A
Inglesa e o Duque
L�Anglaise
et le duc, 2001
De
Eric Rohmer
O
�ltimo filme de Eric Rohmer � um tanto at�pico de sua filmografia. Ao
inv�s de um drama contempor�neo sobre rela��es amorosas, o veterano
cineasta franc�s escolhe, desta vez, um filme hist�rico passado na �poca
da Revolu��o Francesa. A pol�mica que envolveu este filme foi que
Rohmer contou a hist�ria da Revolu��o sob o ponto de vista da
aristocracia derrotada, a partir dos conflitos de uma nobre aristocrata
(Grace Elliot) que v� seus direitos arbitrariamente perseguidos. Com
isso, Rohmer promove uma tentativa de resgate a um equil�brio, j� que os
burgueses partid�rios da Revolu��o notadamente cometeram excessos terr�veis
(lembremos a �poca do Terror), mas acima de tudo, o libelo de Rohmer �
pela toler�ncia, e pela amizade, um dos principais temas desse singular
filme.
Mas se engana quem espera um trabalho completamente at�pico das preocupa��es
de Rohmer. Dominado pelos interiores, com um intenso trabalho de pesquisa
(os di�logos s�o praticamente todos tirados das mem�rias de Grace
Elliot), e fortemente verbal, A Inglesa e o Duque n�o deixa de ser um
filme como os outros de Rohmer, tanto no sentido estil�stico quanto no
tem�tico, em que as conven��es da sociedade e do meio em si levam os
personagens a representar pap�is que o afastam de sua natureza �ntima.
Dessa forma, o jogo de sedu��o entre os dois personagens acaba
incorporando suas diferen�as de posi��o social, e as conven��es da
sociedade conservadora. A busca da protagonista inglesa, tentando entender
as transforma��es da sociedade francesa, se confronta com a necessidade
pol�tica do Duque de proteger seus pr�prios interesses,
metamorfoseando-se segundo o cen�rio pol�tico. Nesse cen�rio de mudan�as,
qual o valor da amizade (ou do amor), e dos antigos sentimentos?
Outra grande novidade expressiva neste filme est� nas cenas em
exteriores. Rohmer utiliza a tecnologia digital para compor um verdadeiro
tableau atrav�s do qual os personagens percorrem. Este tableau �
completamente falso em termos de um realismo da imagem (um mimetismo),
sendo, grosso modo, simplesmente uma tela pintada em aquarela, como um
fundo falso (quase uma t�cnica teatral) em que no primeiro plano os
personagens desfilam. Com isso, Rohmer cria um intenso estranhamento que
aponta para a impossibilidade da atualiza��o do processo hist�rico:
Paris j� n�o � mais a mesma, e o espa�o f�sico reflete a pr�pria
condi��o dos personagens. Essa dist�ncia problematiza de tal forma o
envolvimento do espectador com o realismo de um drama hist�rico que todo
o filme passa a se reposicionar a partir dessa conflituosa rela��o. O
filme ent�o assume o seu status de mera representa��o do passado hist�rico,
ao inv�s de um mergulho como se o per�odo pudesse ser revivido.
Al�m
disso, o per�odo hist�rico nunca � visto de maneira did�tica ou com o
esquematismo dos manuais de hist�ria. A Hist�ria �, pois, contada a
partir dos olhos do indiv�duo, mas nunca como mero pano de fundo
ilustrativo (como os filmes de Regis Wargnier, por exemplo), ou utilizando
o indiv�duo como agente representativo, ou como o �her�i� ou �m�rtir�
(desde Napoleon a Imp�rio do Sol). � na fragmenta��o e na parcialidade
do olhar, restrito � intimidade de sua conviv�ncia cotidiana, que Rohmer
registra as(im)possibilidades da Hist�ria. Com isso, at� mesmo pela
forma de encena��o, nos lembra dos filmes hist�ricos de Roberto
Rossellini feitos para a televis�o, especialmente A Tomada do Poder
Segundo Lu�s XIV. As rela��es de A Inglesa e o Duque com o filme de
Rossellini s�o in�meras, desde a adapta��o liter�ria, o estilo
brechtiano de distanciamento, o tratamento da hist�ria e do indiv�duo, e
o processo de reconstru��o da hist�ria (o cinema digital versus o
sofisticado processo �neo-sh�ftaniano� testado por Rosselini). Com
isso, o diretor franc�s contribui com um novo olhar para as adapta��es
hist�ricas no cinema e sua representa��o visual.
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