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Terra dos Sonhos In America, EUA, 2003 de Jim Sheridan Esta��o Pa�o, 9 de mar�o de 2004
Qualquer filme deve ser visto pelo que est� presente na tela, mas Terra dos Sonhos � um daqueles casos em que a parte autobiogr�fica � t�o presente que desconsider�-la seria quase que negar a realiza��o do filme. At� porque as principais qualidades de Terra dos Sonhos giram em torno deste mote: a afetividade que Sheridan imprime na pel�cula. Retratando o dia-a-dia de uma fam�lia de irlandeses que emigra para os Estados Unidos, Sheridan realiza talvez seu trabalho mais pessoal, nutrido pelas mem�rias de sua pr�pria fam�lia. O roteiro foi escrito a seis m�os, pelo pr�prio diretor, junto a suas duas filhas. Ao final, vemos uma dedicat�ria a Frankie, irm�o do diretor, tamb�m falecido, assim como o pr�prio Frankie do filme. Autor
dos pol�ticos Em Nome do Pai e Meu P� Esquerdo, Sheridan
at� pode ser criticado pelo tom ��gua-com-a��car� que predomina no
filme. Tudo converge para a fam�lia que, com uni�o e esfor�o, supera as
dificuldades e vence numa terra estrangeira. O estilo �s vezes cru e
realista do diretor desaparece por completo: quase como um conto de fadas,
Terra dos Sonhos foge das quest�es mais problem�ticas em torno da adapta��o
da fam�lia e dos preconceitos em rela��o ao estrangeiro. De qualquer
forma, � um filme do bem, a favor da toler�ncia e o respeito �s diferen�as
e ao papel da fam�lia. * * * Essencialmente,
Terra dos Sonhos desperta algum interesse pela forma como o
realizador desenvolve duas quest�es: a do ponto-de-vista e a do papel da
fabula��o. Terra
dos Sonhos come�a com uma imagem em digital, gravada por uma menina
(a mais velha das filhas) que surgir� quase como um alter ego do diretor.
Desse primeiro plano, j� se obt�m a n�tida constata��o de um
ponto-de-vista infantil. No entanto, ao longo do filme, Sheridan oscila o
foco do ponto-de-vista, centrando sua preocupa��o no pai, que tenta com
grande custo dar uma vida digna � sua fam�lia. Especialmente quando se
dedica a uma esp�cie de pequena crise conjugal, Sheridan confirma o seu
pr�prio ponto-de-vista. Sheridan fala sobre sua experi�ncia autobiogr�fica,
mas j� n�o � mais crian�a. Seu desejo da inf�ncia se confunde com sua
posi��o de adulto. Assim, Sheridan se alinha principalmente com os pais,
tentando compreender e muitas vezes justificar suas atitudes. Terra
dos Sonhos tamb�m � um filme sobre a fabula��o, sobre o processo
art�stico. Para isso, � fundamental a figura do pintor, representada
pelo africano Dmjou Houson. Trancafiado em seu apartamento, Houson
restabelece o contato com a vida atrav�s das duas doces meninas que
ingenuamente tocam sua campainha. (A cena � tocante. Houson teria que
expressar uma revela��o, uma ilumina��o, mas com o m�nimo recurso de
express�o corporal. Ele o consegue bravamente, praticamente apenas
prendendo a respira��o, e simplesmente com a for�a do olhar.) O pintor
se alimenta da vida para inspirar sua arte de sensibilidade, enquanto,
atrav�s de sua arte, traz alegria e cordialidade � rotina da fam�lia.
Uma cena t�pica da fus�o entre a cria��o art�stica e a vida ocorre
quando, numa cena de montagem, cenas do casal fazendo amor (no ato de
gesta��o de seu futuro filho) s�o alternadas com do pintor e de suas
pinceladas numa tela em branco. Outro exemplo � o fato de o pai ser ator,
mas ter grande dificuldade de expressar suas emo��es no cotidiano. A comovente cena final consegue unir essas duas tend�ncias numa bela tentativa de s�ntese. O pintor africano morre, mas o filho do casal consegue sobreviver. A filha mais nova est� deprimida porque seu amigo pintor n�o se despediu dela ao retornar para casa, como ele o havia prometido. Percebendo isso, o pai combina com a filha mais velha uma pequena �trapa�a� para com a outra filha. Aponta para a lua um rastro que seria o suposto aceno de seu amigo. A menina nada v�; os dois insistem com ela. O tom de fabula��o impera: � preciso criar um artif�cio para escapar �s imperfei��es da vida. Mas da� surge uma desconcertante revela��o: a filha mais velha pede para que o pai tamb�m d� um aceno de despedida para Frankie, o filho morto, cujo fantasma ainda assombra a fam�lia. O ponto-de-vista se confunde; o aspecto de fabula��o ganha contornos mais amb�guos e sinuosos. Tamb�m os adultos precisam de seus subterf�gios, e s�o t�o ing�nuos quanto as crian�as. O pai tamb�m precisa se despedir. Despedindo-se do filho morto, o pai pode cuidar do rec�m-nascido: � o passado que d� sua vez para o futuro; � a vida na Am�rica que toma a vez das mem�rias do passado na Irlanda. Mas o mais comovente � que, atrav�s desse gesto, � como se o pr�prio realizador se despedisse de seus fantasmas, de suas pr�prias mem�rias como crian�a. Pai e filha se despedem de seus antigos traumas. Atrav�s do pr�prio ato de construir uma f�bula (o filme), Sheridan faz as pazes com suas lembran�as, e pode enfim seguir em paz. � nesse instante que o filme, tendo sua miss�o cumprida, termina, seguido de uma cartela que o dedica exatamente a Frankie Sheridan.
Marcelo Ikeda (27/03/2004) |