O BURACO

 

Tsai Ming-Liang, cujo filme anterior - O Rio - ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim de 1997, retoma a tem�tica de an�lise cr�tica da sociedade contempor�nea. �s v�speras da virada do mil�nio, num bairro abandonado devido a uma epidemia, dois moradores de um pr�dio fazem contato inesperadamente. Um simples vazamento em um cano provoca as conseq��ncias mais absurdas para a moradora do andar de baixo, ultra-organizada e com mania de limpeza. Enquanto isso, o morador de cima negligencia o problema, tentando sobreviver com as suas ressacas e cuidando de uma mercearia que agora n�o possui mais nenhum fregu�s.

Com esse enredo simples, Liang faz um painel devastador para a chagada do ano 2000, como uma verdadeira apocalipse. Cen�rios vazios, epidemias, pessoas que n�o se comunicam. A ruptura estrutural do sistema � comparada com a pr�pria falta de estrutura do pr�dio. Um cano rompido, que provoca tantos problemas para a moradora de baixo, � uma falha do sistema por um motivo natural, sem nenhuma parcela de culpa dos moradores.

Liang acerta o tom do filme ao compor uma com�dia sombria com contrapontos inesperados. A ironia cool, as situa��es incomuns e o senso de absurdo o aproximam dos cineastas independentes norte-americanos. Mas em O Buraco, Liang supera as produ��es recentes desse cinema por usar os maneirismos t�picos desse estilo n�o como um fim, mas um meio de compor uma cr�tica impl�cita � desestrutura��o da sociedade de nossos dias. Esse estilo cool, que lembra na est�tica Jarmusch e Hartley, � composto por personagens bizarros, mas nem tanto dos trocadilhos nos di�logos e no ritmo fren�tico. O Buraco � puramente cinematogr�fico, baseado no jogo de imagens e no contraste, obtido pelo uso da montagem, do estilo de vida dos dois personagens que, mesmo sendo oposto, se aproximam inesperadamente. O estilo cool, relaxado, est� na aus�ncia de preocupa��o em fazer um filme bem-acabado, com uma fotografia exuberante e tomadas com muitos movimentos de c�mera. Na narrativa, est� na falta de preocupa��o com a causalidade, concentrado mais nas a��es em si do que em explicar os seus motivos, e na descontinuidade clara da narrativa.

Hartley e Jarmusch optaram por um tipo de cinema em seus �ltimos projetos que privilegia o preciosismo visual na fotografia, a longa dura��o dos planos e a incomunicabilidade para ironicamente coroar tipos absurdos quase como her�is. O estilo lento e reflexivo � um contraponto ao estilo cool, cru e descuidado, que era a marca desses diretores. A inten��o � mostrar definitivamente que seus filmes s�o autorais, "menos pop e mais de arte", mas o resultado � desarticulado. Liang prova que o estilo cool ainda pode ser mantido com uma cr�tica expl�cita � sociedade e ainda usando o long take. O novo estilo de Jarmusch e Hartley n�o incorpora a cr�tica aos valores da sociedade na est�tica, mas apenas nos di�logos e nos personagens. A ironia de Liang est� fortemente centrada em sua est�tica mal acabada, tresloucada, uma est�tica do absurdo para falar do absurdo.

O primeiro plano de O Buraco demonstra tem�tica e esteticamente as inten��es do diretor. Num longo plano, o morador de cima est� dormindo no sof� da sala, provavelmente curando alguma ressaca. O cen�rio revela o caos e a desorganiza��o do morador. Mesmo com um long take, o estilo cool permanece, refor�ando a in�rcia e a incomunicabilidade do morador, com um toque de humor e ironia.

As cenas mais curiosas do filme s�o os atos musicais, que espelham a vontade da moradora de baixo de se encontrar com o morador de cima. Dos contrastes, nasceria a harmonia: o �dio passaria a amor. A cena � claramente irreal, pela descontinuidade da narrativa e do figurino. A maquiagem pesada, as roupas coloridas e a m�sica s�o um contraste agressivo com o clima abandonado, monocrom�tico e ca�tico do pr�dio. A cena � filmada como um musical americano. Mas a aproxima��o entre os dois se confirma no final do filme. Com isso, Liang leva sua ironia ao limite, fazendo que o filme possa ser interpretado como uma hist�ria de amor, que nasce mesmo nos casos mais dif�ceis. Ou como uma declara��o otimista, j� que a uni�o do casal � o sinal de manuten��o da esp�cie. Mas a artificialidade do final nos leva a crer que Liang quis fazer outra ironia, fazendo um paralelo dos rumos da nossa sociedade no final do s�culo com o pr�prio cinema. O falso musical americano nos mostra o qu�o distante nossa sociedade est� do American way of life, e que a fragmenta��o das estruturas da sociedade (ou mesmo do pr�dio) revela que o estilo americano de cinema est� com um s�rio vazamento.

Marcelo Ikeda.

NOTA: 8

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