ANTONIO FREDERICO OZANAM

A ntonio Frederico Ozanam nasceu em Milão, em 1813, em 23 de abril, quando a cidade estava ainda sob a domínio da França Seu pai, médico do exército ali sediado, voltou a radicar-se em Lião, em 1816, após o tratado que anexava Milão à Áustria. Fez seus estudos de Direito em Paris e revelou cedo uma certa tendência para a literatura e uma grande preocupação pelo problema social, que assumia graves proporções na grande cidade manufatureira que era Lião , Nessa cidade regeu a cátedra de Direita Comercial, nos anos de 1839 e 1840, mas já no ano seguinte, ano de seu casamento, nomeado suplente na Sorbonne, transfere-se para Paris. Sua atividade como escritor é intensa, seja polemizando com os saint-simonianos, seja publicando estudos sobre literatura italiana, em especial sabre Dante Aligeirei (1265.1321). Em 1848, adere com todo o ardor ao movimento democrático e funda, com Lacordaire, o jornal Ére Nouvelle, porém sua saúde já minada e suas profundas decepções pela evolução da França o obrigaram a se retirar de Paris e buscar melhores climas na Itália. De lá volta, em 1853, Para Marselha, onde vem a falecer em 8 de setembro, com apenas 40 anos de idade Ozanam foi um católico fervoroso, que se empenhou a fundo em reconduzir para a igreja a alma da França envenenada pelo filosofismo e pela revolução. Após várias tentativas para agrupar jovens intelectuais católicos, numa certa unidade de pensamento e de ação, fundou em 1833 as Conferências de São Vicente de Paulo, que consumam até hoje uma larga difusão por todo o mundo católico.

Foi ele que conseguiu do arcebispo de Paris que se reativasse a iniciativa das Conferências da Catedral de Notre-Dame, confiadas, por instâncias suas, a Lacardaire.

Colaborou em quase todos os jornais católicos franceses de seu tempo, assumindo sempre uma posição polemica e apologética. Em 1921, foi solicitado em Roma a introdução de sua causa de beatificação.

Ozanam não foi um reformador radical.

Sentiu profundamente o problema social de seu tempo, através de uma participação direta na vida dos pobres e dos humilhados. Foi um admirável apóstolo da Pobreza. Homem de ação, tanto como de pensamento, é impressionante o número de iniciativas por ele criadas ou que nele encontraram um animador e um colaborador entusiasta. Conservou sempre uma confiança inabalável na possibilidade de progresso da sociedade, o que significava para ele a necessidade de sempre renovar e nunca destruir totalmente.

Por isso, haveria de se opor cedo ao socialismo de Saint-Simon, no qual censurava de modo Particular a destruição do direito de propriedade:

("Qui ne Possède pas devient mercenaire") - (''Quem não possui toma-se mercenário").

Aderiu às idéias republicanas e ao chamado catolicismo liberal, que não se prendia às tradições monárquicas e acreditava firmemente na possibilidade de integração entre cristianismo e democracia. Não chegou a construir uma teoria social bem elaborada. Seu Pensamento é dominado pela idéia de conciliação entre as classes sociais, exigindo das classes ricas o máximo de sacrifícios. Tal resultado só o cristianismo poderia obter. Nota-se porém nele contraste marcante entre a sinceridade com que participava do problema social e desejava colaborar na sua solução e a timidez dos meios que preconizava. Esses não iam muito além de uma ação beneficente e dos expedientes moralizantes. Um momento apenas de sua trajetória, durante o seu curso de Direito Comercial, professado em Lião, tratando da questão do salário e da inevitável espoliação que a sistema exercia em favor do capital, chega a formular meios mais corajosos e fala na expansão da poupança, na intervenção do governo e no desenvolvimento das associações das trabalhadores, temas todas que reapareciam, 50 anos mais tarde, na Rerum Novarum (1891) Entretanto, não devemos hoje, analisando-lhe a obra com as nossas categorias, subestimar a significação de sua atividade assistencial Ela representava um enorme Progresso para a época e revelava em Ozanam a visão clara de que, além de todas as questão políticas, emergia para a humanidade a grande questão social.

Ele sondou as correntes do fundo para além das agitações efêmeras da superfície. Alias, a motivação que aduz para sua dedicação às obras de beneficências é ainda hoje válida para muitos.

"Somos muito jovens para intervir diretamente na luta social. Deveremos por isso ficar inertes na meio de um mundo que sofre e geme? De modo algum. Um caminho nos está aberto, que servirá para nós de uma preparação. Antes de fazer o bem ao grande público, podemos experimentar fazer o bem a alguns; antes de regenerar a França, podemos aliviar as dores de alguns de seus pobres".

Ele percebia já o risco dos grandes envolvimentos ideo1ágicos, tão em voga sob a inspiração marxista, que esgotam, em construções teóricas e em batalhas verbais, um dinamismo imediatamente mobilizável para realizações concretas e inadiáveis. Muitos de seus trabalhos giram em tomo de um tema central. o Pobre, o operário explorado.

"Há exploração quando o patrão considera o operário não coma um associado, um colaborador, mas como um instrumento do qual é preciso extrair o maior serviço possível pelo menor preço. Mas a exploração do homem é a escravidão. O operário máquina não é mais que uma parte do capital como o escravo a era do senhor; o serviço se torna servidão."

A ocasião histórica que lhe inspirava o assunto era o cortejo de misérias criadas pelas agitações de fevereiro de 1848, nas quais Marx via anunciar-se o inicio da grande revolução proletária e que inauguraram a efêmera II República. Ozanam é o primeiro a forjar o termo democracia cristã. Ele representa a primeiro choque vigoroso, para desidentificar o cristianismo da cristandade do antigo regime, a primeira fulguração de uma certeza irresistível de que o cristianismo poderia vir a se encarnar em novas estruturas democráticas e tornar-se a grande força inspiradora do novo mundo que nascia dos escombros da revolução francesa. Suas obras completas, em 11 volumes, foram editadas em Paris, em 1855, incluindo um estudo sobre as origens do socialismo.

 

BIOGRAFIA DE OZANAN

F rederico Ozanam viveu numa época de grande transição histórica, devido as conseqüências de três grandes revoluções: Revolução religiosa - A reforma de Lutero causou divergência de opiniões dentro da Igreja;

Revolução Francesa - Quebrou o ritmo político, contestou o direito dos Reis e do clero, popularizou o poder (qualquer pessoa podia assumir cargos importantes);

Revolução Industrial - Surgimento das máquinas que passaram a ocupar o lugar do homem, causando desemprego e agravamento do problema social.

NASCIMENTO FAMÍLIA E INFÂNCIA

A ntônio Frederico Ozanam nasceu em Milão, Itália (sendo seus pais originários da região de Lyon, na França), em 23 de abril de 1813. filho de João Antônio Ozanam (foi militar, comerciante, formando-se mais tarde em medicina) e Maria Nantas. Ozanam recebeu sólida formação religiosa, pois seus pais eram cristãos autênticos, praticantes da caridade.

Com 9 anos - Freqüentava o Colégio Real de Lyon, tendo como base os ensinamentos anteriores de sua mãe, Maria Nantas, que era muito culta. O colégio, embora dirigido por um sacerdote — Padre Noroit — tinha a maioria dos professores, leigos e partidários do materialismo e do ateísmo.

Com 13 anos - Compunha em prosa e verso, em francês e latim, influenciado pela mãe, a irmã Elisa e seu irmão Afonso. Seus assuntos constantes eram a vida de Cristo e louvores à Virgem Santíssima, de quem era fiel devoto. Aos quinze anos - Matricula-se no curso de Filosofia. Lá, as tendências materialistas e mestres, que usavam todos os meios de obscurecer os sentimentos religiosos, levaram Ozanam a ter dúvidas de fé e incertezas, embora não extinguisse sua fé em Deus. Certo dia, numa Igreja, diante do Santíssimo Sacramento, prometeu consagrar sua vida inteira à defesa da fé, se conseguisse penetrar na Verdade. Assim, a providência divina o colocou em contato com o Padre Noroit, que muito lhe orientou nessa crise de indecisão. A respeito disso, escreveu Ozanam: "Consegui por em meus pensamentos a ordem e a luz. Daí por diante passei a crer com uma fé racional e esclarecida".

Já aos 16 anos - Lança seu primeiro livro, combatendo a doutrina "Cristianismo Novo". Termina seus estudos secundários. Era desejo de seu pai, que ele fosse Juiz de Direito, mas dada sua pouca idade para afastá-lo da família, mandando-o para Paris a fim de cursar a faculdade, o colocou praticamente num escritório de advocacia para familiarizar-se com as práticas jurídicas. Ozanam submeteu-se docilmente aos desejos do pai, embora movido pela vocação literária, dedicasse suas horas de lazer à leitura e ao estudo de línguas. Com 17 anos - Lia e escrevia correntemente em 12 idiomas.

Deixa Lyon aos 18 anos, com destino a Paris, para ingressar no Curso de Direito. Morando numa pensão, o tímido Ozanam estava amargurado, solitário e desnorteado com o ambiente irreverente, irreligioso e promíscuo de sua nova moradia.

Foi nesse estado que Ozanam conheceu o Padre Mardual, que tornou-se seu único conselheiro em Paris.

Dois anos depois, Ozanam lembrou-se de André Maria Ampère, o gênio da eletricidade, que ele conheceu em Lyon, aos 16 anos, no lançamento do seu primeiro livro. O sábio ficou tão entusiasmado com a inteligência do jovem autor, que lhe ofereceu sua residência em Paris. Ozanam procurou então o cientista Ampère, que era autêntico católico. Este convidou-o a ocupar o quarto de seu filho que e achava estudando na Alemanha. Ozanam morou com Ampère dos 18 aos 20 anos.

Ozanam conheceu Chateaubriand, o consagrado autor do "Gênio do Cristianismo", livro de grande divulgação e interesse dos jovens católicos de 1830.

Em Paris, Ozanam trocava os teatros pelas reuniões literárias. Sua convivência com cientistas, sábios, filósofos, oradores e escritores, forneceram-lhe subsídios par compor um eficaz plano de ação em defesa da religião Católica.

Com 19 anos - Iniciou seu curso de Direito na Universidade de Paris — a Sorbonne. As doutrinas de caráter materialista eram divulgadas pelos jornais estudantis, em reuniões extra-classe e pontilhavam todos os assuntos tratados em sala de aula. A maioria dos professores e alunos eram ateus. Ozanam reuniu um grupo de estudantes católicos, para melhor enfrentarem os adversários.

Sabendo da existência da quase extinta "Sociedade dos Bens Estudos", dirigida pelo jornalista católico Bailly de Surcy, Ozanam e seus companheiros o procuraram. E assim, usando a auditório do jornal de Bailly, a "Tribuna Católica", constituíram nova entidade denominada "Conferência de História", instrumento de defesa dos princípios morais e religiosos. Tal entidade era aberta a partidários de todas as correntes filosóficas e de todos os credos religiosos. Mas, com a crescente divergência de opiniões, as reuniões se tornaram contraproducentes, não atingindo seu objetivo — a divulgação da doutrina cristã. Numa dessas reuniões, cheia de ataques à doutrina católica, um jovem lançou uma provocação: "... onde estão os frutos da caridade que a religião de vocês prega?". Com aquele desafio, Ozanam, meditando profundamente, concluiu que faltava a prática da caridade no evangelho. Assim, formou-se um grupo composto apenas de jovens católicos: Bailly, com 40 anos, que presidia as reuniões; Lamache, 22 anos, Clavé, aproximadamente 22 anos; Le Taillandier, 22 anos; Devaux, 21 anos; Ozanam, 20 anos; Lallier, 19 anos. Bailly era jornalista e professor de filosofia. Devaux cursava medicina e todos os demais cursavam direito na Sorbonne. Este grupo recebeu o nome de "Conferência de Caridade", e sua primeira sessão realizou-se em 23 de abril de 1833, na redação da "Tribuna Católica".

Após um ano e meio de existência, a "Conferência de Caridade" contava aproximadamente 100 confrades. Ozanam propôs então o desdobramento da Conferência. Com isso, e também a fundação de outras Conferências, foi preciso criar um órgão — o Conselho — ligando todas as Conferências.

Foi preciso criar também um regulamento, aprovado em 1835, para evitar o desvirtuamento da finalidade das Conferências. O regulamento filiava também todas as Conferências e Conselhos a outra Entidade — a Sociedade de São Vicente de Paulo.

VIDA PROFISSIONAL DE OZANAN

16 anos - Publica seu primeiro livro, combatendo a doutrina "Cristianismo Novo", lançado pelo conde Saint-Simon;

20 anos - Forma-se em direito, em Paris, e volta a Lyon para advogar;

22 anos - Licenciou-se em Letras;

23 anos - Volta a Paris para defender as teses que lhe intitularam "Doutor em Direito";

25 anos - Vai novamente a Paris, defendendo as teses que o asseguraram o título de "Doutor em Letras". De volta, foi nomeado professor de Direito Comercial da Faculdade de Lyon;

26 anos - Foi nomeado pelo ministro da instrução a assumir a Cadeira Comercial que já vinha ocupando;

28 anos - Ozanam foi aprovado em concurso, para Professor de Literatura na Sorbonne, indo residir definitivamente em Paris. Graças a ele, a Sorbonne, Universidade de fama mundial, passou a ter o curso de Catolicismo;

Ozanam, além de todas as outras atividades, escrevia em jornais, deixando ainda inúmeros livros. Preocupava-se com os problemas sociais e defesa dos Direitos Humanos. Ele propunha salários justos, existências de Sindicatos como mediadores entre patrões e empregados, participação dos empregados nos lucros da empresa (atual PIS-PASEP e "Adicional de Produtividade"), Salário-Família.

As idéias de Ozanam, foram pela primeira vez, 60 anos depois, considerados pelo Papa Leão XIII, na "Encíclica Rerum Novarum" e daí por diante, tornou-se preocupação constante dos Papas, inclusive de João Paulo II. - Sendo considerado o precursos da Doutrina Social da Igreja.

Casou-se aos 28 anos, com a jovem Josefina Amélia. Quatro anos depois, nasceu a primeira e única filha, Maria Amélia.

A SSVP

Apesar de tantas atividades profissionais e familiares, Ozanam encontrava tempo para se dedicar à SSVP. Sua modéstia nunca permitiu que ele aceitasse o cargo de presidente. Recomendava aos confrades espírito de humildade; condenava a atitude dos que elogiavam seus próprios atos; desaconselhava a publicidade exibicionista e inoportuna dos trabalhos da SSVP. Antes mesmo de sua morte, a SSVP já havia atravessado as fronteiras da França, estendendo-se por toda a Europa e chegando até a América. A primeira Conferência Vicentina no Brasil foi fundada em 1872, no Rio de Janeiro.

MORRE ANTONIO FREDERICO OZANAM

C onfortado com os sacramentos da Igreja, Ozanam morre aos 40 anos, em Marselha (França), no dia 08 de setembro de 1853 (dia da Natividade de Nossa Senhora).

As últimas palavras de Ozanam:

"Meu Deus, meu Deus, tende piedade de mim". Depois suas mãos caíram inertes, como que oferecidas ao Senhor.

BEATIFICAÇÃO

O confrade Antônio Frederico Ozanam (Frédéric Ozanam, no original francês) foi beatificado dia 22 de agosto de 1997, na catedral de Notre-Dame de Paris.

A Sociedade de São Vicente de Paulo agora espera sua canonização, para que definitivamente possa ser venerado em todos os altares como modelo de santidade colaborando para promoção dos mais pobres e necessitados.

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