O PRIMEIRO DIA

 

A sess�o mais concorrida do festival foi a pr�-estr�ia no Rio de Janeiro do novo filme de Walter Salles, ap�s Central do Brasil. Os diretores do filme – o pr�prio Walter e Daniela Thomas – estavam presentes � sess�o, assim como a grande maioria dos atores, equipe t�cnica e alguns convidados ilustres. A expectativa p�s-Central se tornou muito grande, o que pode prejudicar o filme. O projeto envolve limita��es: para a s�rie 2000 visto por, os diretores tiveram que filmar em tr�s semanas com um or�amento modesto.

O filme tra�a duas hist�rias paralelas, entre pessoas com estilos de vida completamente diferentes que acabam se cruzando por obra do destino. O primeiro � um prisioneiro que recebe a liberdade com a condi��o de matar seu melhor amigo. A segunda � uma fonoaudi�loga que entra em crise quando o marido a abandona. As duas vertentes do filmes t�m caracter�sticas bastante diversas.

A primeira investiga o submundo do crime e as favelas do Rio de Janeiro, com marginais de classe pobre. Chico (Matheus Nachtergale) pede dinheiro a um policial para n�o denunciar o esquema, mas sabe que isso provocar� sua morte. Com o dinheiro, ele quer dar um presente para seu filho e mulher, que vivem na favela, separados dele. Em paralelo, na pris�o, o velho (Nelson Sargento) morre como um profeta. Jo�o (Luis Carlos Vasconcellos), um prisioneiro, permanece calado e apenas espera seu destino. Seu encontro com Chico, no alto da favela, � o ponto alto do filme. A tens�o do contraste do nervosismo histri�nico do condenado com a apatia monossil�bica de Jo�o � brilhantemente espelhada no modo �spero como o tiro final � efetuado. Nessa cena, o �nico por�m � a desnecess�ria ora��o distorcida de Chico. Mas obviamente Jo�o, depois de consumado o crime, tamb�m deve morrer. A persegui��o dentro dos corredores claustrof�bicos e sinuosos da favela � filmada com talento pela dupla.

Numa segunda vertente, Maria (Fernanda Torres) entra em crise quando seu marido (Carlos Vereza) a abandona no �ltimo dia do mil�nio. Sua crise depressiva se reflete em incomunicabilidade, quando ela, que ensinava anteriomente um aluno mudo a falar, tem dificuldades extremas para lhe informar do acontecido. Trancada em seu casulo, relembrando o passado, em busca de um motivo que lhe acalme, Maria fica neur�tica, destr�i livros, quebra o telefone e se perde nas �guas do chuveiro. A �gua � o contraste do fogo das armas e da favela. A in�rcia, a paralisia de Maria � um contraponto � tentativa de fuga de Jo�o.

Se Central do Brasil era uma tentativa de mostrar um Brasil redescobrindo as suas origens, O Primeiro Dia continua a investigar uma identidade para o Brasil perdida entre a grande diversidade social e cultural. O contraste entre a metr�pole e o interior como uma met�fora de uma descoberta de si mesmo � retomada em O Primeiro Dia como um contraste dentro do pr�prio meio urbano, entre pessoas de classes sociais e perspectivas opostas. Ao final, Salles e Thomas terminam com uma perspectiva otimista. A virada do mil�nio traria consigo a igualdade, e os dois, de situa��es t�o diversas, s�o no fundo a mesma pessoa, com os mesmos tipos de problemas. Mas os diretores n�o s�o t�o ing�nuos como se parece. Ao final, a morte de Jo�o recupera o tema da irreversibilidade do passado. A vida deve continuar, e as separa��es s�o inevit�veis. Nesse aspecto, o final se aproxima a Central do Brasil. Embora sejam pr�ximos, o casal est� condenado pelo destino a se afastar, assim como Dora e o menino em Central do Brasil.

Marcelo Ikeda.

NOTA: 7

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