N�ufrago

 

 

N�ufrago

Cast Away, EUA, 2001

De Robert Zemeckis

Tela Quente, Segunda-Feira, 12 de abril de 2004, 22:30

 

Se a imposi��o de uma f�rmula minimizadora de riscos cada vez mais oprime o cinem�o americano, como ainda � poss�vel existir filmes que busquem um sopro de inspira��o, o cont�gio por um lampejo de vida e de cinema? � poss�vel pelo desejo de cria��o de quem possui uma certa liberdade dentro do sistema, e sabe desafiar as regras sem desviar um mil�metro delas. � essa autoconsci�ncia de sua pr�pria pequenez que se transforma em maturidade, que funciona como ponto de partida para um projeto que apenas nas entrelinhas desvela suas verdadeiras inten��es. Aquele que sabe destrinchar os caminhos observa por tr�s dos clich�s e dos lugares-comuns uma puls�o, um olhar, enfim um desejo pelo cinema que se manifesta mesmo que de forma irregular, esparsa ou que n�o consiga manter-se em sua coer�ncia at� o seu final.

Por tr�s do aprendiz dos malabarismos tecnicistas, das acrobacias ligeiras e da fugacidade das aventuras extraordin�rias, Robert Zemeckis pouco a pouco vem revelando a influ�ncia de seu grande mestre: Steven Spielberg. N�o s� por um resgate ao mundo infantil, ou pelas piruetas dos efeitos especiais, e sim pela necessidade de revelar um projeto de cinema mais pessoal, que usa o cinem�o americano como motiva��o para um exame das motiva��es dos personagens ao se deparar com suas contradi��es, como reflexo da pr�pria sociedade americana. Forrest Gump j� apresentava, com seu tom quase surrealista, v�rios itens dessa nova proposta de cinema de Zemeckis, mas nada que se comparasse � limpidez do estilo de N�ufrago. Sem cacoetes ou subterf�gios que escondiam as inten��es de seus projetos anteriores, Zemeckis dessa vez realiza seu projeto mais pessoal, e ainda que n�o resolva v�rios desafios que o filme imp�e, surpreende pela coragem com que aborda diversas quest�es tem�ticas e de linguagem, e sua espontaneidade em resolv�-las dados os limites que o mainstream exige.

O in�cio de N�ufrago, com o expl�cito merchandising da FedEx e o espelho do comunismo como sin�nimo de atraso, pode gerar a impress�o de que se trata de um filme apolog�tico ao capitalismo, ou simplesmente propagandista. Mas, ao contr�rio, � exatamente a partir dessa primeira impress�o que Zemeckis expressa sua vis�o de cinema. Toda a obsess�o pela efici�ncia como resultado de uma rotina otimizadora de tempo que domina o neur�tico funcion�rio da FedEx ter� sua crise com o acidente que o empurra a um mundo pr�-capitalista, em que as rela��es de mercado perdem completamente o sentido. Isolado numa ilha em que n�o h� consumo, e sim subsist�ncia, o personagem de Tom Hanks se v� reduzido a um semi-animal, tendo que adicionar novos conceitos que n�o sejam os do dia-a-dia de seu sufocante cotidiano. Mas a cr�tica ao mundo da velocidade desenfreada nunca cai num excesso rom�ntico ou unilateral. � esta mesma obsess�o pela efici�ncia, � o acompanhamento do tempo e o n�o-abandono do lado racional e competitivo que s�o a mola mestra da sobreviv�ncia do personagem. Com o tempo, o personagem assume um dom�nio parcial das �leis da natureza� que regem aquele mundo particular: os atalhos para a obten��o de comida, os movimentos da mar� e dos ventos segundo as esta��es do ano, acender uma fogueira e atar cordas, por exemplo. Ou seja, � a partir de um consenso entre raz�o e instinto que o n�ufrago encontra sua sa�da aparentemente imposs�vel.

No retorno � di�ria rotina da cidade grande, N�ufrago se concentra no outro lado do her�i, e se assemelha aos filmes do p�s-guerra que mostram os soldados voltando do campo de batalha (seja um Os Melhores Anos de Nossas Vidas, seja Amargo Regresso). Aqui, o sentido de deslocamento � expresso n�o s� pela express�o corporal de Tom Hanks � cuja semiparalisia � radicalmente oposta ao tom fren�tico que caracterizava sua atua��o na parte inicial do filme, antes do acidente � mas tamb�m pela posi��o do enquadramento, frio e rigoroso (ao contr�rio do in�cio do filme, sempre em constante e irrequieto movimento, em geral com uma steadicam). Mas mais interessante que o dilema da esposa de Hanks (Helen Hunt), agora casada com outro e com uma filha, � o final, em que todo um sentimento de cinema ressurge, j� apresentado pelo bel�ssimo plano inicial (um 180� num cruzamento, de onde surge um caminh�o que far� uma entrega rotineira). Este final retoma tamb�m um dos pilares do filme, em que o destino final (ou uma trajet�ria) n�o se cumpre por uma falha da tecnologia ou por uma papel do tempo. O �nico pacote lacrado, guardado a duras penas pelo n�ufrago, chega a seu destino final, mas n�o consegue ser entregue a seu dono: a fun��o de transmiss�o ou de comunica��o � e ao mesmo tempo n�o � cumprida. Este pacote surge como analogia ao presente dado por Hanks � sua esposa, logo antes de seu embarque no avi�o que sofreu o acidente. Presente cujo conte�do nos permanece desconhecido, assim como o pacote do FedEx. S�mbolos frustrados, exilados de sua fun��o espec�fica, em contraste com os objetos mais valiosos para o n�ufrago em sua ilha deserta: o rel�gio de sua esposa e a bola de v�lei Wilson. Dois presentes que justamente fora de seu ambiente espec�fico perdem completamente sua import�ncia (medir o tempo ou praticar esportes).

 E quando tudo poderia apontar para o reencontro (o final com o casal se abra�ando debaixo de chuva) ou para o desespero alienador (a imposs�vel volta para a rotina da efici�ncia e do tempo m�nimo, ou mesmo o retorno para a ilha deserta, ainda mais improv�vel), Zemeckis opta por um final absolutamente humano e surpreendente. Integrando tempo e espa�o como um desejo de fuga lim�trofe (o interior, a estrada de terra, o cruzamento, o plano final como retorno ao plano inicial), com uma conversa de esquina absolutamente banal (as quatro op��es do cruzamento, a caminhoneira sexy), o personagem de Tom Hanks se v� ante a necessidade de continuar, ou seja, de sobretudo ser. N�o importa se ele continua ou n�o, ou qual das dire��es vem a tomar: o motivo acidental sucumbe � ess�ncia. Um plano m�dio fechado apreende todo o frescor dessa tomada de consci�ncia: � quando N�ufrago revela inequivocamente que, mais que simples anedot�rio, Zemeckis expressa de forma particular sua pr�pria filosofia de viver.

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Marcelo Ikeda

(14/04/2004)

 

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