m tem por base a m�sica (a tentativa de uma composi��o de formato mais cl�ssico por Newman, ou o desejo de ser visto como um �m�sico�, e n�o um �m�sico negro�, no caso de Poitier). Todo o filme, especialmente no caso de Newman, problematiza esta �estabilidade provis�ria�, que vem a ruir com a proximidade de um relacionamento fixo, ou de um futuro.

Mas o trunfo do filme ainda permanece sendo a busca de Ritt por um estilo. Al�m do pleno dom�nio da dire��o nas filmagens em locais fechados e estreitos (grande parte do filme � em interiores), existe uma not�vel incorpora��o dos exteriores, nas filmagens em loca��o, com um olhar para uma Paris fora dos cart�es-postais, por exemplo, dos filmes musicais (� not�vel neste sentido uma seq��ncia de montagem, com os casais passeando distraidamente pelas ruas da cidade). Este estilo, quase como uma prepara��o para o grande salto de Hud, est� expresso numa melancolia que domina todo o filme, num deslocamento deste espa�o f�sico acolhedor (novamente a quest�o do ex�lio), na atua��o geralmente lac�nica e cheia de ru�dos de comunica��o (e express�o) de Paul Newman. O estilo confiante e despojado do casal negro acaba servindo como um contraponto, o que fica claramente expresso no final. Enquanto Newman acaba preso a Paris, ou ainda, preso � sua impossibilidade de se �prender a algo� sen�o � sua pr�pria m�sica (o s�mbolo do artista rom�ntico), Poitier planeja em algumas semanas retornar aos EUA e enfrentar os preconceitos junto a seu eterno amor. Se Poitier embarca ou n�o, inteligentemente o filme deixa em aberto. De qualquer forma, toda a fragilidade da busca desses personagens fica expressa no plano final, uma esp�cie de plano-s�ntese: o cartaz de mais uma temporada de Louis Armstrong � substitu�do pelo de mais uma campanha comercial, assim como a de f�rias das duas turistas americanas chega ao seu esperado fim. Da mesma forma em que cada noite tem o seu fim, e com ela, mais uma apresenta��o do conjunto musical, assim termina o pr�prio filme de Ritt, entre a desesperan�a de Newman e a esperan�a de Poitier, ou ainda, entre a afirma��o do ex�lio e a possibilidade do retorno.

Marcelo Ikeda

30/04/2004

 

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