
|
Jogo Feito Les Jeux Sont Faits, Fran�a, 1947 de Jean Delannoy Casa Fran�a-Brasil, 12 de mar�o de 2004
Nesta semana, em minha aula de ingl�s, ouvi o professor dizer que a linguagem universal n�o era o ingl�s, nem o esperanto, nem a matem�tica: era o amor. Pura bobagem, segundo se pode ver nesse filme de Dellanoy, cujo roteiro � assinado por ningu�m menos que Jean-Paul Sartre. Ingenuidade, porque tamb�m o amor � entre seres humanos, e sofre todas as conting�ncias de nossa vida terrena. Ou ainda, se quisermos amar, temos que estar dispostos a pagar seu pre�o. No filme, duas pessoas morrem, e apenas no c�u descobrem que foram feitos um para o outro. T�m uma nova chance de voltar � vida, caso em vinte e quatro horas consigam se amar sem que haja um sinal de desconfian�a. No c�u, eles s� t�m o amor de um para o outro, mas quando voltam, as coisas s�o mais complicadas. N�o s�o mais invis�veis; h� �os outros�. O principal fator de diferen�a � uma quest�o de classe: a mulher � rica, esposa do chefe das mil�cias; o homem, pobre, lidera um movimento de revolta dos trabalhadores. O recurso do cinema fant�stico era freq�ente no mainstream do cinema franc�s dos anos quarenta, e por isso sempre foi rotulado de escapista ou frugal. Essa foi a acusa��o dos cr�ticos da nouvelle vague, que atacavam furiosamente os filmes de Dellanoy. Hoje, com o tempo, pode-se ver que Dellanoy n�o era t�o ing�nuo. Al�m disso, estava cercado de brilhantes colaboradores. Em O Eterno Retorno, o roteiro era de Jean Cocteau; agora, � de Jean-Paul Sartre, dois intelectuais de esquerda de indiscut�vel talento. Neste, a quest�o da classe social dos protagonistas, a impossibilidade de concilia��o das diferen�as, o final fatalista, desmascaram o vi�s pol�tico dos escritos da Cahiers em rela��o ao cinema de Dellanoy, que precisa ser revisto. A trama de Jogo Feito, em que por amor dois anjos retornam � Terra, lembra a do mais recente Asas do Desejo. Mas enquanto este � metaf�sico; o primeiro � eminentemente pol�tico. Ainda assim, n�o se abandona a psicologia dos personagens. Ao retornar, ambos t�m outras preocupa��es a n�o ser o seu amor: t�m, cada um separadamente, uma esp�cie de d�vida que precisam cumprir. Ela precisa salvar sua irm� de um amante ambicioso. J� ele precisa alertar seus comparsas da necessidade de se adiar o levante para evitar um massacre. A primeira hist�ria parece vinda de um folhetim, ou de um melodrama de Borzage; a segunda, de um jornal estudantil, ou de um filme de Eisenstein. Jogo Feito tamb�m lembra Asas do Desejo na simplicidade como os anjos observam, sem serem vistos, a rotina das pessoas vivas. O estilo de Jogo Feito pode ser observado na seq��ncia em que os dois protagonistas dan�am num caf�, no requinte e na simplicidade dos recursos de encena��o. Pensamos rapidamente em como um filme americano multiplicaria os efeitos de sobreposi��o. Ao mesmo tempo em que os mortos desfilam pela tela praticamente da mesma forma que os vivos (h� uma piada no filme sobre isso, em que um personagem diz que se diferenciam os vivos dos mortos porque os primeiros est�o sempre apressados...), h�, na tal rua em que os mortos se encontram (e que eu me esqueci do nome) um fundo de cen�rio que deixa claro que a cena foi realizada em est�dio, que � uma cena falsa. Ou seja, n�o se precisa mais do que o m�nimo: toda a verossimilhan�a j� est� por defini��o garantida quando se compra o ingresso do cinema. Na tela do cinema, tudo � poss�vel para o espectador. Surgem em seguida ao retorno as quest�es do ego�smo, do ci�me, da dificuldade em se dar conselhos para outrem. E � exatamente a presen�a do outro o motivo da desconfian�a que leva seus respectivos grupos sociais a desconfiarem de suas inten��es. (Estaria ela influenciada por um patife? Estaria ele traindo sus companheiros por dinheiro?) Da� mais e mais se afastam de seus objetivos, at� paradoxalmente chegarem a definitivamente contribuir para seu oposto: a efetiva��o do massacre e a consuma��o do casamento tornaram-se mais pr�ximos com suas desastradas a��es. Como cinema, o filme n�o � de todo desinteressante, apesar de inserido no contexto do cinema mainstream franc�s dos anos quarenta. Mas al�m de toda a eleg�ncia de mise-en-scene n�o s� t�pica do diretor como do modo de produ��o da �poca, h� as duas seq��ncias em que os personagens morrem. Na primeira morte, uma r�pida seq��ncia de montagem, com belo enquadramento, ritmo e precis�o no corte sobrep�em as duas mortes. Na segunda (e definitiva) morte, h� um paralelismo com a primeira, repetindo-se o efeito das seq��ncias de montagem, em refer�ncia aos dois personagens. Ao final, os personagens voltam para seu �descanso eterno�, completamente fracassados, seja como classe (a derrota dos trabalhadores, a derrota dos ricos enganados pelos oportunistas) seja individualmente (por n�o conseguirem comprovar seu amor definitivamente em 24 horas). O caf� onde se encontram est� absolutamente desfigurado, �s tra�as. Outro casal pergunta a eles sobre o tal Art. 140, que os permite voltar � Terra, pergunta a eles se devem tentar ou n�o o regresso. Eles simplesmente respondem �tentem�. O verbo �tentar� aqui � usado de forma completamente diferente de uma bela poesia de Rilke �Eu vivo a vida em diversos an�is que sobre as coisas se enfiam o �ltimo eu talvez n�o chegue a completar mas vou tentar� O �tentar� dos fracassados personagens de Dellanoy � no fundo um olhar ressentido, mas absolutamente consciente de seu fracasso como indiv�duo, e n�o do fracasso das possibilidades. Tentam ser indiferentes, mas no fundo quase torcem pelo fracasso do novo casal, ou apenas lamentam que sua sorte dificilmente ser� diferente da sua. Comprovando seu talento, Dellanoy fecha o filme com um plano final muito sintom�tico. Num grande plano geral, o novo casal dan�a uma valsa no caf� desfigurado, enquanto os protagonistas se despedem, cada qual seguindo uma trilha diferente: uma, � direita; outra, � esquerda do sal�o. Nessa impossibilidade de seguir o mesmo caminho, neste austero desfecho fatalista, Dellanoy deixa clara sua vis�o sombria da Fran�a do p�s-guerra. Deixa claro ainda a liga��o de Jogo Feito no panorama do cinema franc�s, desde Tr�gico Amanhecer e os filmes sombrios de Marcel Carn� at� mesmo as ironias amorosas de inspira��o rococ� de Max Ophuls. .. Marcelo Ikeda (12/03/2004) |