Minha Esperan�a � Voc�

 

 

Minha Esperan�a � Voc�

A Child is Waiting, EUA, 1963

De John Cassavetes

Telecine Classic, Ter�a-Feira, 20 de abril de 2003

 

Se, numa entrevista, pergunt�ssemos a Cassavetes quais os dois filmes sobre os quais ele preferiria n�o tecer coment�rios, a resposta provavelmente seria A Big Trouble e este Minha Esperan�a � Voc�. Ap�s a surpreendente repercuss�o de Shadows, seu primeiro longa, filmado em 16mm com enorme limita��o de recursos mas grande liberdade de express�o, praticamente sem roteiro e com muita improvisa��o, Cassavetes foi tentar a sua sorte como diretor no mainstream do cinema americano. Da� surgem dois projetos pouco conhecidos dentro da filmografia de Cassavetes. O primeiro, com a Paramount, foi Too Late Blues (A Can��o da Esperan�a). A ins�pida repercuss�o, tanto de p�blico como de cr�tica, levou ao rompimento de seu contrato com o est�dio. Cassavetes foi dirigir, ent�o, para a United Artists, Minha Esperan�a � Voc�. A experi�ncia, no entanto, foi altamente traum�tica para Cassavetes. O produtor Stanley Kramer conduziu o projeto com m�o de ferro, logo surgindo os atritos com o diretor. Filmado de janeiro a abril de 1962, o filme s� foi lan�ado em 13 de fevereiro do ano seguinte, ap�s Cassavetes ter sido despedido do est�dio, antes mesmo de sua conclus�o. O corte final do filme acabou sendo o do produtor, e sua incisiva intromiss�o no projeto, fez Cassavetes abandonar definitivamente suas inten��es de seguir carreira no cinem�o americano. Trabalhando como ator em diversos filmes, Cassavetes foi reunindo recursos para posteriormente desenvolver projetos mais pessoais, como Faces (1968) e Husbands (1970).

Assim sendo, talvez seja at� mais justo dizer que Minha Esperan�a � Voc� � um filme dirigido por Kramer e Cassavetes, mas nem isto retrataria a natureza dessa participa��o, j� que ambos tinham uma vers�o distinta sobre o projeto, ou seja, n�o houve integra��o como num t�pico projeto de parceria. Apesar de tudo, continua sendo um filme de John Cassavetes, e este texto aponta para algumas das qualidades deste filme praticamente esquecido, e isolado dentro da coerente filmografia deste cineasta norte-americano. 

*   *   *

  Minha Esperan�a � Voc� se passa numa escola para crian�as com defici�ncia mental. O filme oscila entre tr�s pontos-de-vista: o do diretor do instituto, Dr. Clark (Burt Lancaster), o de uma professora rec�m-contratada, Jean Hansen (Judy Garland), e de um dos meninos, Reuben Widdicombe (Bruce Ritchey). J� por essa apresenta��o, pode-se inferir o tom que perpassa o filme, e seu iminente risco em se tornar um drama panflet�rio ou meramente did�tico, semi-institucional sobre a defici�ncia mental, o preconceito da sociedade em geral (a dificuldade de manuten��o do instituto, a desconfian�a em rela��o aos m�todos pedag�gicos, etc.) e mesmo dos pais (a tentativa de �esconder� os filhos, seu fracasso como �procriadores�, etc.). Algumas vezes inevitavelmente o filme tende a isso (a explicita��o dos flashbacks, a vitimiza��o das crian�as, o papel da trilha sonora, etc.) mas em geral destaca-se um esfor�o da dire��o em fugir de um cinema meramente did�tico, seja a n�vel do desenvolvimento dos personagens seja no trabalho com os elementos de linguagem.

Em primeiro lugar, destaca-se um trabalho com os atores, que sempre foi uma das principais vertentes do cinema de Cassavetes. Aqui, mesmo com pontua��es mais t�picas do cinema cl�ssico, sem espa�o para as improvisa��es ou o tom relaxado que tanto marcou seu primeiro filme, Cassavetes imp�e uma s�rie de nuances psicol�gicos que tornam seus personagens muito mais humanos que a m�dia dos personagens do cinem�o americano. O principal ponto parece ser a escolha de Judy Garland para o papel da professora. Quem ir� cuidar das crian�as com defici�ncia mental, ministrando-lhes aulas de m�sica, ser� justamente Garland, a �menina-prod�gio�, que, ainda crian�a, j� participava dos musicais da MGM. Mas uma s�rie de esc�ndalos com maridos e seu suposto envolvimento com drogas estimulou o desenvolvimento de uma crise de depress�o que culminou numa s�ria doen�a f�sica. Nos anos 50, Garland abandonou o cinema, trabalhando mais em teatro, at� surgir em 1961 num papel dram�tico de grande repercuss�o em Julgamento em Nuremberg, dirigido pelo pr�prio Stanley Kramer. A personagem de Garland, que abandonou a escola de m�sica para tentar descobrir seu verdadeiro caminho, acaba tendo n�o raras analogias com os novos rumos que a atriz buscava seguir para a sua carreira. Garland, a menina-prod�gio, enfrenta uma crise: precisa trabalhar para sobreviver. A sobriedade com que Garland abra�a o papel marca uma de suas mais not�veis atua��es.

Outro aspecto que entrela�a o trabalho com os atores e a est�tica do filme � a escolha de Cassavetes em filmar em loca��o, no Pacific State Hospital, em Pamone, California. Todas as crian�as, exceto Reuben, que aparecem no filme s�o internas do instituto. A c�mera tem uma rela��o incrivelmente desenvolta com as crian�as, tendo o filme se beneficiado imensamente do estilo despojado e semidocumental que marca o longa de estr�ia de Cassavetes. As crian�as t�m uma participa��o expressiva em todo o filme, e s�o envolvidas de forma impec�vel por Cassavetes.

Outro ponto fundamental para fugir dos clich�s do didatismo � como Cassavetes trabalha as motiva��es dos personagens, evitando que eles sejam absolutamente planos ou lineares. N�o h� vil�es na hist�ria: ainda que n�o haja consenso, o filme n�o tem receios em problematizar as a��es dos personagens, relativizando suas motiva��es, ainda que estas entrem em choque (a m�e de Reuben, desenvolvida com grande t�cnica por Gena Rowlands, n�o v� o menino tamb�m porque o ama: v�-la semanalmente representaria para o menino uma esp�cie de pris�o, j� que n�o poderia estar com a m�e para sempre; o pai de Reuben n�o quer ver o menino n�o porque seja um monstro, mas porque quer esconder de si mesmo que sua vida talvez possa ser um grande fracasso, etc).

Em torno desse ponto o filme discute algumas quest�es essenciais. O primeiro � o m�todo pedag�gico do Dr. Clark: ao mesmo tempo em que s�o indiscut�veis sua compet�ncia e sua dedica��o pessoal ao dia-a-dia do instituto, o filme o apresenta de forma dura, at� certo ponto radical, impedindo um envolvimento mais �ntimo das professoras com os alunos. Dessa forma, dr. Clark quer que os alunos busquem uma auto-sufici�ncia que muitas vezes eles ainda n�o podem obter por si mesmos. A professora Jean Hansen busca exatamente entender os alunos um a um, entendendo que cada dificuldade � particular, e que cada crian�a precisa antes de tudo de uma base emocional.

Cada crian�a deve buscar por si mesma suas pr�prias respostas ou deve ser abra�ada de forma carinhosa para que tenha um suporte emocional, uma presen�a materna? Os dois m�todos deixam frente a frente uma das principais quest�es de que trata o filme: um confronto entre raz�o e emo��o.

�Se elas provavelmente n�o ir�o se reintegrar � sociedade, por que n�o tentarmos simplesmente deix�-las felizes?� Quando dr. Clark oprime Reuben a se submeter �s regras da institui��o, o diretor o faz assumir responsabilidades, como parte de viver em grupo. Por outro lado, impondo sua vis�o, inibe como um ditador a liberdade de arb�trio da crian�a. Reuben estava certo: sua m�e realmente n�o quer v�-lo. O menino foge, mas volta: o mundo l� fora � t�o opressor ou cruel quanto o mundo do instituto. Algumas cenas depois finalmente seu pai visita o hospital: o encontro � duro; os dois nem se abra�am ou trocam palavras. O menino olha para o pai quase como olha para o diretor. S�o nesses momentos que Minha Esperan�a � Voc� acaba revelando suas verdadeiras inten��es: ser quase um estudo sobre os limites da liberdade e do aprisionamento, da aliena��o e da responsabilidade, ou ainda, do conflito entre a natureza pessoal e social do ser humano.

O universo do instituto nos � apresentado pelos olhos da nova professora: � atrav�s de seu olhar que conhecemos a rotina da escola, os dilemas de Reuben e o m�todo inflex�vel do diretor. Ao final, ela se integra em sua miss�o pedag�gica (os alunos cantam uma can��o, participam da pe�a de teatro). O professor observa de longe. Ela, ao mesmo tempo, imprime seu olhar particular (o pai de Reuben resolve visitar o col�gio). Num desfecho simultaneamente carinhoso e cruel, a professora � agora respons�vel em buscar um novo aluno: um novo universo de traumas e limita��es, um novo desafio. Tirando-o do carro, com direta analogia � primeira seq��ncia do filme, em que o diretor retira Reuben do carro, a professora traz um novo aluno para o interior do internato, provavelmente para nunca mais voltar ao mundo exterior.

 

Marcelo Ikeda

(20/04/2004)

 

 

 

valbul2a.gif (530 bytes)  F E S T I V A L    D O    R I O    2 0 0 3

valbul2a.gif (530 bytes) Ensaios valbul2a.gif (530 bytes) Festivais

valbul2a.gif (530 bytes) Filmes Antigos

valbul2a.gif (530 bytes) Filmes 1999 valbul2a.gif (530 bytes) Filmes 2000

valbul2a.gif (530 bytes) Filmes 2001

valbul2a.gif (530 bytes) Filmes 2002 valbul2a.gif (530 bytes) Filmes 2003 valbul2a.gif (530 bytes) Filmes em 2004

 

Hosted by www.Geocities.ws

1