Narradores de Jav�

 

 

Narradores de Jav�

Brasil, 2003

De Eliane Caff�

Se o primeiro filme de Eliane Caff�, o premiado mas pouco visto Kenoma, j� lan�ava uma cineasta promissora, este Narradores de Jav�, em plena continuidade com seu filme anterior, apenas comprova a tese. Narradores retoma o tradicional tema do nordeste brasileiro para v�-lo sob uma nova �tica: ao contr�rio do drama rural de den�ncia �s condi��es miser�veis da popula��o ou � seca que assola a regi�o, Eliane optou pela simpatia e pelo bom-humor t�picos do nordestino. Ao inv�s de vitimizar seus personagens ou tender para o panflet�rio, Eliane aposta no frescor do olhar desse povo e de sua dignidade em tentar sobreviver com alegria.

Dentro do atual panorama do cinema brasileiro, Eliane Caff� ainda contribui com um filme que tenta combinar os avan�os de linguagem t�picos dos filmes do circuito de arte (seu projeto chegou inclusive a ser premiado em Rotterdam), com uma abordagem mais pr�xima dos filmes populares. Com o carisma e o humor escrachado de seu protagonista (representado de forma brilhante por Jos� Dumont), Narradores tamb�m pode ser visto como influenciado pela chanchada brasileira dos anos 50.

Narradores conta a hist�ria do povoado do vale de Jav�, que est� amea�ado a acabar-se, devido a uma obra do Governo que ir� alagar a regi�o. Com isso, o l�der local quer escrever um livro que possa mostrar �s autoridades a import�ncia �hist�rica e cultural� do vilarejo, defendendo assim sua sobreviv�ncia. Para tanto, chama-se a �nica pessoa do lugar que sabe escrever, o atrapalhado carteiro Ant�nio Bi� (Jos� Dumont), que ouvir� os relatos orais do povo e passar� para o papel.

Com isso, Narradores se debru�a sobre a quest�o da tradi��o oral no interior do pa�s, e como a �hist�ria oficial� na verdade pode ser reinventada segundo a vers�o de cada um dos envolvidos nos fatos. Dessa forma, atrav�s de uma reflex�o sobre a comunica��o (o papel do emissor e do receptor) e sobre a linguagem, Eliane Caff�, ainda que de forma bem humorada, discute os limites da verdade, e a narra��o como processo inventivo de cria��o de uma identidade.

 Ao final, o carteiro fracassa: a hist�ria � imposs�vel de ser contada, j� que existem in�meras �hist�rias�. A cidade certamente ser� alagada. O melanc�lico final, com o mar cobrindo a cidade, n�o deixa de ser uma recupera��o �s avessas do final de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Se agora �o sert�o virou mar�, isso n�o implica nenhuma profecia, ou possibilidade de reden��o. O cinema brasileiro - e o pr�prio Brasil deste novo mil�nio -, est�o l�guas distante da saudosa utopia do cinema novo.

 

Marcelo Ikeda

 

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